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É possível melhorar como investigamos a violência de gênero

O uso de métodos participativos e criativos em países de baixa e média renda é central para garantir que a política responda às necessidades das sobreviventes.

Caroline Bradbury-Jones Siân Natasha Thomas Sanne Weber Nicole Robinson-Edwards
26 June 2020
Uma fotografia de Noemi Hernandez Sanchez, que foi estuprada, estrangulada e abandonada na beira de uma estrada, na porta geladeira da casa onde ela morava em Tizayuca, Estado de Hidalgo, México
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Benedicte Desrus/SIPA USA/PA Images

A investigação de violência de gênero pode ser uma tarefa complicada. Os políticos e legisladores muitas vezes preferem números, que supostamente fornecem provas claras da escala do problema. Mas as análises quantitativas podem separar essas informações de seu contexto sociocultural e das experiências vividas de tal violência. Para garantir que a política responda às necessidades das sobreviventes, é crucial que suas experiências sejam levadas em conta.

Mas a análise qualitativa, especialmente quando envolve sobreviventes da violência de gênero, acarreta seus próprios desafios. Ela implica riscos para a segurança física e emocional das participantes, especialmente quando as sobreviventes têm que recontar suas experiências repetidas vezes. Também pode produzir sentimentos de exploração quando os pesquisadores – ou jornalistas – avançam em suas carreiras com histórias que atraem a atenção do público em geral, mas que levam a poucas mudanças na situação das sobreviventes. Ouvir relatos de violência também pode ser um desafio para os pesquisadores e gerar traumatização secundária.

Esses riscos se vêm agravados quando a pesquisa ocorre em países de baixa e média renda, onde as sobreviventes muitas vezes se encontram em situações sócio-econômicas precárias, e ainda mais quando é realizada ou financiada por pesquisadores ou instituições do Norte Global. As relações de poder desiguais que cria e os riscos crescentes de exploração, paternalismo ou mesmo neocolonialismo têm sido amplamente discutidos, inclusive no openDemocracy.

Com esses dilemas em mente, nosso projeto visa desenvolver diretrizes de melhores práticas na investigação sobre violência de gênero em países de baixa ou média renda, com foco específico no uso de métodos participativos e criativos. A investigação participativa tem um potencial importante para envolver as populações afetadas, desenvolver a capacidade de pesquisa local e corrigir os desequilíbrios de poder que sustentam a violência e as desigualdades de gênero, que também estão presentes na investigação sobre essas questões. Como co-pesquisadores, participantes podem decidir sobre o que querem investigar e que mudanças querem ver como resultado.

O primeiro passo para desenvolver nossas diretrizes foi uma revisão de escopo da literatura acadêmica e cinzenta sobre métodos participativos para pesquisar a violência de gênero em países de baixa ou média renda, publicada recentemente. Essa revisão do escopo, juntamente com a pesquisa empírica realizada no Quênia, formou a base de um workshop internacional que foi realizado no ano passado, no qual desenvolvemos esboços de diretrizes.

Atualmente, estamos validando estas em uma abordagem participativa com nossos parceiros da Guatemala, Quênia e Uganda, e as lançaremos formalmente em breve. Enquanto isso, queremos compartilhar as importantes lições que aprendemos nessa peça, uma vez que elas podem ser úteis para outros que realizam investigações sobre violência de gênero em todo o mundo.

Elementos-chave para abordagens éticas e participativas da pesquisa

Quando revisamos a literatura existente, nos impressionou descobrir que atualmente não existem protocolos ou diretrizes de melhores práticas que foquem explicitamente na investigação participativa e criativa com sobreviventes de violência de gênero em países de baixa e média renda. Há diretrizes sobre pesquisa com sobreviventes de violência de gênero e outros protocolos enfocados na pesquisa participativa de forma mais ampla, particularmente em relação às comunidades indígenas ou marginalizadas.

Mas esses protocolos sobre pesquisa em países de baixa e média renda consideraram a investigação participativa como um método possível e não como um princípio básico para a pesquisa nesse contexto. Decidimos rever trabalhos que tratavam de pelo menos dois dos três tópicos que nossas diretrizes abordarão: métodos participativos/criativos, violência de gênero e comunidades do Sul Global.

A segurança das participantes e pesquisadores deve ser uma preocupação primária em todo o processo de investigação, mas especialmente no contexto da violência de gênero

A partir desses 44 documentos, identificamos uma série de recomendações-chave que podem ser agrupadas em cinco grandes campos: segurança; contextual; relacional; reflexivo; e transformador. É por isso que estas questões são cruciais para pesquisadores que querem conduzir pesquisas éticas com sobreviventes de violência de gênero:

A segurança das participantes e pesquisadores deve ser uma preocupação primária em todo o processo de investigação, mas especialmente no contexto de violência de gênero, devido aos riscos apresentados pelos perpetradores e ao potencial estigma social quando a participação em um estudo centrado em um tópico sensível se torna aparente.

Por exemplo, as mulheres que sofrem violência sexual em conflitos armados são frequentemente estigmatizadas ou mesmo rejeitadas por maridos, famílias ou comunidades, o que muitas vezes leva à pobreza. A privacidade, a confidencialidade e o anonimato são, portanto, essenciais. O consentimento informado é o mínimo em termos de prática ética.

Mas essas medidas não são suficientes. Embora o compartilhamento de experiências de violência possa ser catártico para algumas sobreviventes em algumas circunstâncias, outras podem sofrer retraumatização por terem que lembrar e recontar essas experiências. Melhor seria oferecer apoio psicossocial às participantes, ou intervenção onde houver necessidade urgente. Os processos de revisão ética em instituições acadêmicas muitas vezes têm uma visão limitada da prática ética que se concentra unicamente na segurança física e emocional durante a entrevista e não necessariamente se conecta com as necessidades e prioridades mais amplas das sobreviventes.

Por exemplo, o apoio jurídico e financeiro também pode ter impacto no bem-estar, especialmente porque as sobreviventes muitas vezes vêm de grupos marginalizados. As avaliações de risco são ferramentas importantes para tomar consciência, mitigar e responder aos riscos de segurança. Entretanto, elas não devem ser feitas de cima para baixo, o que pode parecer paternalista para os participantes, mas devem ser feitas em conjunto com os participantes, que muitas vezes estão em melhor posição para tomar decisões sobre sua própria segurança. A consideração adequada dos riscos de segurança requer tempo e recursos, os quais devem ser planejados com antecedência.

Da extração à transformação

A investigação sobre violência de gênero deve ser sensível ao contexto local e cultural, especialmente devido ao potencial de estigma e sensibilidade. Isso requer uma equipe de pesquisa diversificada e representativa, tanto do Norte quanto do Sul, para permitir uma compreensão mais profunda e relevância para o contexto local. Tal representação requer a inclusão de pesquisadores diversos em todos os níveis dentro do processo de pesquisa, e não apenas em funções subsidiárias ou de 'apoio'. Isso é essencial para identificar quais questões são de maior importância para as comunidades locais e trazer mudanças significativas. A pesquisa colaborativa também pode ajudar a construir métodos de pesquisa e análise para além dos paradigmas ocidentais e garantir o envolvimento de mulheres e grupos marginalizados no processo de produção de conhecimento.

O respeito aos valores comunitários e aos líderes locais deveria ser um valor central da pesquisa e, idealmente, o consentimento coletivo seria obtido da comunidade para complementar o consentimento individual. O envolvimento de líderes locais, entretanto, também cria o risco de reforçar as hierarquias e exclusões sociais, especialmente em culturas onde a autoridade é mantida pelos homens.

Estabelecer conexões com uma série de membros da comunidade e assegurar a representação na tomada de decisões de um amplo grupo de indivíduos, incluindo mulheres, pode ajudar a identificar barreiras e promover a participação entre grupos mais marginalizados. Desenvolver abordagens criativas para a participação em pesquisas também pode ajudar a assegurar uma gama mais ampla de participantes, particularmente quando barreiras de alfabetização ou educação impedem a participação de certos grupos. Abordagens criativas de pesquisa podem incluir, por exemplo, fotografia, mapeamento corporal ou teatro.

As noções de que pesquisadores ocidentais são 'especialistas' e 'pesquisadores locais' são coletores de dados devem ser abandonadas

A investigação é baseada nas relações entre pesquisadores e membros da comunidade de interesse da pesquisa. A maneira como essas relações são conduzidas é essencial. A investigação participativa visa envolver os participantes como iguais em todas as etapas da pesquisa e na tomada de decisões sobre ela: desde o desenvolvimento de questões de pesquisa e definição de métodos até a divulgação dos resultados.

Parcerias colaborativas positivas devem ser baseadas na confiança, transparência de objetivos e tomada de decisões, expectativas realistas, honestidade e integridade, assim como respeito por diversas formas de conhecimento e honra às práticas culturais tradicionais. Isso permite um processo de aprendizado mútuo que reconhece as habilidades e pontos fortes de todos os envolvidos e diminui as desigualdades de poder entre pesquisador e participantes.

As noções de que pesquisadores ocidentais são 'especialistas' e 'pesquisadores locais' são coletores de dados devem ser abandonadas e, em vez disso, o conhecimento e as capacidades dos participantes e pesquisadores em países de baixa e média renda devem ser reconhecidos como iguais. As ideias sobre o impacto da pesquisa podem diferir entre pesquisadores que trabalham em contextos diferentes, e entre pesquisadores e participantes.

Pesquisadores acadêmicos podem priorizar publicações, enquanto profissionais têm maior probabilidade de medir o impacto em termos práticos, tais como taxas mais baixas de violência, melhoria dos serviços ou mudança de atitudes dentro da comunidade. Os resultados precisam ser acordados de forma colaborativa e podem precisar ser adaptados a diferentes públicos e partes interessadas. A colaboração e as contribuições de todos os envolvidos devem ser reconhecidas em todas as publicações e, quando possível, devem ser buscadas estratégias de co-autoria.

Um objetivo central da investigação participativa é a transformação, através da geração de conhecimento que pode trazer uma mudança social positiva

Ao longo do processo de investigação, a reflexividade é uma ferramenta crucial para avaliar criticamente o processo, as relações e os resultados. Isso permite que pesquisadores e participantes desenvolvam consciência de seus próprios valores, posicionalidade e papel na produção de conhecimento. Também ajuda a refletir sobre o conteúdo emocional da pesquisa e o impacto do trabalho nas relações dos próprios pesquisadores, dentro e fora do processo de investigação. A manutenção de um caderno de campo pode ser útil para isso. A reflexividade coletiva pode ajudar as comunidades a identificar necessidades e prioridades em evolução.

Um objetivo central da investigação participativa é a transformação, através da geração de conhecimento que pode trazer uma mudança social positiva. Tal transformação pode variar de benefícios imediatos e individuais, a influenciar políticas e intervenções, a mudanças transformadoras de longo alcance.

O mais importante é que a mudança prevista deve ser relevante para os objetivos da comunidade local e impulsionada por suas necessidades. O processo de investigação participativa também pode ter um efeito transformador em si mesmo, por exemplo, através do (auto)empoderamento das participantes e das comunidades através da capacitação, educação pública e melhoria da qualidade de vida. Portanto, a investigação participativa é mais do que um método; ela constitui uma filosofia e uma ética em si mesma.

Esses elementos fornecem as bases para garantir que a investigação sobre violência de gênero em países de baixa e média renda seja transformadora, eticamente fundamentada, de propriedade local e contextualmente responsiva. Tal investigação não só ajudará a descobrir as experiências daqueles afetados pela violência de gênero em países de baixa e média renda sem causar danos, mas contribuirá para a transformação de sua situação e o fim da violência de gênero.

Esses elementos também formam a base para as diretrizes das melhores práticas de ética para a realização de investigações participativas com sobreviventes de violência de gênero, que estamos desenvolvendo em colaboração com nossos parceiros no Quênia, Guatemala e Uganda. Fique atento para mais notícias sobre estas diretrizes nos próximos meses.

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