democraciaAbierta

A pandemia e a dialética brasileira da barbárie

No Brasil, a barbárie é representada pelo reacionarismo, fanatismo religioso, anticientificismo, necropolítica e novas lógicas de desinformação. Español English

Rafael Heiber
20 April 2020
Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro protestam contra as recomendações para o isolamento social do governador de São Paulo, João Doria, durante o surto de COVID-19, em São Paulo,
|
Cris Faga/SIPA USA/PA Images. Todos os direitos reservados

Já afeta quase metade do planeta. Em poucas semanas o COVID-19 se transformou em pandemia, obrigando impensáveis paralisações e confinamentos. Desde então, iniciou-se uma série de debates sobre os possíveis paradigmas de uma nova normalidade e a urgência de uma outra globalização. Na maioria dos casos, retóricas reformistas que se utilizam de reflexões amadurecidas há décadas em circuitos intelectuais contra-hegemônicos. Em outros, indagações sobre a regulação das tecnologia mais recentes e seus papéis em um novo contrato social, deixam uma brecha de incertezas sobre se estamos a caminho de um mundo mais solidário ou autoritário.

Os primeiros estudos avalizados pela comunidade científica, permitem aferir que a humanidade teve sorte. A pandemia é causada por um vírus muito mais temido por sua capacidade de disseminação do que por sua letalidade. Se muitos estamos em quarentena, não é por outro motivo que o de evitar o contágio simultâneo de toda a população, manter o máximo de normalidade nos sistemas de saúde para que atendam, tanto os casos mais graves de COVID19, como as necessidades sanitárias de rotina. Nenhum governo condiciona a agenda de restabelecimento da rotina à fabricação de uma vacina.

Além de fatores demográficos, urbanísticos, culturais e socio-econômicos, ficou evidente que a intensidade da atual privação social e da paralisia econômica é proporcional à sujeição dos sistemas de saúde às regras da administração empresarial. Ficaram evidentes os limites do aclamado dinamismo global, incapaz de oferecer insumo hospitalar adequado para potenciais 5% da população com os sintomas mais agudos da doença. A incapacidade de zonas ricas do hemisfério norte em lidar com a quantidade repentina de enfermos (Lombardia, Madrid, Nova York e outras), somente comprova que estes sistemas sanitários funcionavam perfeitamente bem, de acordo com suas diretrizes administrativas. O que estava rotundamente equivocado eram, e continuam sendo, os princípios do mercado aplicados às esferas que escapam de sua alçada. A Suécia, tradicional exemplo de Estado de bem-estar social, considerou estar preparada para se abster da quarentena. Dentro de alguns meses, a comparação com seus vizinhos nórdicos mais precavidos, evidenciará os equívocos globais das últimas décadas.

É cedo para saber se esta pandemia abrirá novos horizontes para o mundo, se ela realmente suspenderá em definitiva o último estado de normalidade ou se o status quo retornará amanhã ao seu business as usual. Em resumo, um mundo de acumulações injustificáveis, regulado com uma mistura de fantasia meritocrática, de Estado fagocitado e de caridade funcional. O certo é que este curto-circuito precipita a tendência geopolítica em curso - iniciada com a guerra ao terror de Bush e coroada com a chegada de Trump à presidência - favorável à China em detrimento dos Estados Unidos, ameaçadora para o quase falido projeto europeu e temerária para regiões como América Latina y África.

O negacionismo infindável de Bolsonaro em relação aos riscos do SARS-Cov2, coloca agora o Brasil às portas de um verdadeiro genocídio residual

No Brasil, onde o presidente demitiu seu ministro de saúde por defender a quarentena, a pandemia refletiu no vocabulário político um novo termo notório: pandemônio. É o resultado de uma postura preconceituosa, obscurantista e subalterna de Jair Bolsonaro aos interesses do homólogo Donald Trump, o que varreu do mapa a altivez da diplomacia brasileira e entregou ao ultraliberalismo o controle sobre as políticas públicas. Já em 2016, este mesmo setor levou Michel Temer à presidência e aprovou a reforma fiscal que os congressistas da oposição apelidaram de PEC da Morte. Os insuficientes gastos em saúde, ciência e educação ficaram congelados pelos próximos vinte anos. O atual governo avançou com a doutrina do Estado Mínimo, realizando privatizações prejudiciais ao patrimônios dos cidadãos e uma reforma previdenciária que manteve os tradicionais privilégios de militares e altos cargos públicos, sempre em detrimento da massa empobrecida, para garantir o fluxo de capital ao rentismo financeiro. O apoio oficial do governo às queimadas florestais e ao extermínio dos povos nativos foi, internacionalmente, a cara mais visível de um governo, cujos perigos não respeitam fronteiras.

O negacionismo infindável de Bolsonaro em relação aos riscos do SARS-Cov2, coloca agora o Brasil às portas de um verdadeiro genocídio residual, o risco de deixar morrer centenas de milhares de “ subcidadãos dispensáveis” que não terão socorro nem despedida. Jair Bolsonaro aposta que a maioria tampouco se transformará em estatísticas. Embora estejamos diante de um vírus extremamente democrático, na república mais desigual do planeta, a assistência é aristocrática. O trajeto do SARS-Cov2 no país confirma: trazido por turistas endinheirados voltando da Itália e dos Estados Unidos, fez de um porteiro e de uma limpadora doméstica suas primeiras vítimas.

No sentido mais hegeliano, o Brasil chegou ao terceiro e derradeiro movimento de uma dialética própria. No primeiro ato, o conservadorismo como tese, fruto de uma sociedade colonialista, relacional, aristocrática e desigual. No segundo, a vulgaridade como antítese, pela instalação de um modelo neoliberal, de individualismo alienador e subjetividade narcísica. Antítese que não nega a tese, que a absorve e assimila até que a contingência permita o terceiro ato: a barbárie como síntese da dialética brasileira. Barbárie representada por reacionarismo, fanatismo neopentecostal, anticientificismo, necropolítica e novas lógicas da desinformação, que reforçam a ignorância, o ressentimento e a iniquidade daqueles que, ativos como nunca, fizeram de Jair Bolsonaro seu representante máximo, também chamado de “o mito”.

Sob o modelo neoliberal ainda vigente (doutrinamento de Hayek e Mises operado com eficiência desde Thatcher e Reagan) é o detestado Estado que sai com seus mais substanciosos recursos para resgatar bancos e mercado financeiro. Neste caso, o faz invariavelmente sob justificativas simplistas e capciosas. Ao povo, bastou um anúncio troiano: mais autonomia para o Banco Central proteger a economia. O que significará a transferência direta de US$200bi do Tesouro Nacional para os banqueiros. Mais uma vez, o controle nas mãos dos representantes do grande capital privado, seguidores do mantra que transforma crise em oportunidade. Aos cidadãos sem sustentos durante a pandemia, a oferta do Ministro Paulo Guedes foi de US$40 mensais, elevados a US$120 pelos congressistas da oposição.

Quando o aquecimento global ou a desigualdade estrutural provocarem similar excepcionalidade a esta pandemia, será demasiado tarde para encontrar qualquer alternativa

Como se esperava desde o início do atual governo, a maioria da direita pseudo-civilizada e oportunista, abandonou Bolsonaro. O advento da pandemia ajudará este perigoso grupo de políticos, empresários e jornalistas a reforçar uma amnésia coletiva e desvincular-se de vez de seu antigo hospedeiro. Ao Capitão Bolsonaro, resta o gabinete comandado por seus filhos, o apoio da bancada evangélica e a tutela dos generais, que exercem um governo militar de facto.

Se o golpe em Dilma Rousseff abriu a Caixa de Pandora, a pandemia amplificadora do pandemônio poderá decretar seu fechamento. Em 2018 era razoável prever que Bolsonaro não terminaria seu mandato. Hoje, percebe-se que ele pode nem cumprir a metade. Em menos de um ano, suspeitas incômodas se somam aos desmandos políticos: assassinato do Capitão Adriano, condecorado oficialmente pela família Bolsonaro e presunto matador de Marielle Franco; desaparecimento de Fabrício Queiroz, principal assessor da família Bolsonaro no Rio de Janeiro, conhecido por operar milícias na cidade e realizar depósitos na conta da atual Primeira Dama; súbito infarto do ex-aliado e recém desafeto político, Gustavo Bebbiano. Fatos que apenas se somam a antigas práticas de corrupção e desserviços acumulados por quase três décadas pela família Bolsonaro no poder legislativo do país. A figura política de Bolsonaro é sintoma e passará, mas as causas permanecerão: o reacionarismo incorrigível, o fundamentalismo ascendente, a elite ignóbil e o Lawfare como ferramenta de manipulação política. Qualquer tentativa de refundação republicana, deverá enfrentar estes inimigos da democracia e realizar um profundo exame dos fracassos acumulados nas últimas quatro décadas de exercício democrático.

Para a comunidade global, a pandemia não deixa de ser a chance de também refundar seus princípios e combater seus mitos. Um deles, o mito absolutista liberal que exalta as conquistas da modernidade triunfante, possível graças à inegável acumulação exponencial de saberes e de fazeres. Ignora, porém, as alternativas ao dever-ser do mundo que este capital cognitivo possibilitaria, mas coíbe porque dele se apropriam e o transformam em território de dominação. Ao final de 2020, as mortes por acidentes de tráfego e pela contaminação atmosférica dos automóveis serão superiores aos óbitos por SARS-Cov2. Uma estatística que se repete há décadas, mas a vida continua astuciosamente programada para que o máximo de pessoas desejem e dependam do carro. Quando o aquecimento global ou a desigualdade estrutural provocarem similar excepcionalidade a esta pandemia, será demasiado tarde para encontrar qualquer alternativa.

Unete a nuestro boletín ¿Qué pasa con la democracia, la participación y derechos humanos en Latinoamérica? Entérate a través de nuestro boletín semanal. Suscríbeme al boletín.

Comentários

Aceitamos comentários, por favor consulte ás orientações para comentários de openDemocracy
Audio available Bookmark Check Language Close Comments Download Facebook Link Email Newsletter Newsletter Play Print Share Twitter Youtube Search Instagram WhatsApp yourData