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Medo: chegou a hora de enfrentar essa emoção

Uma perspectiva psicológica sobre a Covid-19. English Español

Peter Nasmyth
1 June 2020
Pixabay/T.P.Heinz. Pixabay licence.

Dizer que existem dois vírus ativos em nossa sociedade, o bioquímico e o vírus do medo na mente das pessoas, não é uma grande revelação. Mas a forma como o primeiro desencadeou o segundo, juntamente com as medidas de isolamento social que se espalham pelo mundo como uma armadilha autodestrutiva da espécie humana, vale a pena ver sob uma perspectiva psicológica.

A primeira questão é como tais medidas draconianas foram passadas tão rapidamente e com tão extraordinário cumprimento? O medo, é claro, é a resposta – usando-o, ou no caso do coronavírus, sendo usado por ele.

O medo do vírus é na verdade o medo da morte – da sua própria, ou de um parente próximo. Não é a infecção por Covid-19 que assusta tanto as pessoas, mas sim a presença da própria mortalidade espreitando dentro desse agente viral invisível e aleatório que é capaz de atingir qualquer um, a qualquer momento.

A força dessa reação é favorecida pelo caráter constante e unilateral da mídia, que enfatiza o número total de mortes e ignora o número de pessoas que se recuperaram, que poderia ser considerado igualmente importante.

No entanto, é preciso ter cautela ao atribuir culpa, ou atirar no mensageiro, pois o próprio mensageiro tem medo, muitas vezes por causa dos seus próprios relatos.

As tendências de se auto-infectar com o vírus do medo induzem ao "pensamento catastrófico" e são altamente infecciosas em si mesmas – daí a notável propagação do confinamento ao redor do mundo.

Porque o medo da morte é um motivador tão poderoso que pode dominar reações mais ponderadas e conscientes. Uma vez ativado, o "Arquétipo da Morte", conforme identificado pelo psicólogo analítico C. G Jung, pode rapidamente ser detonado e dominar a resposta humana.

Como admitiu David Halpern, Chefe Executivo do Behavioural Insights Team (BIT) responsável pela publicidade da Covid-19 no programa da Rádio BBC 4 Start the week em 27 de abril, a mensagem de medo do governo britânico, "Fique em casa, proteja o sistema de saúde, salve vidas", "...foi tão eficaz que muitas pessoas que deveriam ter ido ao hospital ficaram em casa". Com uma redução de 50% nas internações de emergência e um aumento das mortes em casa, o governo mudou recentemente a mensagem para corrigir essa super-resposta, incentivando as pessoas a irem ao hospital e não proteger tanto o sistema de saúde.

A imagem da morte gerada pela Covid-19 está diretamente relacionada à pulsão de morte de Freud, mas felizmente não envolve armas

Para aqueles historiadores culturais que mapeiam as tendências emocionais das sociedades ao longo das décadas, o estímulo atual desse Arquétipo da Morte pode até ser chamado de cíclico. Eles afirmam que essa tendência ou mecanismo psicológico é, como o próprio coronavírus, também uma residente permanente na sociedade humana. Ela também está adormecida nos organismos para ser reavivada de tempos em tempos sob diversas formas, e depois causar estragos.

Exemplos disso são as maneiras como as sociedades respondem a outros eventos autodestrutivos, geralmente guerras. A Primeira Guerra Mundial é um caso clássico (inicialmente popular em ambos os lados). A Segunda Guerra Mundial foi produzida, uma geração mais tarde, por imperativos inconscientes similares; um exemplo é o imaginário sombrio, semelhante ao da morte, super-heróico dos nazistas, que tanto assustou quanto inspirou o povo alemão, sem mencionar as centenas de guerras menores que ocorreram desde então.

Tais ações são sempre realizadas em nome de causas maiores e nobres. Psicólogos analíticos, como Sigmund Freud ou Jung, afirmam que essas ações são motivadas por sentimentos ignorados, que procuram ser trazidos à tona. Muitas pessoas abrigam um anseio inconsciente pelo conflito, porque expõe emoções que elas secretamente precisam ver, e depois compreender em si mesmas. Freud chegou ao ponto de identificar o que ele chamou de "pulsão de morte" em seu ensaio "Além do Princípio do Prazer", ou Thanatos, publicado em 1920 – curiosamente, logo após a Primeira Guerra Mundial. A imagem da morte gerada pela Covid-19 está diretamente relacionada, mas felizmente não envolve armas.

Observadores políticos vão contrariar esse "excesso de psicologia" sobre o comportamento social, dizendo que ações como guerras são cuidadosamente planejadas e traçadas pelos perpetradores famintos de poder. Eles podem apontar para relatos bem documentados como o livro "Forging War", de Mark Thompson, que rastreou como a mídia foi sistematicamente explorada por engenheiros sociais nas recentes guerras dos Balcãs. Mas mesmo nos Balcãs, um importante engenheiro social foi o psiquiatra sérvio-bósnio Radovan Karadžić, que foi totalmente treinado na arte dos gatilhos inconscientes. Todo governo e ditador sabe que uma população assustada tem mais chance de ser complacente.

Quanto à importante desativação do Arquétipo da Morte – ou para estender a analogia viral, a geração dos anticorpos mentais necessários – uma vez re-evocado, o cérebro muitas vezes entra em modo de pânico ou catástrofe. Em níveis nacionais isso pode induzir reações como a declaração de guerra, iniciar um isolamento social feroz ou protecionismo, emitir novas leis draconianas e impor "lockdowns".

Por que a sociedade global reagiu tão fortemente a um vírus relativamente leve?

O estrito isolamento social e confinamento é uma reação desse tipo, inicialmente emocionalmente semelhante à guerra e com consequências econômicas comparáveis. É uma reação que ataca diretamente o comportamento do vírus e tenta "vencê-lo" como um inimigo. Do ponto de vista psicológico, esta é a resposta mais simples, envolvendo o uso de forças policiais e às vezes militares. Embora o Reino Unido, a França, a Itália e a Espanha foram provavelmente sábios em instaurar medidas de lockdown inicialmente, simplicidade excessiva corre o risco de destruir o organismo hospedeiro, a menos que seja rapidamente matizada – para impedir que o "remédio se torne pior que a doença" (como acontece na maioria das guerras).

No caso de conflitos militares em larga escala, após enormes números de mortes e economias destroçadas, um novo sentimento gradualmente de estende pela sociedade, o de "nunca mais". Se refere ao "eu" finalmente se conciliando com seu próprio Arquétipo da Morte no brutal processo de aprendizagem da guerra, criando suas próprias células T. Estas respostas neurais vão se imprimir fisicamente nas células de memória, durando até a próxima geração, momento em que o ciclo de infecção, se não for protegido, pode recomeçar (como na Segunda Guerra Mundial).

Paralelos podem ser traçados com o processo de luto pessoal. Ele também acaba produzindo sua própria reação de estilo anti-viral – geralmente algum tipo de resposta cognitiva, e frequentemente, embora nem sempre, eficaz. Os sucessos podem ser vistos em transformações extraordinárias no caráter, habilidades repentinas de perdoar inimigos (como em algumas famílias na Irlanda do Norte) e um estilo de comportamento recém amadurecido e menos reativo.

Mas para que isso aconteça, uma sociedade precisa entender os processos psicológicos e os sinais que estão em jogo. Isso nunca é fácil, porque os indivíduos despendem muita energia para esconder suas fraquezas – tanto de si mesmos quanto dos outros. Sem orientação, um Arquétipo da Morte fortemente re-estimulado pode produzir reações exageradas como ansiedade, agressão e a necessidade de culpar (ou seja, medo projetado nos outros), além de uma variedade de condições mentais. Isso já está sendo visto na pandemia com o aumento dos suicídios e da violência doméstica durante o confinamento.

Para ajudar a encontrar soluções, vale a pena colocar brevemente a maior questão sociológica: por que a sociedade global reagiu tão fortemente ao que está em efeito, um vírus relativamente leve, pelo menos quando comparado com aqueles como a gripe espanhola de 1918?

Sem orientação, um Arquétipo da Morte fortemente re-estimulado pode produzir reações exageradas como ansiedade, agressão e a necessidade de culpar

Do ponto de vista puramente psicológico, é difícil não notar o aumento da ansiedade nas sociedades ocidentais durante a última década.

Livros começaram a aparecer com títulos como "Tempo de Raiva" (a raiva é uma expressão do medo); questões de saúde mental começaram a receber uma grande cobertura por parte da mídia; e novas estatísticas foram sendo divulgadas sobre – por exemplo, que 18,1% dos americanos sofrem de ansiedade a ponto de se auto-medicarem. E tudo isso dentro da realidade mais rica e protegida que os seres humanos já produziram.

Mas a nova riqueza também produziu a melhor proteção contra a experiência humana. A teimosa realidade – o ambiente de aprendizado mais eficaz – foi trocada por substitutos fracos no cinema, no Youtube e em outras mídias. A mortalidade foi varrida para baixo do tapete, suavizada e confinada novamente às telas. Mas por baixo dela sempre se esconde o Arquétipo da Morte. Em algum momento, todo ser vivo deve confrontá-lo de frente. O coronavírus trouxe esse confronto bruscamente para o foco.

Agora, toda máscara ou tosse de criança pode produzir imagens de sua própria mortalidade. Além disso, com novas riquezas vieram mais tempo livre, robôs e a internet. As sociedades têm mais espaço para pensar, investigar, se preocupar, aumentar suas expectativas e sentir a frustração correspondente quando não são atendidas. Supondo que as mutações de Covid-19 não evoluam para algo pior do que o que já temos (como a segunda onda da gripe espanhola em 1918), é possível que tenhamos nos livrado dessa última manifestação do Arquétipo.

Mas ela envia um aviso claro sobre a necessidade de enfrentar emoções difíceis e fraquezas. Como o próprio vírus, um anti-vírus permanece no organismo, esperando entrar novamente na corrente sanguínea uma vez reunida a coragem de olhar friamente nos olhos a emoção do medo.

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