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Paulo Paulino Guajajara: defender a Amazônia mesmo que custe a vida

Esta semana, dois homens viraram réus no assassinato do líder Guajajara e defensor da TI Arariboia. O espírito de Paulino será carregado pelos Guardiões da Floresta, nos conta Tainaky Tenetehar, também vítima da emboscada. Español

Manuella Libardi
27 March 2020
Paulo Paulino Guajajara
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Sarah Shenker/Survival International

As barracas estavam armadas e o acampamento montado. As panelas no fogareiro ainda tinham resquícios de ovos, deixando no ar o cheiro de um lugar recentemente habitado.

Mas os madeireiros já haviam fugido. Eles provavelmente foram avisados por olheiros que os Guardiões da Floresta estavam por perto.

Quando Paulo Paulino Guajajara se deparou com a cena, a sua expressão foi de tristeza, seguida de indignação.

“Eu não vou na casa deles, dos não-indígenas, para roubar os recursos deles. Por que eles acham que podem vir aqui roubar as nossas árvores, das quais a gente depende?” Paulino disse.

Paulino, também conhecido por seu nome indígena Kwahu Tenetehar, não via a tarefa de proteger a floresta amazônica da terra indígena Arariboia, no Maranhão, como um trabalho, mas como uma missão, disse Sarah Shenker, investigadora da organização britânica de direitos humanos Survival International que esteve com os Guardiões em suas operações algumas vezes. A última vez que esteve em uma na companhia de Paulino foi em abril do ano passado.

Além dos Guajajara, a TI Arariboia também é casa para os remanescentes de um dos povos mais ameaçados do mundo, os Awá. Um pouco menos de 100 membros da tribo não contactada vivem no coração do território.

As operações dos Guardiões são acompanhadas por dias circulando pela floresta, dormindo no chão, e muito, muito risco. As lideranças Guajajara patrulham o território em busca de madeireiros ilegais, que há décadas invadem a terra protegida em busca de ipê, jatobá, copaíba, cumaru, entre outras árvores. E esses madeireiros estão armados.

“Paulo sempre disse que podiam ser mortos a qualquer momento. Apesar do perigo, eles sabem que se eles não fazem, ninguém vai proteger a Arariboia. É questão de sobrevivência de um povo inteiro”, disse Shenker em conversa por telefone.

Para Paulino, esse dia chegou em 1º de novembro de 2019. Naquela sexta-feira, ele e seu amigo e liderança dos Guardiões da Floresta, Tainaky Tenetehar, estavam caçando na terra indígena no município de Bom Jesus das Selvas, quando um grupo de homens armados os emboscou na mata. Tainaky lembra que o sol estava alto, depois do meio-dia.

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Paulo Paulino Guajajara (centro) e Tainaky Tenetehar (esq.) com os Guardiões da Floresta | Sarah Shenker/Survival International

Tainaky, de 34 anos, lembra de ter visto cinco homens brancos, como os definiu, no momento do ataque. Paulino levou um tiro no pescoço e caiu na hora. Tainaky também levou um tiro mas sobreviveu. Quando os homens se dispersaram, Tainaky puxou o corpo do amigo para perto dele, mas não tinha mais sinal de vida. O conflito também deixou um madeireiro morto, aparentemente vítima um de seus companheiros.

Com um disparo nas costas e no braço, Tainaky caminhou mais de 10 quilômetros até voltar a sua aldeia, onde foi socorrido pelo seu povo antes de ser levado ao Hospital Municipal Imperatriz (Socorrão), a mais de 200 quilômetros de Arariboia.

Hoje, ele carrega uma cicatriz de mais ou menos uns 5 centímetros no antebraço direito, outra um pouco menor acima do cotovelo, e uma circunferência profunda nas costas, alguns centímetros abaixo do pescoço, onde a bala o atingiu.

Os Guardiões denunciam há tempos as ameaças resultantes do conflito entre indígenas e madeireiros. Ameaças tão sérias que as autoridades locais incluíram Paulino em setembro no Programa Estadual de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), mas ele não foi retirado da terra indígena a tempo.

Após seu assassinato, três lideranças que também estavam incluídas no programa, foram retirados da floresta e colocados sob proteção policial em endereços sigilosos, entre eles Tainaky.

Os Guardiões suspenderam temporariamente suas operações desde o assassinato de Paulino. Mas Tainaky diz que não vai parar de defender seu território. O fatal encontro com os madeireiros não vai impedir que ele volte ao trabalho.

“Me deu mais força ainda”, ele me disse. “Apesar de ter morrido muitos parentes nossos, nós temos uma conquista já. (O território) não está totalmente livre, não tá totalmente blindado, mas eu tenho orgulho do que nós estamos fazendo.”

Aos 26 anos, Paulino deixa para trás um filho, uma família e uma comunidade fragilizada pelo que a sua perda representa. O jovem defensor da terra era conhecido por seu sorriso, sua personalidade humilde e vontade de cuidar das pessoas ao seu redor.

As autoridades raramente determinam que esses homicídios estão relacionados ao conflito de terras, e, consequentemente, a conflitos étnicos

Durante a operações que Shenker acompanhou, ela lembra que Paulino fazia questão de mostrar as diferentes formas de sentar no quadriciclo para que ela não ficasse desconfortável.

Paulino ajudou Shenker a fazer dois buracos para os olhos em um gorro preto dela, para que puxasse sobre o rosto em momentos de perigo. Mas o gorro ficou tão bem em Paulino que Shenker lhe deu de presente. No dia que ele morreu, Paulino estava usando esse gorro. A foto que ilustra esse artigo também mostra Paulino com o presente.

Ele também queria ensinar palavras em sua língua nativa, usando a mata para dar exemplos de palavras. Para Paulino, não havia nada mais especial que as riquezas daquele território.

“Era uma pessoa alegre que queria só viver em paz. Não queria dinheiro, nem nada muito complicado. Queria viver em paz na floresta com a sua família”, Shenker disse.

Os Guajajara continuam esperando resolução ao ataque a Paulino. Nesta semana, dois acusados de matar Paulino e o madeireiro Márcio Gleik Moreira Pereira viraram réus quando a Polícia Federal do Maranhão aceitou a denúncia do MPF contra eles. Antônio Wesley e Raimundo Nonato foram indicados por homicídio doloso, quando existe a intenção de matar, e por porte ilegal de arma de arma de fogo e caça ilegal.

A situação no Brasil

Paulino é o quarto Guardião a ser assassinado. Segundo a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), 13 indígenas foram mortos como consequência do conflito com madeireiros no estado, entre 2016 e novembro de 2019. Em nenhum dos casos os responsáveis foram punidos, segundo a organização. Em 10 anos, foram 35.

O número de lideranças indígenas mortas no Brasil em 2019 foi a maior em 11 anos.

Mas as autoridades raramente determinam que esses homicídios estão relacionados ao conflito de terras, e, consequentemente, a conflitos étnicos.

“Nós nascemos guerreiros. Não vamos ver ninguém destruindo nosso povo, nossa terra,” diz Tainaky

No caso de Paulino, as investigações concluíram que sua morte não teve relação ao seu trabalho como defensor do território. Também concluíram que não existe evidência de um conflito étnico.

Segundo a polícia, o homicídio foi motivado por furto, crime pelo qual Tainaky foi indiciado. Essa acusação existe porque Paulino e Tainaky haviam danificado algumas motos dos madeireiros, algo que os Guardiões fazem para impedir que eles continuem derrubando árvores ilegalmente.

O Defensor Público da União, Yuri Costa, que atua na defesa de Tainaky, disse em janeiro que a conclusão das autoridades policiais “descontextualiza tudo o que envolve um conflito histórico naquela região entre indígenas e não-indígenas”.

Paulino foi o quarto Guardião a ser morto. Os Guardiões da Floresta, inclusive, surgem nesse cenário. Em outubro de 2007, um grupo de aproximadamente 10 madeireiros invadiu a TI Arariboia e mataram duas pessoas, um cacique Guajajara e um não-indígena. O ataque aconteceu depois que indígenas apreenderam um caminhão usado na exploração ilegal de madeira.

O cacique Tomé Guajajara também armado, confrontou os invasores. Ele morreu na troca de tiros, assim como o madeireiro Josevan da Costa Gomes. Após a sua morte, os homens da aldeia formalizam o grupo de defesa do território indígena Arariboia.

“Nós nascemos guerreiros. Não vamos ver ninguém destruindo nosso povo, nossa terra,” disse Tainaky.

Os Guajajara julgam que o risco que sofrem é maior desde a eleição do presidente Jair Bolsonaro. Em nota divulgada pela Survival International quando Paulino foi assassinado, os Guardiões disseram que a luta deles terá que ser mais forte nesses anos.

“Não podemos desistir porque temos muita luta pela frente. O governo se declarou nosso inimigo. O Presidente Bolsonaro falou que não vai proteger as terras indígenas. Ele e outros estão querendo o agronegócio na nossa terra. Não aceitamos isso.”

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