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A lição cubana sobre a felicidade

Se os cubanos tivessem deixado a felicidade à sorte, as dificuldades e a deterioração ao seu redor fariam da felicidade um sonho distante. English Español

Shreya Kalra
23 April 2020
NurPhoto/NurPhoto/PA Images

Muito do que se sabe sobre Cuba, uma pequena ilha caribenha perto da costa de Miami, vem de suas relações internacionais com os Estados Unidos. Na verdade, a história de Cuba tem sido esculpida e moldada – como seixos desgastados pelas ondas do mar – por forças de fora do país.

Hoje, Cuba é conhecida por algumas coisas: comunismo, charutos, Che Guevara, Fidel Castro, rum e, claro, seus ritmos únicos de jazz afro-espanhol que fluem por suas ruas de paralelepípedos. Entretanto, em minha recente viagem a Cuba antes dos bloqueios internacionais para aplanar a curva da Covid-19, aprendi algo sobre o país através de seu povo, e a própria vida que pulsa em seus edifícios barrocos, dilapidados mas coloridos, que nenhum guia turístico ou livro de história poderia ter me contado.

Aprendi sobre a arte da felicidade e como ela parece estar enraizada na cultura cubana junto com a revolução, pizzas cubanas, bolos de coco, as filas para comer galinha e dançar ao som de música.

O filósofo grego Aristóteles concluiu que a vida humana é dedicada a alcançar a felicidade. O processo inclui desenvolver seu potencial e usar suas virtudes, não apenas para ser feliz, mas para estar satisfeito. A palavra que ele usou para descrever o propósito da vida é "eudaimonia", que se traduz vagamente como bem-estar. A felicidade, segundo Aristóteles, não é algo que possa ser deixado à sorte. Quantas obras de arte Salvador Dalí teria produzido, ou quantos poemas Maya Angelou teria escrito, se apenas tivessem se deixado levar pela inspiração? Assim como a arte é produzida através de trabalho árduo e deliberação diária, também o é a felicidade, disse Aristóteles, tornando-a uma atividade e não apenas um estado de espírito.

Eu sabia muito pouco sobre Cuba antes de ir a Havana, passando pela cidade de Cienfuegos, outrora ocupada pelos franceses, e finalmente chegando a Trinidad, patrimônio mundial da UNESCO. Sabia da relação deles com os Estados Unidos e como seus embargos determinavam quão cheia ou vazia estariam as bodeguitas de Cuba, ou quanto tempo as pessoas teriam que esperar na fila para obter alimentos e artigos domésticos essenciais. Imaginei que era apenas um país de praia, um lugar onde os vizinhos mais ricos dos Estados Unidos e Canadá vinham beber grandes quantidades de mojito nos feriados longos.

No entanto, o que eu vivi me levou além das limitações de suas 896 milhas de costa.

Eu testemunhei que a vida cotidiana em Cuba não é fácil. A derrubada do ditador opressivo Fulgencio Batista por Fidel Castro pode ter acabado com seu regime corrupto e opressivo, mas o povo, sob o manto do comunismo, ainda é reprimido economicamente e em termos de liberdades civis pelo atual governo. Fiéis à nossa identidade como jornalistas, meus companheiros de viagem e eu tentamos conversar com muitas pessoas sobre sua política e história. Estávamos lá! E pensamos que seria a melhor maneira entender a realidade das pessoas, independentemente do que diz a mídia estatal ou a grande mídia global, impulsionada por sua própria agenda. No entanto, o medo da repercussão – e da prisão – dificultou o contato. Estas eram conversas reservadas para espaços seguros ou lugares isolados.

Sob o manto do comunismo, o povo ainda é reprimido economicamente e em termos de liberdades civis pelo atual governo

Um entre os que aceitaram compartilhar sua realidade foi Danny, que nos acompanhou ao Parque el Cubano em Trinidad em uma charrete. Enquanto sacudíamos pelas tranquilas estradas de terra de Trinidad, acompanhados por uma cadeia de montanhas ao nosso lado, ele parou em frente às montanhas do Escambray de la Revolución, onde Castro se escondeu dos militares de Batista e disse: "Se Castro estivesse vivo hoje e visse a situação do país e seu povo, ele morreria de novo".

Os salários em Cuba estão suprimidos, as rações diárias são irracionalmente limitadas e há muita espera nas filas. Um médico – considerado uma profissão de primeira linha com altos salários na maior parte do mundo – ganha uns escassos 90 CUCs em Cuba (aproximadamente 90 USD). Para colocar este salário em perspectiva – uma pizza em um café de rua custa 2 CUCs. O governo alocou pequenas quantidades de arroz, grãos, café e outros itens essenciais para cada pessoa. Isso significa muita gente "va a la izquierda" – vira à esquerda, eufemismo para o mercado negro. A maioria dos mercados em que entramos estava vazia. Havia alguns produtos de decoração nas prateleiras. Todos os dias víamos pessoas esperando na fila, por uma coisa ou outra. Produtos frescos, no entanto, existem em abundância. Fato interessante: Cuba é líder mundial na produção sustentável de frutas e verduras e produz a maioria de seus próprio produtos.

No entanto, apesar da sobrevivência diária a que os cubanos estão acostumados, havia vida nas ruas. Eu senti e experenciei uma energia vibrante. Música e ritmo saíam de cada varanda dilapidada em Havana, sem importar o marcador no relógio. Por onde quer que eu andasse, a idiossincrática batida afro-espanhola cubana, tak-tak taktak, me seguia, enchia meus ouvidos e em uma tentativa de me fazer dar um passo de salsa. A música não estava preocupada com a minha timidez.

"A situação aqui é muito complicada" é uma frase que eu ouvi muito em Cuba. É uma forma de explicar as complexidades inexplicáveis?

Essa mentalidade de ir contra todos os obstáculos que eu vi em todos os lugares me despertou curiosidade. Venho de um país menos desenvolvido, a Índia, e vivo em um dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo, o Canadá. Até 20% dos jovens canadenses são afetados por uma doença ou transtorno mental. Na Índia, em 2016, 10% da população adulta sofria de alguma uma doença mental. Ambas as nações não poderiam estar mais distantes, mas ambos os seus povos experimentam altos níveis de problemas de saúde mental. Cuba está mais próxima da Índia em termos de desenvolvimento, mas suas lutas, à sua maneira, são mais profundas e mais matizadas do que a Índia. Pelo menos, o povo da Índia é livre e vive em uma democracia. Mas apesar da falta de liberdade em Cuba, as pessoas pareciam estar envolvidas em um ato de libertação deliberada. Havia um ar de descontração, tranquilidade e felicidade. Como é isso?

Na nossa segunda noite em Havana, meus amigos e eu acabamos novamente no Bar Cristo. Sua música ao vivo e seus rostos amistosos nos atraíram de volta. Fizemos amizade com a banda, e eu não pude deixar de perguntar sobre o segredo deles. Milhões de livros foram escritos sobre a arte da felicidade, mas as pessoas aqui o fazem sem um curso ou diploma. "A felicidade é parte da nossa cultura. Como a música", disse um de nossos novos amigos. "É muito difícil mudar a nossa situação aqui, mas ainda podemos mudar nossas atitudes". Tanto Aristóteles como Buda devem ter se abraçado fortemente em seus túmulos. Se os cubanos tivessem deixado a felicidade à sorte, as dificuldades e a deterioração ao seu redor fariam da felicidade um sonho distante.

Como em qualquer país autoritário, o governo está pronto para prendê-lo a qualquer momento. Por isso o povo evita falar de política; para não dizer algo contra o governo e o sistema e acabar na prisão. Seus salários suprimidos são uma forma de manter as pessoas presas em um modo constante de sobrevivência, onde há pouco tempo para fazer outra revolução. Mas ao menos todos são mais ou menos igualmente reprimidos, o que deixa pouco espaço para invejar o próximo.

"La situación es muy complicada aqui", (A situação aqui é muito complicada) é uma frase que eu ouvi muito em Cuba. É uma forma de explicar as complexidades inexplicáveis? Hoje, quando um terço da população mundial está sob alguma versão de quarentena, podemos aprender muito de Cuba sobre como ser feliz. Quando pouco pode ser feito sobre o momento presente, a situação atual, muito pode ser feito com um sorriso no rosto. Não importa o quão forçado ou deliberado, não importa o quão difícil seja nos momentos mais difíceis. Em Cuba, pelo menos, Aristóteles tem razão.

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