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A pandemia se alastra, bem como o desmatamento da Amazônia

Os níveis de desmatamento na região estão batendo recordes em meio à crise causada pelo novo coronavírus. Español, English

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28 May 2020
Victor Moriyama/DPA/PA Images

A América Latina está enfrentando uma das piores crises sanitárias em sua história recente, cujas consequências ainda não podem ser medidas, ou até mesmo imaginadas.

Para além do custo humano, os países da região estão lidando com crises econômicas, migratórias e também políticas, particularmente no Brasil, onde o governo de Jair Bolsonaro vem sendo criticado internacionalmente por sua conduta negacionista diante da pandemia de Covid-19, que já matou mais de 25.500 no país.

As regiões amazônicas estão entre as mais afetas em países como o Brasil, Colômbia e Peru, com a disseminação do novo coronavírus ainda se alastrando entre comunidades isoladas e vulneráveis.

Diante de tanta tragédia, um dos únicos reconfortos pareciam ser os vídeos e fotos virais de animais passeando pelas cidades, golfinhos nadando em baías improváveis e céus mais claros em cidades tomadas pela poluição. A natureza parecia respirar enquanto os humanos se recolhiam em casa.

Infelizmente, o isolamento não foi tão rejuvenescedor assim para o meio ambiente. Dentre toda a desaceleração causada pelo coronavírus, existe um fenômeno que a doença não conseguiu frear: o desmatamento. Enquanto ativistas e agências governamentais e ONGs se isolam do terreno para mitigar o alastramento da pandemia, os caminhos parecem estar desimpedidos para o desmatamento, mineração irregular e outras atividades ilegais.

Brasil

Os níveis de desmatamento da Amazônia brasileira este ano bateram recordes. Mas esse dado é só o começo da tragédia que vem sendo anunciada.

O ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles disse que o governo de Bolsonaro deveria usar a trégua da mídia para aprovar mudanças nas leis ambientais

Quando os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) foram analisados em abril, mostrando que o desmatamento no Brasil havia crescido mais de 50% no primeiro trimestre de 2020 em relação a 2019, jornalistas e especialistas conjeturaram se a crise do coronavírus estava dando cobertura para atividades ilegais.

Mas o que era debate, ficou escancarado na última sexta-feira. Durante o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril divulgado na semana passada, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles disse, com todas as palavras, que o governo de Bolsonaro deveria usar a trégua da mídia, preocupada em cobrir a pandemia de Covid-19, para aprovar mudanças nas leis ambientais que, em outro momento, poderiam ser questionadas pela Justiça.

Em suas palavras, afirmou que o governo deveria “aproveitar a atenção da imprensa na pandemia para aprovar reformas infralegais de desregulmentação na área do meio ambiente e ir passando a boiada" em relação à Amazônia.

Segundo os dados obtidos através do sistema de monitoramento desenvolvido pelo Inpe, o níveis de desmatamento dos primeiros três meses do ano já superam todos os recordes para o mesmo período desde que a atual metodologia foi implementada, há quatro anos.

Entre janeiro e março, quase 800 km2 de floresta primária foram derrubados na Amazônia brasileira, um território que acomodaria, com frouxidão, a cidade inteira de Salvador ou quase quatro Buenos Aires. A destruição da floresta no mês de abril aumentou 64% em relação ao mesmo período do ano passado.

Esses números são surpreendentes para o começo do ano, que representa a estação chuvosa na região amazônica. As chuvas fortes e cheias dos rios dificultam a propagação de incêndios, bem como a ação do homem.

Ou seja, a tendência é que os números subam e muito daqui para o fim do ano. Com a chegada da estiagem, que vai até outubro, os fogos se espalham com perigosa facilidade, como o mundo observou em agosto do ano passado.

As estimativas feitas a partir dos dados dos últimos quatro anos apontam que a área de desmatamento em 2020 deve ficar entre 12 mil km2 e 16 mil km2, representando um aumento da destruição da Amazônia comparável apenas aos piores momentos da sua história.

Em março deste ano foram registrados 12.958 focos de calor na Amazônia colombiana

E essa projeção foi feita antes da liberação das imagens da reunião ministerial que mostra que o governo tem todas as intenções de agir por trás do pano, podendo exacerbar ainda mais um fenômeno que por si só já acarreta consequências possivelmente irreversíveis para esta e futuras gerações ao redor do mundo.

Com o estado do Amazonas sofrendo com o maior nível de contágio pelo novo coronavírus no Brasil, em uma das regiões com menos investimento na saúde, o cenário é ideal para que os números sigam aumentando.

“Isso é o que me preocupa. É a confluência de várias coisas ruins acontecendo ao mesmo tempo,” disse Sebastian Troeng, vice-presidente executivo da Conservation International.

Apesar do Brasil representar a maior ameaça para o futuro da maior floresta tropical do planeta hoje, não é o único.

Colômbia

Do lado oeste da Amazônia, os ambientalistas advertem que as máfias e os garimpeiros não se submeteram à quarentena decretada pelo governo de Iván Duque, e aproveitam o fato de que todos os focos estão na emergência sanitária para queimar a floresta sem nenhum impedimento ou restrição.

Os especialistas temem que a pandemia pode estagnar, ou até mesmo reverter, os avanços alcançados pelo governo, com apoio da Noruega, Reino Unido e Alemanha, de controle do desmatamento.

O desmatamento disparou no país depois que o governo colombiano e as FARC assinaram o acordo de paz de 2016, o que criou vácuos de poder em várias partes da região amazônica. Em 2017, 220.000 hectares foram derrubadas, o equivalente a um território maior do que a cidade de Bogotá e de Medellín juntas. Em reação, o estabeleceu metas agressivas para reduzir a perda territorial da Amazônia.

Ainda não foram produzidas informações oficiais do Ministério do Meio Ambiente em relação ao desmatamento deste ano. Mas as estimativas sugerem que o desmatamento para os primeiros quatro meses deste ano poderá ser maior do que todo o ano passado.

"Infelizmente, como o sistema é tão lento em estabelecer os números, estaremos recebendo os sinais do que aconteceu em 2019, quando em 2020 estamos vendo esse desdobramento", disse Rodrigo Botero, diretor da Fundação para a Conservação e o Desenvolvimento Sustentável (FCDS).

Segundo o Instituto Sinchi, em março deste ano foram registrados 12.958 focos de calor na Amazônia colombiana. No mesmo período em 2019, esse número era de apenas 4.691, representando um aumento de 276%. Focos de calor não necessariamente se transformam em incêndios, mas os cientistas dizem que 93% dos focos registrados são posteriormente confirmados como incêndios florestais.

Enquanto isso, em 21 de maio, a Câmara dos Deputados da Colômbia rejeitou, por 88 votos a favor e 74 a favor, a proposta que buscava proteger a Amazônia da exploração de hidrocarbonetos, mais um passo no caminho errado.

Enquanto a Covid-19 se acelera na América Latina, declarada esta semana como o epicentro global da pandemia, a agenda do mais feroz extrativismo não para. Privados do escrutínio da imprensa e da sociedade civil, protegidos por governos que trabalham para os interesses de alguns madeireiros, pecuaristas, mineiros e traficantes de todos os tipos, proliferam sobre a já diminuída reserva mundial de água, oxigênio e biodiversidade.

Mais cedo ou mais tarde, mas num horizonte calculável, a pandemia terá passado, mas a crise climática continuará a avançar sem controle. Com a aproximação da temporada de incêndios na Amazônia, e com um Brasil que continua sendo queimado pelas políticas irresponsáveis e agressivas do seu presidente, tememos que a catástrofe ambiental se agrave. Todos os sinais de alerta estão acionados.

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