democraciaAbierta: Opinion

No México, ser um mau perdedor é um bom negócio

Não conceder derrota é uma forma de obter vantagens em negociações e processos eleitorais subsequentes.

Alejandro García Magos
1 September 2020
booking.com

“Este país não avança com processos eleitorais, avança com mobilizações sociais.”

-Andrés Manuel López Obrador


As noites eleitorais marcam o fim de um ciclo político e o início de um novo ciclo para os candidatos. Para o vencedor, é o início do seu governo. O perdedor, no entanto, tem duas opções. É preciso aceitar sua derrota e simplesmente ir para casa, lamber suas feridas e brincar com seus netos. "Qual é o sabor da derrota", foi a pergunta feita uma vez a Francisco Labastida Ochoa, o candidato presidencial derrotado nas eleições mexicanas de 2000. "De dor, de tristeza?" "Não. Teve gosto de tequila", respondeu ele. A outra opção para o perdedor é não conceder derrota e desafiar a ordem constitucional. “Ao diabo com suas instituições!” exclamou o atual presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador (AMLO) em 2006, quando o Tribunal Eleitoral confirmou sua derrota nas eleições daquele ano. Este artigo trata desta última opção.

A questão é de relevância atual devido aos temores de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeite sua derrota (se isso acontecer, é claro) nas eleições de novembro. Muitas pessoas hoje se perguntam o que aconteceria neste cenário sem precedentes na política dos Estados Unidos. E bem, nós mexicanos sabemos algo sobre isso. Considere que AMLO detém um recorde de dar vergonha alheia: em seus quase 45 anos de política partidária, ele nunca reconheceu a derrota. Em cada eleição em que concorreu e em cada plebiscito que organizou, ele ganhou – ou isso ou ele acusou fraude.

Por uma questão de princípio, é preciso entender que o objetivo de não conceder uma derrota não é outro senão ganhar em uma mesa de negociações o que não foi ganho nas urnas. Entretanto, as consequências de não conceder dependem em grande parte do tipo de regime político em que os candidatos operam.

Em um regime puramente autoritário, um mau perdedor pode levar o regime ao descrédito internacional e, em casos extremos, precipitar um movimento social. Na maioria dos casos, no entanto, nada disso acontece. Eis o exemplo de Luis H. Alvarez, do Partido de Ação Nacional (PAN), candidato presidencial nas eleições de 1958 na época do autoritarismo do Partido Revolucionário Institucional (PRI). Don Luis era um candidato quixotesco, sem chances de vitória, mas ainda assim foi perseguido e ameaçado durante sua campanha. No dia da eleição, ele a desqualificou pelo que ela era: uma grande fraude. Nada disso importava e o PRI continuou por mais 42 anos no poder.

As coisas em um regime em transição são, como seria de se esperar, muito diferentes. O caso mexicano é particularmente ilustrativo e, para entendê-lo bem, é preciso voltar no tempo. Como eu já havia dito, durante a maior parte do século XX, o México foi um regime autoritário do tipo unipartidário. O PRI tolerou os partidos de oposição mas não permitiu que eles concorressem em condições de igualdade. A transição democrática teve início em 1977 a pedido do próprio PRI, que buscava dotar-se de uma mínima pátina democrática. Em essência, a transição foi um processo descontínuo em que houve negociações constantes entre os governos do PRI e os partidos da oposição sobre a autonomia das autoridades eleitorais. A transição culminou em 1996, quando essas autoridades obtiveram total autonomia do executivo.

Durante o período de transição (1977-1996), a oposição mexicana – liderada pelo PAN de direita e pelo Partido da Revolução Democrática (PRD) de esquerda – rejeitou continuamente suas derrotas. Eles o fizeram por duas razões. Em primeiro lugar, porque as eleições haviam sido organizadas pelo governo e, portanto, os resultados não eram confiáveis. Em segundo lugar, porque lhes deu alavancagem política nas negociações pós-eleitorais subsequentes com o governo PRI.

Note o que estou dizendo: a oposição mexicana desconhecia suas derrotas, não porque se julgava vitoriosa, mas por cálculo político. Houve muitas eleições que o PRI ganhou legitimamente com a mobilização de seus votos – embora talvez com um resultado maior do que realmente mereciam. Ganhar de lavada foi uma estratégia deliberada do PRI: deu-lhe um ar de partido invencível, evitou rupturas internas e aumentou o seu poder de barganha contra a oposição.

O PAN e Fox conseguiram o que queriam, ilustrando o lucrativo negócio de não admitir a derrota durante a transição

Essas negociações pós-eleitorais entre a oposição e o PRI deram origem a uma concepção política autóctone: as concertacessões, um neologismo que une as palavras concertar e cessão. Concertar é usado no âmbito político mexicano como um eufemismo para negociação. Concertacessão, então, implicava que cargos públicos estavam sendo cedidos para resolver conflitos pós-eleitorais.

Porfirio Muñoz Ledo é creditado por ter cunhado o termo em 1991, quando um conflito pós-eleitoral estourou no estado de Guanajuato. Na ocasião, Muñoz Ledo era candidato a governador pelo PRD, enquanto Ramón Aguirre era candidato pelo PRI e Vicente Fox Quesada pelo PAN (presidente do México entre 2000 e 2006). Fox ficou em segundo lugar atrás de Aguirre, não admitiu a derrota e organizou um grande alvoroço ao fechar as principais rodovias do estado.

Em meio a uma atmosfera tensa tanto em Guanajuato quanto na Cidade do México, o governo do então presidente Carlos Salinas de Gortari (1988-1994) se prontificou a acalmar o conflito e entrou em negociações com a liderança do PAN. Salinas não queria uma ação judicial porque queria passar a imagem de um presidente reformista diante das negociações do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA). E assim, ele propôs ao PAN a primeira de várias concertacessões de seu governo. Foi aceita. Os termos foram os seguintes: ficou acertado que Aguirre seria declarado governador eleito, mas se absteria de tomar posse, pegaria um avião e iria como embaixador para a Europa; o congresso local tomaria conhecimento disso e, na ausência de um governador constitucional, nomearia um provisório, que seria membro do PAN. Uma piada total. O PAN e Fox conseguiram o que queriam, ilustrando o lucrativo negócio de não admitir a derrota durante a transição.

E o caso de Guanajuato é um entre vários.

Algo semelhante aconteceu em Tabasco em 1994, tendo AMLO como protagonista. Naquele ano, o atual presidente concorreu ao governo do estado, perdendo para Roberto Madrazo Pintado, do PRI. Como Fox, AMLO rejeitou os resultados e organizou uma manifestação no Zócalo, como é informalmente conhecida a Praça de Constituição e principal praça da Cidade do México. Sua intenção era convocar a manifestação para 1º de dezembro e, assim, interromper a posse do novo presidente, Ernesto Zedillo (1994-2000). Para evitar a situação, seguindo o exemplo de Salinas, Zedillo ofereceu à AMLO uma concertacessão: a cabeça de Madrazo em troca de que controlasse o povo. No final, o plano fracassou, pois Madrazo e as lideranças locais do PRI de Tabasco se rebelaram contra a vontade de um presidente considerado fraco e sem apoio na base do partido. Sua leitura estava correta. Mas AMLO não voltou a Tabasco de mãos vazias. Embora não tenha alcançado seu objetivo, que era organizar novas eleições, ele alcançou para si algo talvez mais valioso: expôs Zedillo e se posicionou na Cidade do México como um político astuto. Essas foram duas das cartas com as quais obteve a bênção de Cuauhtémoc Cárdenas, o líder moral do PRD, para assumir a presidência do partido em 1996.

A relutância do PAN e do PRD em reconhecer suas derrotas durante o período de transição teve duas consequências positivas para as perspectivas democráticas do país. Por um lado, aumentou a representação da oposição em congressos e governos locais e, por outro, acelerou a transição, forçando o governo PRI a sentar-se e negociar a autonomia das autoridades eleitorais.

O que aconteceu no fim da transição em 1996? Os partidos da oposição deixaram de ser maus perdedores quando as autoridades eleitorais conquistaram sua plena autonomia? Pode ser uma surpresa para alguns, mas a resposta é não. Os partidos e candidatos no México continuam a ignorar os resultados eleitorais com o mesmo objetivo de sempre: salvar sua pele e aumentar seu poder de barganha. Mas, ao contrário do que aconteceu no período de transição, a relutância dos atuais políticos mexicanos em aceitar suas derrotas está enfraquecendo as instituições democráticas. Refiro-me ao Instituto Nacional Eleitoral (INE) e ao Tribunal Eleitoral do Poder Judiciário da Federação (TEPJF).

A obstinação de AMLO de não reconhecer derrotas lhe deu uma aura de vitimização que não hesita em usar quando seu partido é repreendido pelas autoridades eleitorais

O exemplo mais patético é, para variar, AMLO, que até hoje desconhece suas derrotas nas eleições presidenciais de 2006 e 2012. Sua teimosia lhe deu uma aura de vitimização que não hesita em usar quando seu partido é repreendido pelas autoridades eleitorais. Isso aconteceu em 2018, logo após sua vitória eleitoral naquele mesmo ano, quando o INE detectou um esquema de financiamento irregular em sua campanha. Segundo as investigações do INE, milhões de pesos de origem desconhecida foram desviados para operadores de seu partido, o Movimento Regeneração Nacional (MORENA), presumivelmente em troca de votos (ou talvez foram embolsados, tanto faz). Em resposta, AMLO declarou-se vítima de uma "vil vingança" do INE por ter vencido, desta vez, as eleições presidenciais.

No futebol acontece exatamente o mesmo: por que os técnicos sempre brigam com os árbitros? Resposta: porque eles sabem que podem influenciá-los. Os técnicos, assim como os políticos, são pessoas poderosas, até mesmo ricas e famosas, e podem intimidar os árbitros – mesmo quando tomam a decisão certa. Pep Guardiola, por exemplo, certa vez ironizou a arbitragem "perfeita" de Undiano Mallenco e a "visão privilegiada" de seu auxiliar ao anular um gol de Pedro por estar minimamente à frente do último jogador. Pense bem, caro leitor: a decisão que tanto aborreceu Guardiola era a decisão correta. Mesmo que por milímetros, Pedro estava impedido!

Da mesma forma, no México democrático de hoje, ainda é lucrativo culpar as autoridades eleitorais por suas decisões. Como no período de transição, não conceder uma derrota é uma forma de obter uma vantagem nas negociações e processos eleitorais subsequentes. Infelizmente para nossa democracia, ainda é um bom negócio ser um mau perdedor.

Como fazer as coisas mudarem e os candidatos derrotados admitirem suas derrotas? Através da única linguagem que entendem os trapaceiros: com firmeza e clareza. Você, o candidato, recebe dinheiro público para concorrer a um cargo eleito pelo povo. Muito bem, mas você não pode chamar de ladrões as autoridades eleitorais que administram as eleições e que permitiram que você participasse em primeiro lugar. Aqui, você respeita essas autoridades ou tiramos seu dinheiro e você é expulso do jogo democrático. Na Espanha, fizeram isso com o braço político do ETA, Herri Batasuna, que se entrincheirou nas próprias instituições democráticas que queria destruir. A Lei dos Partidos Políticos aprovada em 2002 conseguiu separar esses grupos filoterroristas, impedindo assim "um partido político possa, repetidamente e com seriedade, atacar [o] regime democrático de liberdades".

Não vejo outra saída. Do contrário, as eleições no México continuarão desnaturadas: não apenas o ponto final de um ciclo político, mas o ponto de partida de negociações onde o objetivo é ganhar sobre uma mesa o que não foi conquistado de forma justa nas urnas.


Em memória de minha mãe, Consuelo Magos Hernández (1948-2020).

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