democraciaAbierta

O que os incêndios na Amazônia nos dizem sobre a geopolítica da emergência climática

Dois presidentes que negam o clima, a crescente demanda por soja na China e o desmatamento no Brasil criaram as condições perfeitas para as mudanças climáticas. English Español

Mark Harvey
3 September 2019
Adolfo Lino/DPA/PA Images

A Amazônia está queimando. Mais uma vez, como nos anos 90, um "arco de fogo" ameaça a sustentabilidade do planeta. A produção e o consumo de alimentos estão no centro da emergência das mudanças climáticas, à medida que as florestas tropicais são cortadas, queimadas e transformadas em cultivo agrícola.

Em seu relatório recente, a ONU e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas estimam que a produção global de alimentos é responsável por 21-37% das "emissões antropogênicas". O que está por trás desse fenômeno que trata a humanidade em geral como responsável pela emergência das mudanças climáticas? A destruição da Amazônia é de fato consequência de um conflito geopolítico, conectando o Brasil à China, a China aos EUA - e o Brasil, como membro do Mercosul, à UE.

Quando se trata da crise da mudança climática, a humilde soja tem muita explicação para dar. Não a leguminosa em si, é claro, mas a produção e o consumo humano relacionados a ela, e mais particularmente à política nacional que a cerca. Quando o presidente Trump declarou guerra comercial à China, um dos impactos diretos foi uma resposta chinesa que impunha tarifas de 25% sobre as importações de soja dos EUA. Ao mesmo tempo, após a eleição do presidente Bolsonaro no Brasil, as limitações legais anteriores ao desmatamento da Amazônia e expansão ao Cerrado, em parte significativa para a produção de soja, foram relaxadas. Como o fraudulosamente nomeado ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse em uma entrevista recente para o Financial Times (23.08.2019), as leis eram muito restritivas e o desenvolvimento comercial deve, em vez disso, 'monetizar' a Amazônia. Transformar incêndios em dólares.

O resultado é uma tempestade perfeita para a mudança climática. O Brasil já havia ultrapassado os EUA como principal exportador de soja na segunda década do século XXI. Essa guerra comercial estimulou um grande salto a frente nas exportações para a China, já de longe o maior importador de soja do Brasil — mais de 85% das exportações brasileiras até 2018. Dois presidentes que negam as mudanças climáticas, mais a crescente demanda por soja como ração animal, mais o consumo crescente de carne na China, mais desmatamento e conversão de terras no Brasil. Resultado? Um evento explosivo de aceleração das mudanças climáticas.

Embora esse evento seja significativo por si só, também desafia como precisamos pensar sobre a natureza da crise das mudanças climáticas. Duas publicações recentes altamente influentes na Nature (outubro de 1918) e The Lancet (janeiro de 2019), identificando os maiores riscos de transgredir as fronteiras planetárias para a sustentabilidade da vida humana (e não humana), afirmaram notavelmente que 'a produção de alimentos é a maior causa das mudanças ambientais globais'. Esse setor é responsável por até 37% do total de gases do efeito estufa no mundo, 2,5 mais que o total do transporte global. A urgência de abordar o uso da terra e a produção e consumo de alimentos acaba de ser destacada pelo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, Mudanças Climáticas e Terra. Apareceu apenas alguns dias antes das notícias dos incêndios da Amazônia chegarem às manchetes.

Além disso, a população mundial deverá aumentar de quase 7 bilhões para 9 bilhões. Igualmente significativo, há mudanças drásticas nos alimentos que as pessoas consomem, principalmente na transição para um maior consumo de carne. Portanto, a comida talvez represente a maior, mas também a mais intratável, ameaça da crise das mudanças climáticas. Em todos os planos nacionais de mitigação das mudanças climáticas e subjacentes ao Acordo de Paris de 2016, a produção e o consumo de alimentos foram deixados de lado ou, em muitos casos, omitidos. Esta batata era politicamente quente demais para ser manuseada em muitos contextos nacionais.

Então, isso é uma crise provocada pela espécie humana em conjunto: O Antropogênico do IPCC? Ou, como muitos da esquerda também argumentaram, essa crise é um produto do capitalismo global, um mecanismo econômico geral de expansão ilimitada e apropriação da natureza: o Capitalógeno da crise das mudanças climáticas? Lucro imediato antes do planeta futuro. O evento da crise climática Trump-Bolsonaro, Brasil-EUA-China ilustra por que precisamos de melhores ciências sociais do que essas narrativas globalistas e, certamente, por que precisamos prestar mais atenção à política nacional em qualquer análise.

A produção e o consumo de alimentos são especialmente úteis para nos forçar a pensar diretamente em como as diferentes sociedades são dotadas de diferentes recursos ambientais, como um cenário quase dado como garantido, mas mesmo assim formativo, para o desenvolvimento econômico e para as políticas nacionais desse desenvolvimento. As sociedades e diferentes economias políticas diferem enormemente na maneira como geram gases de efeito estufa, como consomem energia, comida, água e como comercializam internacionalmente, com diferentes impactos das mudanças climáticas. Elas também enfrentam diferentes desafios políticos ao enfrentar a emergência das mudanças climáticas. Nem todo país tem a Amazônia em seu quintal.

Antes de iniciar minha pesquisa sobre produção e consumo de alimentos na China, não havia apreciado completamente a escassez de suas terras agrícolas, apesar de seu extenso território nacional. Possui menos qualidade de terra agrícola per capita do que até o Reino Unido e uma fração da dos EUA ou do Brasil. Seus recursos hídricos para produção de alimentos são ainda mais escassos, um quarto da média mundial. Dentro desse contexto ambiental, e após uma longa história de fome, a política de produção de alimentos foi dominada pelo imperativo duplo da segurança alimentar e da auto-suficiência alimentar.

Até a chegada de Bolsonaro, existia um conjunto distinto de políticas para limitar a extensificação de terras

Após a morte de Mao Tse Tung e as reformas socialistas de mercado de Deng Xiaoping, a intensificação agrícola foi combinada com uma grande fragmentação da propriedade de terra sob o Sistema de Responsabilidade Familiar. Distribuição igualitária de terras arrendadas a 250 milhões de camponeses, incentivos de mercado e enorme aumento no uso de fertilizantes químicos destinados a satisfazer o imperativo duplo. Como consequência, de importadora de fertilizantes fosfatados de nitrogênio para exportadora, a China agora usa mais de 30% do total mundial, mais do que todo o norte da Europa e os EUA juntos. Com os camponeses recebendo subsídios para usar fertilizantes, a quantidade de fertilizante por hectare é muitas vezes a da Europa.

Tanto os especialistas chineses quanto a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação reconhecem o resultado: uma catástrofe ecológica. O uso excessivo de fertilizantes nitrogenados é uma das principais fontes de óxido de nitrogênio, um poderoso gás de efeito estufa. Portanto, além da acidificação do solo e da eutrofização das águas superficiais, a produção de arroz, em particular, contribui significativamente para as emissões de gases de efeito estufa da China. E agora, como a própria produtividade agrícola foi ameaçada, a China reconhece o problema e apresentou suas soluções políticas distintas, uma limitação do uso de fosfatos de nitrogênio para um aumento de 1% até 2020 e um limite para o uso total a partir de então.

Este breve relato exemplifica a necessidade do conceito de sociogênese das mudanças climáticas. Uma economia política distinta, operando em seu ambiente específico de recursos terrestres e hídricos, gera uma crise de mudanças climáticas e, em seguida, suas próprias políticas de mitigação características. Esta não é uma dinâmica de um Antropogênico socialmente amorfo ou de um Capitalogênio globalista em interação com a natureza em geral. Essa é uma dinâmica distintamente chinesa, em seu próprio contexto ambiental.

Então, na virada do século, a China reconheceu que os limites de seus próprios recursos hídricos terrestres eram de tal ordem que não podia mais equiparar a segurança alimentar à auto-suficiência alimentar. Especialmente para atender à demanda pelo aumento do consumo de carne, especialmente carne de porco, para uma população anteriormente incapaz de comprá-la, a China mudou decisivamente a importação de soja do Brasil para alimentar sua crescente produção suína.

Entra o Brasil. Embora a Europa tenha liderado o uso da proteína de soja para substituir a proteína animal após a crise da BSE (também conhecida como crise da vaca louca), a China continuou a se tornar seu maior mercado. A crise das mudanças climáticas no Brasil é quase o oposto da da China. Desde a ditadura militar, houve um processo político de expansão da produção agrícola por meio da extensificação, conversão de terras não cultivadas em terras agrícolas, em uma progressão inexorável da extração de madeira para produção de gado e soja. Isso levou ao "arco de fogo". O Brasil é hoje o maior exportador de carne bovina, aves, café, suco de laranja e, ultrapassando os EUA, soja. Onde as terras agrícolas da China estavam encolhendo, as do Brasil aumentavam 5 milhões de hectares todos os anos desde os anos 90, principalmente na Amazônia Legal.

No Brasil, grande capital multinacional - grande parte dele brasileiro - certamente está envolvido, dominando a produção agrícola. O 1% superior das fazendas com mais de 1000 hectares ocupa mais de 45% da terra cultivada. O Grupo Roncador possui uma fazenda de 150.000 hectares, a fazenda Tangmag do Grupo Amaggi, 80.000 hectares. A JBS é a maior produtora e exportadora mundial de carne do mundo, e o rebanho bovino brasileiro total ultrapassa os 200 milhões. Calcula-se que a produção de metano desse rebanho por fermentação entérica excede as emissões de CO2 do desmatamento no Brasil.

Esta é a distinta crise brasileira das mudanças climáticas, não um Capitalogênio genérico, mas uma economia nacional politicamente fomentada, em interação com um ambiente de recursos único. E, até a chegada de Bolsonaro, existia um conjunto distinto de políticas para limitar a extensificação da terra: registro de propriedade da terra, rastreamento pioneiro por satélite das incursões da terra, moratórias da soja e da produção de carne bovina em qualquer terra recém-convertida. Essas políticas de mitigação conseguiram reduzir radicalmente, mas longe de eliminar o desmatamento na Amazônia, e ecologias significativas, principalmente o Cerrado no Mato Grosso, eram muito menos protegidas.

Mais um contraste sociogênico. Na China e no Brasil, com o aumento da renda per capita, houve uma transição para o consumo de mais carne. A China agora supera os EUA no consumo de carne suína e, em geral, o consumo de carne atingiu uma quantidade anual per capita de 52,4 quilos em 2011. O Brasil superou a média europeia, com 92,6 quilos, sendo a carne bovina a principal com seu impacto muito maior de gases de efeito estufa. Ninguém se aproxima dos Estados Unidos carnívoros de Trump, com uma média de 135 quilos de carnes. No extremo oposto, a Índia, com seu vegetarianismo nacionalista hindu, perseguindo muçulmanos comedores de carne, tem o menor consumo per capita de carne, com uma transição menos pronunciada para mais pessoas que comem mais carne. As culturas de consumo - não as escolhas individuais dos consumidores - têm grandes consequências nas mudanças climáticas.

Dos contrastes sociogênicos surgem conexões sociogênicas. O comércio global de alimentos não existe aleatoriamente. Os fluxos comerciais são altamente estruturados e, no caso da China e do Brasil, os opostos se atraem. A falta de terras e recursos hídricos da China cria a demanda pela abundância do Brasil. A política de comércio da China condiciona esse comércio: importa apenas soja inteira, para processamento em sua própria indústria de ração animal. Um acordo entre o Brasil e a China para o comércio em moedas nacionais escapa ao dólar dominante como moeda de reserva para o comércio internacional. Essa é uma conexão específica de nação para nação entre produção e consumo. Como sabemos muito bem através do Brexit, as conexões comerciais são feitas e desfeitas politicamente.

Uma das principais limitações do Acordo de Paris intermediado pela ONU com seus planos nacionais de mitigação das mudanças climáticas é que ele trata apenas os países como produtores de gases de efeito estufa. O comércio e a conexão entre produtores e consumidores é um buraco negro da sustentabilidade. Como agora ficou claro demais com o dedo apontado pelo presidente Macron para Bolsonaro, o acordo comercial entre a UE e o Mercosul não consagrou compromissos legais de conservação da Amazônia ou do Cerrado. A conexão da soja entre a China e o Brasil mostra que o comércio de nação para nação é uma dinâmica crítica da emergência sociogênica das mudanças climáticas.

Isso nos leva de volta ao começo. Trump e Bolsonaro acabaram de sentar o pé no acelerador dessa dinâmica. As economias são políticas e as políticas das economias estão impulsionando a emergência das mudanças climáticas. O combate à mudança climática envolve contestar essas políticas em nossos diferentes contextos sociais e ambientais. Mais um motivo para ser europeu no contexto da União Europeia, participando da política de nossos recursos ambientais compartilhados e do comércio internacional sustentável legalmente aplicável. A outra opção é seguir o caminho da catástrofe ambiental com a política de destruição global de Trump-Bolsonaro.

Unete a nuestro boletín ¿Qué pasa con la democracia, la participación y derechos humanos en Latinoamérica? Entérate a través de nuestro boletín semanal. Suscríbeme al boletín.

Comentários

Aceitamos comentários, por favor consulte ás orientações para comentários de openDemocracy
Audio available Bookmark Check Language Close Comments Download Facebook Link Email Newsletter Newsletter Play Print Share Twitter Youtube Search Instagram