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O ecossistema de inovação política na América Latina

Um mapa de práticas que pretendem melhorar diferentes aspetos das jovens democracias latino-americanas pode ajudar a entender, interconectar e fortalecer a inovação política que emerge em toda a região. English Español

UPDATE
21 June 2016
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Alunos ocupam os escritórios administrativos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em Seropédica , Brasil, 2013. AP Photo / Felipe Dana

No mês de maio foi lançada a plataforma updatepolitics.cc.  A ferramenta permite explorar o ecossistema de inovação política na América Latina através de filtros e conhecer mais informações sobre cada uma das mais de 700 iniciativas mapeadas pelo Update em 20 países latino-americanos.  

O mapeamento foi norteado pela busca de práticas que buscam reduzir a distância entre a sociedade e o poder público, com um olhar para estratégias e ferramentas que utilizam. A observação das iniciativas e atores mapeados expõe algumas particularidades deste ecossistema, como as circunstâncias regionais que o impulsionam, as características de sua formação e as tendências que apontam.

Comecemos por considerar três fatores que estimulam o surgimento das práticas e o crescimento deste ecossistema na América Latina.

Amadurecimento da Democracia

A democracia na América Latina é jovem e por tanto frágil. A região teve um período de democratização recente - entre 1983 a 1990, que por sua vez herdou os seus fatores históricos e sociais (colonialismo...) somados a uma persistente desigualdade social que caracteriza a região e inviabiliza o potencial de uma democracia plena.

Democratização da Internet

Contemporâneas ao amadurecimento da democracia são a difusão da cultura de redes e a democratização do acesso à internet, que vêm ampliando o acesso e a produção de informações, a colaboração na geração de conhecimento, a participação e engajamento em causas, a conexão e a convocação para uma cidadania mais ativa. O acesso dobrou de 2008 para 2016 e atualmente 60% da America Latina possui acesso à internet.

Crises da Democracia

A democracia tem convivido com diversas crises em todo o mundo. Ressaltamos três crises que confluem e impulsionam o surgimento do ecossistema de inovação política: a crise de representatividade, a crise da institucionalidade e a crise de referências.

A mais conhecida e amplamente comentada é a crise de representatividade, manifestada na incapacidade da representação política em refletir, de fato, os interesses dos cidadãos e representar a cultura, as ideias e valores de uma sociedade complexa e hiperconectada. Soma-se a isso a influência do poder econômico sobre o poder político, que fragiliza a legitimidade da política e distorce o papel dos políticos.

A crise institucional manifesta-se no descompasso entre a velocidade com que a sociedade e a cidadania evoluem e as instituições conseguem responder às novas práticas e valores da sociedade moderna.

Por último, e possivelmente a menos reconhecida, apontamos a uma crise de referências, que reflete na dificuldade de encontrar soluções, no repertório político convencional, para os desafios e complexidades da sociedade e da política atual.

O mapeamento do Update dá ênfase a soluções que nascem nas periferias, muitas vezes de forma marginal e pontual, mas com grande potencial para proporcionar caminhos para problemas estruturais da democracia. Olhando para estas iniciativas encontramos um ecossistema, muito embora, por vezes, ditas práticas sejam despretensiosas e não se identifiquem desta forma. Acreditamos que as suas experiências são valiosas para melhorar a democracia e ampliar o repertório de práticas políticas.

Características do Ecossistema

Após 10 meses mapeando os atores e ações desse ecossistema compreendemos que o mesmo é muito complexo e, por este motivo, difícil de ser observado ou estudado. Essa complexidade pode ser exemplificada pelos seguintes elementos

- É um ecossistema pulverizado em temáticas, cujos atores participam em temas diversos como participação cidadã, transparência, comunicação independente, controle social e etc…

  • - Os atores adotam diferentes estratégias, táticas de ação que são determinadas pelo contexto local ou global com que estão lidando ou no que estão inseridos;
  • - Utiliza linguagens diversas para se referir ao mesmo conceito, falando vários dialetos de um mesmo idioma;

- Não é homogêneo, não há padronização - cada qual faz a sua maneira, muitas vezes coisas muito parecidas, mas sem uma identidade comum;

- É um ecossistema também volátil: em parte algumas ações são pontuais e efêmeras por natureza, porque é simples começar uma ação política, mas a sustentabilidade ao longo do tempo da mesma é extremamente difícil de obter. Nos dez meses que durou o mapeamento, aproximadamente 15% das iniciativas deixaram de existir.

Devido a estas características, é difícil vislumbrar este ecossistema e compreender que era preciso jogar luz para evidencia-lo, assim como criar contornos para compreendê-lo. Com esta finalidade, construímos classificações e propusemos uma taxonomia própria, disponíveis na plataforma para permitir que qualquer pessoa, de forma interativa e dinâmica, consiga visualizá-lo a partir de elementos como o propósito (empoderamento cidadão ou incidência institucional), os mecanismos que utiliza (formação, visualização de dados, fomento, fiscalização, mobilização, etc.) entre outras características.

A base de dados está disponível para livre acesso e uso por qualquer pessoa no link: http://updatepolitics.cc/download.

Ao observar o conteúdo, organizar a classificação do Update e realizar análises a partir do conhecimento acumulado na sua trajetória e nas relações com atores do ecossistema, o Update identificou 4 grandes tendências que impulsionam a inovação política na América Latina. São elas:  

- Protagonismo Cidadão: caracterizada pelo maior empoderamento e envolvimento cidadão em ações coletivas, em novas formas de organização, ação e colaboração.

- Identidade Estética: caracterizada por novos formatos de expressão possibilitados pela difusão da tecnologia e o compartilhamento em rede, que permitem a aprendizagem através da empatia, a remixologia que cria novas linguagens às causas e dão alternativas para a politização.  

- Foco no Cidadão: manifestado pela noção de que a melhor referência para construir um serviço, processo ou produto é a experiência daquele que o utiliza, transplantando para a esfera pública o objetivo de desenvolver políticas que atendam as reais necessidades do cidadão.

- Transparência 360: após o avanço institucional das práticas de transparência como a lei de acesso à informação e abertura de dados, nos últimos 20 anos, novos formatos ofereceram uma maior amplitude para o tema, pondo a descoberto as atividades das pessoas públicas, verificando a veracidade das informações e unindo-se ao jornalismo investigativo.

Cada uma destas tendências manifesta-se na prática em três micro-tendências que serão apresentadas e exemplificadas com casos concretos em próximos artigos do Update na DemocraciaAberta, no âmbito da nossa serie conjunta “Democracia e experimentação politica para o século XXI” na América Latina.

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