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Marina Silva: “os incêndios na Amazônia são um crime contra a humanidade”

democraciaAbierta esteve em um evento com a ex-ministra brasileira e ativista ambiental Marina Silva em Bogotá, onde contou por que o meio ambiente não é uma questão de ideologia política. Español English

Beverly Goldberg
3 September 2019
Marina Silva em Bogotá, 2019.
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Ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula, ativista ambiental e vencedora do Goldman, Marina Silva está usando sua voz para desafiar as políticas ambientais do atual governo brasileiro, o que poderia ter contribuído para um aumento de 83% nos incêndios florestais em Amazônia brasileira desde o ano passado.

Marina, eleita senadora em 1994 pelo Estado do Acre, já tinha uma longa história de ativismo ambiental antes de entrar no mundo político. Ela nasceu em uma família com recursos limitados, descendentes de escravos africanos e imigrantes portugueses, perto da cidade de Rio Branco, na fronteira com a Bolívia.

Sua família sempre enfrentou dificuldades, como a morte de sua mãe quando ela tinha apenas 14 anos e a morte de dois de seus irmãos mais novos. Quando Marina tinha 16 anos, ficou doente de hepatite e chegou à cidade de Rio Branco para se tratar. Foi só então que aprendeu a ler e escrever, e começou a se preparar para ser freira.

Mas aos 17 anos, viu um cartaz em sua igreja para um curso de liderança de sindicato rural. Ela decide se matricular e acaba conhecendo o carismático ativista ambiental e ecologista Chico Mendes. A partir desse momento, deixa de lado suas ambições de ser freira e se torna defensora da floresta, trabalhando com Mendes até ser morto em 1988 por proprietários de terras, que o viam como uma ameaça à sua atividade econômica.

Marina Silva em Xapuri, Acre, na década de 90, com um retrato de Chico Mendes. | Wikimedia Commons

Agora, Marina luta contra as políticas ambientais de Bolsonaro no Brasil, na América Latina e no mundo. Sua voz é cada vez mais relevante quando vemos a Amazônia pegando fogo por mais de três semanas: “os incêndios na Amazônia são um crime contra a humanidade”, diz Marina, “o governo Bolsonaro está desfazendo todas as políticas ambientais que existiam antes".

Quando foi ministra do Meio Ambiente durante o governo Lula, Marina conseguiu reduzir o desmatamento em 80%, em suas próprias palavras. Marina enfatiza a importância de políticas públicas para conter as mudanças climáticas e proteger a floresta amazônica.

Criamos 24 milhões de hectares de áreas de conservação, aplicamos 4.000 milhões de reais em multas e levamos muitos desmatadores para a cadeia

"Quando cheguei ao Ministério do Meio Ambiente em 2013, o desmatamento era muito comum e criamos um o plano de combate ao desmatamento da Amazônia e o Fundo Amazônia". A ideia, ela nos diz, era promover a união entre diferentes ministérios para criar um plano de ação abrangente que resolvesse o problema com rapidez e eficiência.

"Unimos o Ministério do Desenvolvimento Agrícola, Tecnologia e Defesa e criamos um sistema de detecção de desmatamento em tempo real". Também reforçou as multas para aqueles que desmataram ilegalmente e demarcaram os territórios que estavam mais em risco para protegê-los da predação. "Criamos 24 milhões de hectares de áreas de conservação, aplicamos 4 bilhões de reais em multas e levamos muitos desmatadores para a cadeia".

Foi com essas ações durante seu tempo como ministra do Meio Ambiente que ela conseguiu reduzir drasticamente os ataques contra a Amazônia. No Brasil, como em muitos outros países latino-americanos de hoje, há uma polarização muito forte entre esquerda e direita, e Marina também é muito crítica quanto à maneira como essas forças políticas polarizadas cooptaram questões ambientais, criando confusão e desânimo.

“Alguns setores mais tradicionais da esquerda no Brasil, no meio dessa polarização, começaram a criar o discurso de que cuidar do meio ambiente era apenas uma coisa da esquerda” e, consequentemente, muitas pessoas não queriam se envolver com a defesa da floresta porque viam isso como algo de esquerda. "Mas temos que superar esse discurso, porque cuidar do meio ambiente não é da esquerda ou da direita, pertence a todos."

Existem muitos desafios para alcançar uma maior mobilização política hoje no Brasil. Há um grande desencanto por causa da corrupção da esquerda e das tendências autoritárias da direita.

Mas os incêndios na Amazônia são "um crime contra a humanidade", diz a ex-ministra. Hoje, mais do que nunca, as pessoas precisam sair para defender a floresta amazônica se realmente querem que as coisas mudem.

Em seu discurso, Marina destaca um último ponto central do debate: "Precisamos de desenvolvimento sustentável, e não o tipo de 'desenvolvimento' que estamos vendo agora. Isso significa que um país é ambientalmente sustentável, politicamente democrático e socialmente desenvolvido".

Se não superarmos a confusão e a crise de valores que estamos sofrendo atualmente na América Latina, e assumirmos que o desenvolvimento social, o meio ambiente e a democracia estão intimamente ligados, será cada vez mais difícil alcançar o desenvolvimento sustentável.

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