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Onde está hoje a centro-direita do Chile?

Entrevistado por José Zepeda, o filósofo chileno Hugo Herrera diz que o país precisa de uma centro-direita com sensibilidade republicana social e liberal.

José Zepeda
12 August 2020
Protestos em Santiago de Chile em 29 de outubro de 2019
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Claudio Abarca Sandoval/NurPhoto/PA Images

Até meados de outubro de 2020, o Chile foi aplaudido por um grupo de nações, instituições e personalidades internacionais que previam sua iminente entrada no clube das nações desenvolvidas. A previsão foi apoiada pelo bom desempenho macroeconômico e a redução da pobreza ratificada pelo Banco Mundial: entre 2006 e 2017, o Chile reduziu a pobreza (renda inferior a USD 5,5 por dia) de 19,6% para 3,7% e a porcentagem da população vulnerável (renda entre USD 5,5 e USD 13 por dia) de 43,9% para 30,1%".

Ao mesmo tempo, os órgãos internacionais vinham alertando sobre a desigualdade endêmica e o desenvolvimento não-inclusivo. Em 18 de outubro, começou a explosão social e com ela uma mudança cujas consequências ainda estão no ar devido à pandemia do coronavírus.

Hugo Herrera é filósofo e acadêmico da Universidade Diego Portales. Pouco depois dos protestos, ele escreveu um livro de referência, Outubro no Chile, acontecimento e compreensão política: rumo a um republicanismo popular.

Herrera é um independente que se identifica com a direita republicano. Nessa conversa, ele oferece sua visão das causas da mobilização social e dos possíveis caminhos a serem seguidos para resolver a crise.

José Zepeda: A política chilena, como um todo, não imaginava nem suspeitava do início da explosão social. Isso pode ser devido à ignorância de toda política social e, portanto, ignorância das novas circunstâncias e desejos dos chilenos?

Hugo Herrera: Há dois lados que precisam ser distinguidos, porque, por um lado, o grande eixo político das duas últimas décadas foi a Concertación, que conseguiu muitas coisas, mas não conseguiu antecipar a situação que sua ação política iria produzir.

Uma grande conquista foi o crescimento da classe média. Pode-se dizer que é precária, endividada, incipiente. Isso é verdade. Mas essa precariedade não justifica o escárnio que vemos por parte da esquerda. Quando argumentam que não são classe média, na verdade o são no sentido mais preciso do termo. Há apenas algumas décadas no Chile havia desnutrição infantil, que afetava 40% das crianças. Havia fome, frio. Todas essas circunstâncias foram deixadas no passado.

Essa classe média, hoje, faz exigências mais sofisticadas. O fato de a Concertación não ter previsto isso pode ser explicado pelo fato de seus representantes terem se retirado já bem velhos. É importante notar que foi uma geração de muito sucesso, mas que esteve na geladeira durante 17 anos, durante toda a ditadura. Além disso, eu não os consideraria especialmente responsáveis porque o sucesso de uma geração é mais do que suficiente. Não dá para esperar também que antecipe as condições que suas conquistar vão produzir. Isso provavelmente não é algo que ninguém possa fazer. Há um esgotamento natural.

Sou de uma geração posterior, tenho 46 anos. Mas, não era imaginável que toda a minha geração pudesse ingressar no ensino superior. Na verdade, os professores lhe diriam no primeiro dia de aula que você é privilegiado. E era verdade.

O protesto de 2011 afundou a Concertación, o centro da política chilena, esse eixo que ligava desde o Partido Socialista até a Democracia Cristã.

O que resta? Dois discursos muito abstratos. No da direita, o discurso da Guerra Fria continuou a prevalecer, sob a tese de Milton Friedman de que a ordem econômica neoliberal é a base de uma ordem política adequada. E essa tese serviu para fazer oposição, para dizer não, mas é uma tese que não serve para construir a institucionalidade, para propor reformas estruturais, para conduzir o processo político. E isso pode ser visto nos dois governos de direita que não foram capazes de desencadear um processo político liderado pelo presidente.

Um novo discurso está surgindo à esquerda, o da chamada Nova Esquerda ou de certos setores da Frente Ampla que, embora tenha retórica mais sofisticada que a do Partido Comunista, é igualmente radical e abstrata. Ela faz uma crítica moralizante do direito, da política, da economia. Fernando Atria pertence à essa nova esquerda que chama a institucionalidade de mundo de Caim. Uma institucionalidade onde a questão do outro não faz sentido. É assim que ele a descreve.

A crítica moral do mercado não tem consciência de duas coisas. Uma delas é que, na realidade concreta, o mercado pode ser um canal para experiências de significado importante: grupos que se organizam em cooperativas, amigos que fazem um esforço para inventar algo, etc. Perde-se de vista a importância política do mercado, porque um mercado forte, que é naturalmente regulado, controlado e que funciona adequadamente, é uma condição para a divisão do poder social entre o mercado e o Estado, o que é uma garantia de liberdade. Ao invés disso, a proposta da nova esquerda é abolir o mercado em áreas inteiras da vida social. O poder econômico e político se concentra nas mãos do Estado, que controla todos os recursos econômicos nessas áreas.

Hoje estamos divididos entre dois extremos, o economicista e o moralista.

Assim se poderia responder à ideia de que as elites se afastaram da situação real da sociedade.

JZ: Se o setor mais solvente da direita é economicista, neoliberal e acredita que vive dentro do melhor modelo possível, que também tem mais de 40 anos de idade e tem participações significativas no poder, como você pode convencê-lo de que o Chile precisa de algo diferente hoje?

HH: É difícil porque requer mudanças nos hábitos. Na verdade, esta é uma geração que também acredita ter tido sucesso. Portanto, é difícil mudar de opinião.

Sem prejuízo da constatação, acredito que, de forma até rápida, tem sido construído um processo de revisão ideológica, de crítica, de disputa dentro da ala da direita, que vem sendo incorporado ao processo político. Isso é demonstrado pela liderança daqueles que criticam o discurso economicista e se abrem a outras vertentes ideológicas dentre da própria direita.

A ideia é restabelecer de alguma forma a tese de que a base de tudo não é a economia. A economia é importante. Temos que prestar atenção às regras econômicas se não quisermos fazer castelos no ar. Mas tão importante quanto essa base é o caso da legitimidade, de como uma ordem institucional legítima é construída.

JZ: Vivo na Holanda há mais de 40 anos, e estou cada vez mais convencido de que um dos maiores desafios enfrentados pela direita chilena é que os autênticos liberais, republicanos com sensibilidades sociais, consigam se tornar maioria nesse setor, que desde a ditadura tem sido caracterizado por uma visão muito contrária às aspirações liberais.

HH: Sim, eu concordo plenamente. O paradigma da direita tem sido o modelo americano. Penso que tanto por vocação quanto pela mentalidade do povo não seria errado complementá-lo com uma visão europeia. Ou seja, a CDU na Alemanha, para citar um exemplo, é de centro-direita. Mesmo tendo sempre afirmado ser de centro, por causa do nazismo, trata-se de um movimento de centro-direita. Não seria ruim no Chile. Uma centro-direita com sensibilidade social e liberal no sentido republicano, com uma ordem de divisão do poder, com participação, com presença no mundo dos trabalhadores, dos sindicatos. Porque é típico que, no Chile, o lado economicista diga que não. Eles reagem com raiva: nos estão convertendo e não economizam em epítetos depreciativos. Eles chamam a opção de Desbordes de peronismo chileno.

JZ: Mais um detalhe sobre a direita. Há uma visão que opina que governos e meios de comunicação de direita têm pouca ou nenhuma sensibilidade social, que não se importam com as pessoas além da ajuda estritamente necessária. Quão exagera é essa visão?

HH: Eu acho que não é tão exagerada assim. Se você olhar para os representantes do governo, tende a haver predominância de pessoas de colégio de classe alta, de bairros de classe alta. Não há uma grande sensibilidade social, mas sempre há um porém. Acredito também que as novas lideranças vêm acompanhadas de uma maior sensibilidade social. Principalmente na Renovación Nacional.

Fiquei surpreso. Não sou um militante, mas me sinto próximo de Desbordes. Basta cavar um pouco para encontrar os velhos liberais. Aqueles do setor agrícola e outros que dão continuidade ao velho radicalismo de direita. Ou seja, embora sejam profissionais, educados, eles vêm dos diferente setores de classe alta de Santiago, onde o contato com outras classes é difícil. Em outras palavras, além do jardineiro ou da empregada, não há ligação com pessoas de outras classes. Isso é terrível.

JZ: Vamos para a esquerda. Você chama a atenção para essa esquerda radical que questiona não apenas o modelo econômico, mas exige, na prática, uma refundação do Estado. Em resumo, uma ruptura histórica e limpa. Além disso, é uma corrente que exclui aqueles que pensam diferente, que não são vistos como adversários, mas como inimigos da liberdade. Você acha que esta tendência tem grande influência sobre a maioria da esquerda chilena?

HH: Eu faria uma distinção porque as teses são tão radicais que quando você as explica, muitos ficam surpresos. No Chile, a esquerda tem uma tradição republicana, mas há também outra revolucionária. Por republicana quero dizer que renuncia, por assim dizer, o projeto pós-institucional. Em outras palavras, a convicção dos social-democratas alemães de que o Estado são seria comunista. No entanto, era uma questão de estabelecer um Estado forte que garantisse um mercado que funcionasse adequadamente sob um regime com separação de poderes, com liberdade. No momento, embora a maioria da esquerda seja de alguma forma republicana, existem grupos revolucionários que estão deixando sua marca porque contam com o apoio do Partido Comunista, que apesar de permanecer republicano, tem tendências questionáveis no Chile com seu vício em modelos de concentração de poder. Tenho a tendência de pensar que isso vai mudar porque a Frente Ampla já o fez, juntando-se ao processo político e tornando-se parte da ordem política institucional normal.

Por outro lado, dentro da Frente Ampla existem setores que pareciam muito mais extremos no início, mas que hoje são nitidamente republicanos.

JZ: Acreditar que o estatismo é a solução é acreditar em algo equivocado. Estou convencido disso. Mas você não acha que o Estado pode e deve ter entre suas responsabilidades um sistema de saúde pública geral, uma educação pública geral da mais alta qualidade, a administração da riqueza nacional e que todos os setores mencionados devem coexistir com uma empresa privada empreendedora e republicana?

HH: Para começar, nem o indivíduo liberal nem o indivíduo coletivo revolucionário são possíveis. Ambos são abstrações. O indivíduo e o Estado formam uma unidade desde o começo. Eles são dois pólos de uma relação, porque, assim como não há Estados sem indivíduos para constituí-los, não há indivíduos sem um Estado. O indivíduo carrega o Estado em si como língua, como cultura, não o Estado como burocracia, mas como uma forma de ser organizado institucionalmente.

Portanto, nesse sentido, concordo que qualquer consideração de uma ordem política adequada tem que reconhecer esses dois pólos. Em outras palavras, temos um lado político ou público, mas também temos um lado íntimo ou privado. Isso deve ser reforçado, assim como a esfera pública.

Assim, tanto um Estado forte quanto um mercado forte são dois pilares sobre os quais qualquer coexistência se organiza, e isso implica tanto que o Estado controla o mercado, enquanto assume a seguridade social como sua tarefa em todas as suas dimensões, juntamente com um papel ativo na educação e em atividades que comprometem o desenvolvimento futuro do país e onde o privado não gera esses benefícios.

O Estado tem que intervir, por exemplo, no problema destacado pela sede chilena da OCDE, de que nossa economia continua extrativista e rentista. Temos várias áreas onde não há inovação.

A colaboração da ciência e da tecnologia com a indústria é algo que deve ser apoiado. Em outras palavras, o que fazemos com todo o contingente de chilenos que vão ao exterior com bolsas de estudo e quando retornam não têm onde trabalhar? Temos que encontrar os fundos para articular a indústria em todas as áreas produtivas. Imagino que, no campo da filosofia, não há muita opção senão trabalhar na universidade, mas em engenharia, em eletrônica, em digitalização, é outra realidade.

O que acontece é que as empresas são muito simples, por isso o Estado tem a tarefa de fomentar a indústria.

JZ: Se o povo não é uma coisa ou objeto em particular, é mais um acontecimento, então pode-se concluir que é de geração espontânea?

HH: Os diferentes componentes do povo são difíceis de serem compreendidos. O que pode nos reunir é a sociologia, a antropologia social, e também a economia. Estes múltiplos fatores, em algum momento, se unem e as pessoas entram em cena. Isso é o que acontece em momentos de revolta ou revolução.

Nas revoltas sociais de outubro do ano passado, havia grupos organizados que operavam sem restrições porque se beneficiavam de alguma forma da agitação geral. O caso da queima do metrô, esse orgulho generalizado em Santiago, foi marcante, mas ninguém o impediu. Havia um mal-estar tal que permitiu que se colocasse fogo no metrô. Isso pelo lado psicológico da questão.

A outra coisa é que havia milhões de pessoas nas ruas e, a partir desse momento, não podem mais ser classificadas como grupos organizados ou politicamente orientados. Foi o povo que irrompeu, a tal ponto que todas as atribuições representativas dessa revolta popular foram imediatamente postas em questão. A massa social não pode invocar maior legitimidade, por exemplo, do que o sistema de partidos políticos.

A crise atual nada tem a ver com a de 1973, que foi confronto, por assim dizer, horizontal, com dois lados que, articulados desde as bases até as elites, se excluíam mutuamente. Hoje, porém, a situação é muito mais parecida com a do centenário (1910), quando o proletariado irrompeu no Chile e o sistema político oligárquico não foi capaz de compreendê-lo.

A rua ou o povo pede uma resposta do sistema político. Ela não se articula, por assim dizer, em um movimento organizado. E isso responde ao que diz a teoria política: ou o povo aplaude ou o povo vaia.

JZ: Se este for o caso, têm razão aqueles que profetizam o pior cenário possível, uma vez que a abaixe a poeira da pandemia?

HH: Não sei se vai ser da mesma maneira e com a mesma força de outubro. Mas penso que esta crise será duradoura, porque o elemento que poderia ajudar a sair dela, ou seja, o sistema político, neste momento, adquiriu hábitos que a tornam parte do problema.

Eu concordo plenamente com o que você diz. Há uma perda de proximidade com a realidade popular. Isso precisa ser superado.

JZ: Se há algo que me chamou particularmente a atenção em seu livro, é a referência à terra, que não só aponta para a qualidade ecológica que pode ser resumida em uma convivência harmoniosa com a natureza, mas também diz que a terra é o fundamento e a causa da nossa relação conosco mesmos. A terra, e eu gosto muito disso, faz parte de nós. A consciência telúrica do Chile é muito ruim. Extração mineira agressiva, latifúndios, fábricas poluidoras, etc.

HH: Uma das principais manifestações da falta de consciência telúrica, sobretudo do sistema político, é como as pessoas são distribuídas e estabelecidas. O noroeste é um deserto que está avançando. O vale central, salvo hoje pelas chuvas, está secando. No sul, o Parque Nacional está fora dos limites para os chilenos.

A realidade é que uma grande parte da população está concentrada em uma cidade cheia de gente que desistiu da paisagem. Infelizmente, as instituições políticas estão perdendo a consciência do território.

JZ: Eu queria tocar na institucionalidade territorial com ênfase no caso regional, que é grave, porque há regiões que contribuem com porcentagens significativas para o tesouro nacional e são simplesmente ignoradas.

HH: Devido ao seu tamanho, o Chile não pode ter mais de cinco ou seis regiões e deve avançar para isso, gradualmente, porque são processos de reforma estrutural. O que é desejável é o regionalismo político, não apenas o regionalismo administrativo, com a eleição de governadores regionais e pequenos parlamentos, com um sistema de compensação fiscal em que há uma certa proporção do que é gerado com os recursos contribuídos pelas diferentes regiões.

Há outra questão fundamental que mostra a pequenez do sistema político. Cada uma dessas regiões, para se desenvolver, requer não só infraestrutura, mas também uma atividade cultural relevante.

O que isso significa? Um sistema de boas escolas secundárias, que em alguns casos existem, mas também um sistema de boas universidades. Estou me referindo à excelência. As únicas regiões que atendem ao padrão são Valparaíso e Concepción.

Mas se houvesse planejamento, porque o Estado não tem recursos suficientes para criar 16 universidades de excelência, com cinco grandes regiões pode-se pensar em um número semelhante de universidades.

Somente então o contingente massivo de carreiras políticas regionais poderia se tornar atraente e as regiões poderiam se tornar centros de poder. Acredito que seriam geradas dinâmicas atraentes na vida nacional que hoje não existem.

JZ: O que impressiona no momento são as consequências psicológicas reveladas pelo vírus.

HH: Sim, que tem múltiplos escopos, porque hoje as pessoas estão morrendo. Isso é algo em que venho pensando faz tempo. Em casas superlotadas, há uma série de problemas de saúde e relacionamentos cotidianos que se tornam muito complexos. O lar é uma bandeira liberal. Em outras palavras, como é importante ter uma existência íntima sólida. Isso requer um mínimo de espaço. O lar é um refúgio de intimidade, de convivência, de estudo, de silêncio, de uma certa tranquilidade. Um ambiente para o amor.

Eu me pergunto que possibilidades há para isso em uma casa de 30 m2 onde vivem quatro ou cinco pessoas. Ou seja, o mínimo não está sendo cumprido.

Aqui, existe um desconforto acumulado ou uma alienação acumulada, para dizer de forma direta. Um aspecto fundamental seria o espaçamento. Uma possibilidade seria realizar reformas na área de Santiago, ou moradias sociais nos setores de classe alta. Mas temos que entrar e morder com força, quebrar interesses muito altos.

Acho que a ideia de regionalizar politicamente o país o tornaria mais barato, menos traumático e mais promissor.

JZ: Há uma crise social. Há uma crise política. Existe uma crise de saúde no Chile. Existe também uma crise espiritual?

HH: Eu acho que o modelo econômico produziu benefícios apesar de todos os defeitos que ele tem. Morei quatro anos na Alemanha e me ressinto da forma como o modelo está organizado no Chile, que não tem nada a ver com o que deveria ser. O próprio mercado, de acordo com os defensores do mercado. Ainda assim, é preciso reconhecer que isso gerou riqueza. Mas agora se esgotou. Os economistas, tanto de direita quanto de esquerda, reconhecem que após o ciclo virtuoso de 1986-98, mais ou menos, a produtividade começou a diminuir, e junto com o enriquecimento, o chamado modelo chileno gerou a desintegração social.

Há uma ausência de conexão com o meio ambiente, de conexões que nos proporcionam felicidade. A renúncia da paisagem, por um lado. Por outro lado, a renúncia de bairros espaçados, habitáveis, com vizinhança. A conexão com o outro já não acontece em praças, cafés e pontos de encontro, mas através de redes sociais. Isso impede o ritmo humano e uma certa naturalidade de existência.

Nesse contexto, perdemos de vista um aspecto muito importante para manter a sociedade unida, que é a capacidade de olhar uns para os outros, de contrastar opiniões, de ouvir uns aos outros. Perdemos a noção de coexistência e, portanto, de um país do qual fazemos parte, de uma comunidade, da qual somos responsáveis por nós mesmos e pelos outros.

JZ: O caminho para sair da crise poderá começar com o referendo constitucional de novembro. Você é a favor da continuidade institucional e não de uma ruptura, do esquecimento da história, como se nada tivesse acontecido nestes mais de 200 anos de Chile. Para isso, você apela para a Constituição de 1925. Por quê?

HH: Essa proposta é difícil de ser aplicada hoje porque um processo constituinte já está encaminhado e acredito que ganhará aprovação e haverá uma assembleia constituinte.

Dito isso, a iniciativa de criar uma Constituição do zero é de Pinochet. Essa ideia não existia antes na história do Chile. A Constituição de 25, na retórica constituinte, é entendida como uma reforma da de 1833. E a de 1833, por sua vez, é entendida como uma reforma da de 1828. Como um símbolo, a Constituição de 1925 poderia funcionar como esta forma de reformar as Cartas anteriores. Assim, ela cobre toda a história republicana do país.

A Constituição deve ser um símbolo de união. Mas também deve gerar uma espécie de milagre, porque deve ser vista como um símbolo de unidade, como um paradigma intangível tão poderoso que é respeitada, reconhecida como algo que vai além dos esforços das partes para instalar algo.

Por outro lado, é necessário evitar a trivialização da Constituição. Impedir que cada novo movimento social que surja diga, "esta Carta não nos representa", e continuamos a mudar as constituições eternamente. Ainda mais com a realidade atual latino-americana, onde vemos uma espécie de ginástica institucional, em que diferentes países trocam de constituição como as pessoas trocam de roupa, enquanto as democracias mais antigas tentam manter suas constituições ao longo do tempo.

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