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A pandemia é mais um teste para as mulheres defensoras dos direitos humanos na Colômbia

A execução extrajudicial do meu filho estourou a bolha em que eu vivia. A pandemia é mais um teste para a nossa força de continuar a luta pelos necessitados. #HumansofCOVID19

31 July 2020
O confinamento não freou o ativismo de Luz Marina Bernal
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UN Women

Eu moro em Soacha, um município próximo à capital da Colômbia, que abriga a maioria das pessoas deslocadas pela violência no resto do país. Desde que meu filho Fair Leonardo Porras Bernal desapareceu em 2008, eu venho lutando por justiça.

Com a pandemia, meu trabalho continua por meios eletrônicos, pois não nos é permitido sair mais de uma vez por semana. O confinamento tem sido muito difícil porque meu trabalho acontece no território.

Eu tinha um marido e quatro filhos, mas depois da morte de Leonardo fiquei com apenas três, e por causa das ameaças que recebemos, tive tirar os três de casa por segurança. Meu marido não aguentou a situação, e pediu para se separar há seis anos. Tive que sair de casa e por isso vivo sozinha.

Em 8 de janeiro de 2008, meu filho desapareceu. Passei oito meses procurando por ele em hospitais e abrigos. Ele tinha 26 anos de idade, mas com a mentalidade de um menino de 8, resultado de um acidente de carro que sofri quando estava grávida de cinco meses.

Como meu filho não sabia ler, eu estava preocupada que ele não estivesse conseguindo voltar e que as circunstâncias o obrigaram a dormir na rua. Comecei a procurá-lo entre as pessoas da rua. Em 16 de setembro de 2008, recebi uma chamada do (Instituto Nacional de) Medicina Legal para identificar algumas fotos, e elas eram do meu filho. Eles me disseram que o corpo dele havia sido encontrado em Ocaña, Norte de Santander, em uma vala comum.

Era muito difícil saber que ele tinha percorrido mais de 600 km de distância, quando não podia tomar decisões por conta própria. Viajei com meu marido e meu filho mais velho para recuperar os restos mortais. Lá conheci três outras famílias de Soacha cujos filhos também haviam desaparecido e estavam em Ocaña.

A pergunta era: porque eles foram de Soacha para Ocaña? O promotor de plantão riu e me perguntou se eu era mãe do chefe da organização narcoterrorista. Eu lhe perguntei se uma pessoa que não sabia ler ou escrever, e tinha uma deficiência no lado direito do corpo, poderia se tornar o chefe de um grupo desse tipo. O cara se desfez do sorriso e disse: "ele morreu em um conflito com o exército".

Meu filho mais velho, que havia servido no exército por dois anos, começou a chorar. Foi muito triste para mim porque eu era a mãe mais orgulhosa do mundo que um de meus filhos tinha servido seu país. Como o exército nacional poderia assassinar meu outro filho indefeso?

A partir desse momento, meu trabalho começou. O que mais me motivou foram as palavras do presidente Álvaro Uribe (2002-2010), que os jovens de Soacha tinham intenções criminosas. Então eu peguei a imagem de meu filho e prometi que lutaria por seu limpar seu nome.

Conheci não apenas as três mães que tinham ido comigo para Ocaña, mas outras. Já éramos 8, 12, 16, 19. Foi assim que nasceram as Mães de Soacha.

Meu filho foi sequestrado e morto por membros do exército, que o fizeram passar por um guerrilheiro morto em combate. Os chamados "falsos positivos" se referem a milhares de execuções extrajudiciais de civis inocentes pelas quais os militares obtiveram benefícios econômicos e promoções.

Meu filho foi sequestrado e morto por membros do exército, que o fizeram passar por um guerrilheiro morto em combate

Tive que estudar os direitos humanos durante seis anos para compreender o conflito colombiano. Foi terrível descobrir que em meu país havia mais de 8 milhões de vítimas de desaparecimento forçado, estupro, tortura, sequestro e recrutamento de crianças. Era como se eu tivesse entrado em um mundo desconhecido. Vivi por muitos anos em uma bolha, com uma bela família, marido e filhos. Eu nunca soube que tipo de país era a Colômbia. E quando descobri, aquela bolha estourou e minha vida deu uma volta de 180 graus.

Desde 2008, acreditamos que o presidente ou o promotor nos atenderia, e nunca o fizeram. Mas em 2010, durante as eleições, Uribe se lembrou das Mães de Soacha e nos convidou para a casa presidencial. Eu me recusei a ir. Após 15 dias, Uribe deu 18 milhões de pesos (cerca de 7.800 dólares) para cada uma das mães. Para mim era impossível receber esse dinheiro porque a memória e a dignidade de um filho não estão à venda. Elas não gostaram da minha opinião e me pediram para deixar o grupo.

Em 2010, houve uma onda de ameaças contra todas as famílias. Estavam colocando folhetos embaixo das nossas portas. Meu filho mais velho foi ameaçado por dois anos. Houve até mesmo uma ameaça escrita que dizia "lamento que sua morte seja em vão, mas é a única maneira da sua mãe se calar".

O Ministério Público e o Ministério do Interior não fizeram nada para nos proteger. Conseguimos ajuda internacional. A Anistia Internacional lançou uma campanha dizendo "dê uma rosa, dê esperança às Mães Soacha". Nós recebemos 5.500 rosas e mais de 25.000 mensagens de apoio para continuarmos.

Viajei para a Espanha, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca e Irlanda para falar com grupos da Anistia e denunciar no Parlamento Europeu as ameaças que estávamos recebendo. Foi assim que começou um grupo internacional de vigilantes para a proteção das Mães de Soacha.

Em 2013, vários militares foram condenados entre 35 e 50 anos pelo assassinato do meu filho, mas depois foram acolhidos pela JEP (Jurisdição Especial de Paz, um tribunal de justiça transitório criado pelos acordos de paz de 2016 entre o governo e o grupo guerrilheiro das FARC) e hoje estão livres.

Foi terrível descobrir que em meu país havia mais de 8 milhões de vítimas de desaparecimento forçado, estupro, tortura, sequestro e recrutamento de crianças

Há seis anos venho apoiando outras mães e trabalhando em diferentes regiões onde as pessoas não conhecem seus direitos, dando o pouco que posso. Não posso negar que sou mãe de Soacha, mas falo por uma série de vítimas porque as Mães de Soacha são só a ponta do iceberg.

Em 20 de fevereiro deste ano, fechamos um projeto na região de Magdalena Medio, com 180 famílias de desaparecidos, para ajudar em sua busca. Logo assim que regressei, foi decretada a ordem de confinamento pela Covid-19, em 25 de março.

Meus filhos não estão por perto. Por causa das ameaças, eles foram para diferentes cidades anos atrás: Neiva, Medellín, Villavicencio, e depois para outros lugares. E é melhor assim. Eu trabalho com mais calma sabendo que eles estão seguros. Tenho cinco netos lindos que, infelizmente, não vejo como frequência, como deveria ser.

A quarentena tem sido muito difícil, porque não temos os recursos para sobreviver. Amigos e algumas organizações têm estado muito atentos e me enviam os medicamentos que tenho que tomar para toda a vida.

Estou conectada pelo WhatsApp com muitas pessoas a nível nacional e internacional. Eu gosto de tricotar e bordar, ler e ouvir música.

Estou preocupada com as pessoas mais vulneráveis, as pessoas de rua que não têm um teto ou como se isolar em um lugar limpo. Ninguém se importa com eles. Me sentia muito impotente ao ver que não posso fazer nada por eles. Assim, junto com outras pessoas, surgiu a ideia de fazer máscaras com o logotipo de "Matarife" (uma série documental que denuncia o ex-presidente Uribe) para vender e obter recursos para doar alimentos.

Essa pandemia é mais um teste para a nossa força de seguir em frente e medir a força do nosso coração para ajudar as pessoas mais necessitadas.

[Como contado a Diana Cariboni]

O tribunal Jurisdição Especial de Paz, criada nos acordos de 2016 que encerraram mais de meio século de guerra interna, identificou 4.439 vítimas de execuções apresentadas como mortes em combate por agentes do Estado entre 2002 e 2008 em todo o país. Na Colômbia, o quinto país da América Latina com mais casos de coronavírus, a pandemia tornou-se uma oportunidade para intensificar a violência contra ativistas de direitos humanos e ex-combatentes, de acordo com um relatório da ONU divulgado em julho.

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