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Mulheres: a nova força política na América Latina

Os movimentos feministas da região levaram figuras como Marielle Franco no Brasil, Beatriz Sánchez no Chile e Claudia López na Colômbia a posições de liderança, inspirando toda uma nova geração.

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30 July 2020
Manifestantes realizam ato após o assassinato da vereadora Marielle Franco em 14 de março de 2018
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Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto

Aumentar o número de mulheres na política significa fortalecer a democracia.

As mulheres representam o maior grupo minoritário. Enquanto as minorias étnicas, raciais e religiosas muitas vezes representam uma baixa porcentagem da população, as mulheres compõem metade dela, e até mais em muitos países.

O que isto significa é que a metade feminina da sociedade é composta por milhões de pessoas que lutam por seus direitos desde a formação dos nossos países. São muitas lutas e muitas mulheres. São mulheres de diferentes raças, ideologias e origens, lutando por razões que abrangem não só questões de gênero, mas muitas outras.

Ao chegar a cargos políticos, mulheres trazem as lutas dos grupos a que pertencem. Elas trazem parte desse DNA engajado com questões sociais para o tecido político.

Não é por acaso que os movimentos preocupados em inovar na política enfatizam o papel da mulher, como é o caso do recentemente publicado estudo e websérie produzida pelo Instituto Update, que analisou, por 14 meses, como as mulheres políticas latino-americanas estão mudando a realidade de nossos países.

A maneira de fazer política na América Latina está mudando. Pode não ser evidente quando observamos presidentes como Jair Bolsonaro, Iván Duque, Sebastián Piñera, entre outros. Mas a política de base conta uma história diferente. Os movimentos feministas da região levaram figuras como Marielle Franco no Brasil, Beatriz Sánchez no Chile e Claudia López na Colômbia a posições de liderança, inspirando toda uma nova geração.

"A mulher na América Latina está na sustentação da vida, está em todas as comunidades, está nas favelas, nas quebradas, nos quilombos, nas aldeias, nas cidades. Esse conhecimento múltiplo precisa chegar no sistema político", disse na série do Instituto Update Áurea Carolina, vereadora mais votada da história de Belo Horizonte e atual deputada federal.

O que estes movimentos representam para a América Latina?

Ni Una Menos

Como explica o estudo do Instituto Update, é impossível falar de política feminista na região sem falar do movimento argentino organizado em redes sociais: Ni Una Menos, ou Nenhuma a Menos. A primeira marcha ocorreu em 3 de junho de 2015 em 80 cidades de toda a Argentina e reuniu umas impressionantes 300 mil pessoas. A partir daquele dia, o movimento tornou-se um fenômeno de cerca de 800 mil pessoas.

La paridad de género es una realidad en las legislaturas locales en Argentina, Costa Rica, Venezuela y Ecuador. México y Bolivia muestran paridad en las tres ramas

Nem uma única vez menos despertou uma onda de levantamentos femininas na América Latina. Na Argentina, levou à Maré Verde, uma campanha pelo direito ao aborto legal. Em 2018, dois milhões de mulheres participaram de manifestações usando lenços verdes, que se tornaram o símbolo da revolta.

Das ruas às instituições

No mesmo ano, a Câmara de Deputados da Argentina aprovou o projeto de lei sobre o aborto redigido por mulheres da sociedade civil e deputadas. O projeto foi vetado pelo Senado, mas a Maré Verde conseguiu trazer o assunto para a agenda e paras as conversas de famílias comuns em todo o país.

No ano seguinte, no México, #NoMeCuidanMeViolan reuniu mulheres nas ruas para protestar contra a violência policial.

No Brasil, o movimento inspirou mulheres a organizar manifestações contra o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que havia redigido um projeto de lei que dificultava o acesso ao aborto legal.

Os protestos se intensificaram após o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 14 de março de 2018.

As mulheres voltaram às ruas para protestar à candidatura de Bolsonaro à presidência, usando a mensagem: #EleNão. A organização das manifestações e o alcance dos protestos são frutos do trabalho das mulheres. A demanda não era específica da agenda feminista, mas o #EleNão se tornou a maior mobilização feminina da história do Brasil.

Estes exemplos mostram que, ao se reunirem nas ruas para expressar suas reivindicações, as mulheres perceberam que uma maneira eficiente de mudar o sistema é a partir de dentro. Como disse o deputado estadual brasileiro Jô Cavalcanti: "Aí é que entra a gente estar à disposição do sistema, para disputar a instituição, porque a gente sempre esteve nas ruas."

Elas demonstraram que as mulheres latino-americanas têm a capacidade de impor mudanças rápidas. Muita coisa mudou em cinco anos.

A mudança é visível

A paridade de gênero já é realidade nas legislaturas locais da Argentina, Costa Rica, Venezuela e Equador. México e Bolívia mostram paridade nos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), esperada em todos os níveis de governo (comunitário, municipal, estadual e federal).

Las mujeres que ejercen en la política marcan la diferencia cuando son conscientes de las desigualdades en general

Na Argentina, as mulheres atualmente representam 42% do Senado e 39% da Câmara dos Deputados, e o país foi pioneiro na adoção de cotas femininas para o Congresso.

No ano passado, o México estendeu a paridade a todos os três ramos em todos os níveis de governo.

Na Bolívia, 52% do parlamento é composto por mulheres, a maior taxa da América Latina.

No Chile, nas últimas eleições legislativas, o número de mulheres senadoras aumentou de seis para 10, de um total de 43 senadoras, e o número total de deputadas aumentou de 19 para 35, de um total de 155 deputadas.

No Brasil, o aumento do número de deputadas federais femininas foi de 15%: de 51 para 77 eleitas, mas a maioria ainda é branca. Destas, 43 ocuparam o cargo de deputada federal pela primeira vez.

Mulheres no poder durante a pandemia

A Covid-19, entre muitas outras coisas que nos ensinou, chamou a atenção para a forma como as mulheres líderes administraram a crise sanitária. Desde o início da atual nova pandemia de coronavírus, a relação entre as mulheres líderes nacionais e sua eficácia na gestão da crise tem recebido muita atenção da mídia.

Embora estas comparações possam parecer puramente anedóticas, um estudo – utilizando dados comparativos em 194 países – concluiu que as respostas à Covid-19 são consistentemente melhores em países liderados por mulheres. Em certa medida, o resultado pode ser explicado pelas respostas políticas pró-ativas e coordenadas adotadas pelas chefes de Estado.

A pesquisa constatou que tanto a taxa de infecção quanto a taxa de mortalidade da Covid-19 têm sido menores nos países liderados por mulheres do que naqueles liderados por homens. Em um esforço para isolar o efeito específico de ter uma líder feminina, os pesquisadores compararam países liderados por mulheres com aqueles liderados por homens que são semelhantes em termos de população, geografia, igualdade de gênero, gastos com saúde e número de turistas. Em todas as combinações, os países liderados pelas mulheres se saíram melhor.

A realidade mostra que há um aviso de que as mulheres na política fazem a diferença quando estão conscientes das desigualdades em geral. Como elas foram e continuam sendo vítimas de violações de direitos e das restrições impostas pela sociedade, têm o desejo de se livrar deles.

Aumentar a representação das mulheres nas esferas políticas não é apenas uma questão de gênero. É uma questão de mudança institucional que melhora as políticas para toda a população.

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