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Uma onda de antissemitismo pode atingir o mundo após a pandemia

Como um vírus, dez teorias da conspiração antissemita diferentes se espalharam pela internet. Español English

Beatriz Buarque
17 April 2020
The Star of David seen on iron door in Kazimierz, a historic Jewish quarter of Krakow.
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Artur Widak/NurPhoto/PA Images

Hannah Arendt foi uma das primeiras autoras a identificar o caráter virulento das narrativas antissemitas. Em Origens do totalitarismo, ela destacou como o antissemitismo foi consolidado em alguns regimes totalitários, principalmente porque sua virulência não foi prontamente identificada pelo público e pelos chamados homens ilustres (os indivíduos responsáveis ​​pela produção de conhecimento). Na época e antes do anúncio da solução final, Hitler se auto intitulou como profeta ao descrever seu plano de trazer a Alemanha de volta à era de ouro. Além disso, ele também tinha uma equipe de pesquisadores responsáveis ​​por legitimar teorias da conspiração antissemitas, como a que judeus transmitem doenças.

Ao longo da história, a disseminação de teorias conspiratórias antissemitas por indivíduos cujo discurso era recebido pelo público como verdade (padres, intelectuais) foi crucial para legitimar essa ideologia extrema. Com o advento das mídias digitais, esse movimento de legitimação do antissemitismo para ter se modernizado. Se, no passado, o lugar de autoridade ocupado por alguns oradores era consagrado por meios de comunicação de massa, hoje o salto de orador comum para orador com autoridade, ficou ainda mais fácil. As redes sociais permitem que qualquer um crie uma conta e apresente mensagens como se fossem uma verdade incontestável, podendo atingir um número considerável de seguidores/espectadores. Vale ressaltar que, em nossa sociedade, esse número considerável de seguidores/espectadores representa poder (na medida em que indivíduos com um grande número de seguidores têm, sem dúvida, maior influência na formação da opinião das pessoas).

Como resultado, atualmente, não contamos mais com dezenas de pessoas legitimando o antissemitismo através da produção de teorias da conspiração tidas como verdadeiras, mas um número incontável de indivíduos envolvidos em tal atividade, aumentando ainda mais a virulência de uma ideologia que prospera em tempos de crise, especialmente crises que levam a um estado permanente de medo. Uma busca no Twitter pelas palavras em inglês Jew (judeu) e coronavirus entre 20 de março e 3 de abril de 2020 revelou a existência de dez tipos diferentes de teorias de conspiração antissemitas que associam a Covid-19 à comunidade judaica.

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Em todos os 207 tuítes, judeus são culpados pela fabricação ou pela disseminação do vírus que já matou mais de 100.000 em todo o mundo. Quase 80% dos tuítes antissemitas foram escritos como se fossem notícias (como se fossem verdade, não uma opinião pessoal). Em outras palavras, 164 tuítes foram escritos de maneira a dar uma aparência de verdade às teorias conspiratórias antissemita.

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Essa tendência não é uma coincidência. É uma estratégia antiga usada para legitimar o antissemitismo, que agora está disponível para qualquer pessoa com um perfil de mídia social. Entre esses tuítes antissemitas produzidos como verdade, cinco têm sites neonazistas como fonte. Três sites neonazistas foram citados como fonte de notícias, sites que não contêm referências antissemitas gritantes na sua página principal, mas sim, foram construídos de modo a passar ao leitor uma aparência de verdade, e não de propaganda política. Eles se assemelham a sites legítimos de notícias e o fato de as pessoas compartilharem suas “notícias” em diferentes plataformas, reforça a noção de que reproduzir teorias conspiratórias antissemita como verdade continua sendo um passo importante para sua legitimação.

Quando padres viram mainstream para incitar o ódio aos judeus

Antigamente, era comum ver monges e padres demonizando os judeus e não é segredo que eles desempenharam um papel importante na legitimação da inquisição. A afirmação de que os judeus mataram Jesus é reproduzida pelos cristãos há séculos. E a pandemia do novo coronavírus parece ter trazido essa narrativa à tona mais uma vez, como uma tentativa de encontrar um bode expiatório para a situação descontrolada testemunhada pela humanidade em 2020.

Entre os 207 tuítes analisados, três mencionaram o vídeo em que o pastor americano Rick Wiles diz que Deus está espalhando o vírus nas sinagogas como punição pelo fato de os judeus negarem Jesus como seu filho. Embora muitas pessoas tenham criticado o pastor por sua mensagem antissemita, dezenas de outras o elogiaram e retuitaram o vídeo.

Mais uma vez a aparência de verdade revela sua força. O vídeo se assemelha a um noticiário e a maneira como o pastor aparece, o coloca em uma posição de autoridade, já que ele é o principal apresentador do programa. A posição de jornalistas é associada à transmissão da verdade. Jornalistas são geralmente percebidos como mensageiros da verdade. Se um pastor é apresentado como a pessoa responsável por apresentar as notícias, a aparência de verdade incorporada em sua mensagem se torna ainda mais forte na medida em que sua narrativa combina os tons proféticos de um pastor (ele tem acesso à "verdade divina") com a aparente objetividade associada aos jornalistas (ele relata os fatos). Para tornar a narrativa ainda mais convincente, o vídeo foi transmitido ao vivo em um site chamado TruNews, que apresenta mensagens referentes à Covid-19 como mensagens de Deus contra os “inimigos da cruz”.

Como Adorno previu algumas décadas antes do surgimento da internet, o antissemitismo tem uma capacidade impressionante de se modernizar e não se restringe aos países europeus. Um pastor brasileiro também usou a mídia digital no final de março para associar judeus à pandemia. No vídeo, postado no YouTube e visto por mais de 19.000 pessoas, Cabo Daciolo diz que cristãos e judeus veem essa epidemia como um sinal profético. A diferença é: os cristãos estão esperando por Jesus e os judeus estão esperando por um messias que é o anticristo. No vídeo, que recebeu mais de 4.000 curtidas, Cabo Daciolo usou sua posição de pastor para legitimar a alegação de que os judeus estão esperando pelo anticristo. Além de pastor, ele também exerce um papel ativo na política brasileira, chegando a concorrer às eleições presidenciais em 2018.

Em apenas duas semanas, dez tipos diferentes de teorias de conspiração antissemitas foram disseminadas no Twitter e vídeos feitos por oradores religiosos com autoridade associando a pandemia a judeus viralizaram. E aqui estamos falando apenas de narrativas usando as palavras "judeu" e "coronavírus". Embora seja uma amostra pequena, essa observação aponta semelhanças entre a pandemia de Covid-19 e o antissemitismo: ambos eram reais antes que o público reconhecesse sua existência; ambos tiveram sua importância ignorada no início de seu surgimento por autoridades e acadêmicos; nas sombras, os dois se tornam mais fortes. A diferença: a Covid-19 já fez vítimas. Os efeitos da disseminação das teorias conspiratórias antissemita como verdadeiras durante esse momento incerto ainda estão por vir. No entanto, ainda há tempo de impedir uma onda virulenta de ataques antissemitas. Ainda podemos evitar outro capítulo sombrio na história da humanidade.

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