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A luta das mulheres indígenas na Bolivia está agora online

Yolanda Mamani - Chola, blogueira e YouTuber - luta através de espaços virtuais. Español English

Fabiola Gutiérrez
25 October 2019
A dança das Cholas, 09 de fevereiro de 2018.
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Foto: NurPhoto/NurPhoto/PA Images. Todos os direitos reservados.

As Cholas são mulheres indígenas da Bolívia Andina que usam seus cabelos em duas longas tranças, chapéu-coco, uma manta, um aguayo tradicional que as permite carregar coisas nas costas, e saias plissadas com camadas de anágua por baixo.

Qual é o lugar da Chola na Bolívia? Como são mostradas as cholas bolivianas na mídia? O que é dito sobre elas no âmbito acadêmico? O que fazem quando participam de desfiles de moda? Qual é o seu lugar em festas eletrônicas? Que posições políticas ocupam agora que a Bolívia tem seu primeiro presidente indígena há mais de uma década no poder?

“Ser Chola está na moda”, responde a Chola feminista Yolanda Mamani. De fato, ela publicou um blog com o mesmo nome no final de 2015, um espaço que complementa, desde o início de 2019, com seu canal no YouTube chamado “Chola Bocona”, o que pode ser traduzido a algo como "Chola bocuda". Lá, Yolanda explica como se fosse professora de escola primária e relata como jornalista o que ela analisa com as pinças de uma cirurgiã feminista sobre o papel das Cholas na sociedade boliviana.

Assim relata Yolanda, já no primeiro minuto de seu primeiro vídeo subido ao YouTube:

"Quando eu brigava pelos meus direitos, meus empregadores me diziam: 'Por que você é bocona? Por que você tem que ser uma imilla reclamona? Por que você não cala a boca quando eu falo? Eu te pago, você só tem que ouvir'. Foi por isso que decidi reivindicar essa palavra. Sim, sou bocona. Se não fosse, não estaria aqui contando minha história”.

Imilla quer dizer menina na língua aimará (aymara) e também pode ser usada em um tom depreciativo. Bocona é quem fala muito e exige mais. "Menina bocuda" era o adjetivo para Yolanda usado por seus empregadores quando trabalhava como doméstica e reivindicava direitos como respeito ao horário de trabalho, poder usar a saia que simboliza sua identidade, ir à escola, acesso a benefícios sociais, ir para a faculdade.

"Querem tratar as Cholas como ornamentos"

Yolanda relata no vídeo como a imagem da Chola vem se tornando popular ao mesmo tempo que sua filosofia de vida continua sendo desmerecida. As Cholas são convidadas a participar da vida política, mas suas opiniões ou projetos não são considerados. Sua imagem serve apenas para passar a imagem políticas progressistas e validar candidaturas.

Ele também comenta que em cenários de entretenimento, como desfiles de moda ou festas que vendem o conceito de fusão da cultura andina com o eletrônico, as Cholas são folclorizadas, uma vez que sua participação é limitada a danças de adorno. Ela descreve que qualquer atividade que as Cholas realizam fora do trabalho doméstico é motivo de notícias, como legisladores, funcionários públicos, andar de skate ou abrir seu canal no YouTube, como ela. Yolanda também afirma que a academia fala sobre Cholas com um olhar externo e superficial.

Por outro lado, "há mulheres que usam a saia por conveniência", escreve Yolanda em seu blog. Essa entrada é intitulada "As mulheres que se disfarçam". Yolanda pergunta a elas por que usam a saia para desfilar ou para conquistar cargos públicos e não para serem garis ou trabalhadoras domésticas. Dado o uso da saia como uma fantasia, Yolanda enfatiza que, para ela, o verdadeiro significado de ser Chola é lutar.

Chola boliviana. | Foto de Eduardo Montaño. Usada com permissão. Via Global Voices

O significado dos costumes das Cholas

Ela também descreve o que significa para as Cholas trançarem os cabelos, o escambo, participarem do plantio e da colheita. Relata não apenas a harmonia de tais costumes, mas também como eles questionam ​​o machismo, o desejo de branquear e a visão consumista de desenvolvimento.

Sobre as tranças, ela explica em seu blog que proporcionam um momento de conversa e intimidade entre as mulheres, além de oferecer um momento para falarem sobre seus problemas. Devido à importância das tranças, cortar a trança de uma mulher é uma forma de punição pública, por exemplo por adultério, mas não há consequências para os homens.

Em uma entrada em seu blog intitulada "Semear e colher, um encontro ideológico", ela explica que a colheita é um espaço na comunidade em que moradores e migrantes se reúnem e conversam horizontalmente entre homens e mulheres sobre suas posições políticas e ouvem as notícias nacionais e internacionais. Oferece um espaço diferente das assembleias, onde a hierarquia predomina e onde as mulheres são alvo de piada quando ousam se pronunciar.

Sobre o escambo, outro post do blog explica que permite a troca de alimentos entre os agricultores. Mas também explica que, atualmente, comerciantes levam alimentos enlatados vencidos para as comunidades, usando truques para trocar produtos estragados que deixam a comunidade doente enquanto levam o melhor das colheitas.

Chola, feminista e jornalista

Yolanda Mamani escreve e fala em primeira pessoa. Ela é, em primeiro lugar Chola, mas é também membro do movimento feminista Mujeres Creando (Mulheres criando), estudante de sociologia, administradora do vlog Chola Bocona e do blog Ser Chola está de moda. Ela também é produtora de Warminyatiawinkapa, “As notícias das mulheres” em Aimará, um programa transmitido às sextas-feiras em La Paz pela Rádio Deseo de Mujeres Creando.

No mesmo rádio, foi transmitido o programa "Trabalhadora doméstica com orgulho e dignidade". Isso foi feito por Yolanda com dois colegas do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Sopocachi. Elas, junto a outros setores de mulheres, fizeram um treinamento de rádio oferecido pela Mujeres Creando.

Quando Yolanda Mamani reportava para seu primeiro programa de rádio, ela decidiu cobrir a VIII Marcha pelo TIPNIS, território indígena e parque nacional no nordeste boliviano que será atravessado por uma estrada interoceânica. Essa experiência a motivou a estudar sociologia.

Ela exigiu ir à escola e foi demitida quando quis entrar na universidade

"O mundo não é possível sem bocones nem boconas"

Yolanda Mamani, cuja língua materna é aimará, aprendeu espanhol quando migrou para a cidade de La Paz aos 11 anos com uma tia, que a fez trabalhar como babá em troca de hospedagem. Aos 12 anos, começou a trabalhar como empregada doméstica, e permaneceu na mesma casa por 11 anos. Ela recebia menos de US$ 50 por mês e não tinha benefícios sociais. Ela exigiu ir à escola e foi demitida quando quis entrar na universidade. Quando criança, seu pai a levava à escola em um burro, além de encarar uma hora e meia de caminhada. Yolanda nasceu em Warisata, a 15 quilômetros da costa leste do lago Titicaca.

A vida de Yolanda é marcada pela luta para ser uma Chola que estuda, migra para a cidade, aprende espanhol, trabalha como empregada doméstica, não deixa de usar suas saias, estuda, sindicaliza, politiza como feminista, vai para a faculdade, é radialista e agora é uma YouTuber feminista. Seja qual for o seu próximo passo, esta Chola bocona continuará nos obrigando a refletir em primeira pessoa, analisando os espaços de poder e compartilhando o que encontra. Não é de surpreender que em seus vídeos ela se despede com um: "O mundo não é possível sem bocones nem boconas".

Sobre Cholas bolivianas

As Cholas são o ícone cultural boliviano mais exportado. Historicamente, são vítimas de discriminação. Do veto à participação política em suas comunidades, à proibição do uso de espaços públicos ou transporte, até o trabalho doméstico como uma de suas poucas oportunidades de trabalho quando migram para as cidades, em que sofrem condições de escravidão, exploração e violência sexual, física e psicológica nas mãos de seus patrões. Inclusive, para de usar sua vestimenta traditional é uma das estratégias que se forçam a aceitar para acessar melhores oportunidades.

Atualmente, após pelo menos 60 anos de luta social, seu lugar na sociedade passou da marginalização sistemática a esforços para valorizar as Cholas. No entanto, elas ainda têm menos oportunidades do que as mulheres não indígenas de exercer seus direitos de acesso à educação, saúde, justiça e emprego decente, entre outros.

Embora as formas colonialistas ainda persistam hoje, como escravizá-las, apagá-las da cena social e exigir que elas não se vistam como Cholas, é possível vê-las entre legisladores, funcionários públicos, jornalistas e apresentadores de televisão, mulheres de negócios, professores, estudantes universitários, carpinteiros, motoristas, guardas rodoviários, atrizes e modelos. Tais papéis são motivo de notícias, o que confirma os múltiplos níveis de discriminação que ainda existem.

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O artigo foi publicado em espanhol originalmente no Global Voices. Leia o original aqui aqui

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