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Bolivia: Quantas mais mulheres têm que morrer para que mudemos?

A nossa sociedade encontra-se num ponto crucial: mudar e deixar de lado os nossos nocivos costumes, ou fazer de Andrea uma vítima mais e um dado estatístico do feminicidio. English.

Jorge Roberto Marquez Meruvia
9 September 2015
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Lembram-se da Sophia Calvo Aponte? Possivelmente a resposta seja que não. Seguramente os seus familiares sejam aqueles que sim a recordam e mantenham viva a sua memória. Foi Sophia quem em agosto de 2014 reuniu aproximadamente 4000 pessoas no átrio da catedral da basílica de San Lorenzo exigindo paz. Sophia Calvo Aponte é uma vítima mais da violência e do feminicidio na Bolívia. A sua perda convocou em Santa Cruz da Serra uma grande mobilização por parte da sociedade civil e dos meios de comunicação, que poucos meses depois foi esquecida, junto com outras muitas mulheres que passam por esta via crucis. Para os meios de comunicação muitas destas mulheres deixam de ser pessoas e convertem-se em simples estatísticas nas unidades policiais da luta contra a violência, parafraseando a Galeano: “mulheres que não figuram na história universal, senão na crónica vermelha da imprensa local”.

Desgraçadamente, Andrea Aramayo Álvarez é mais uma vitima de uma sociedade que não se quer questionar a si mesma, um mulher mais à qual lhe foi retirada a vida. La Paz é a cidade que agora se veste de luto e indignação. Andrea, Sophia e quiçá uma longa lista de mulheres que dentro de uns dias verão os seus sonhos serem ceifados por algum “macho”, que sem pensar nas consequências dos seus atos, provavelmente goze de impunidade dentro do sistema judicial boliviano que é não só lento como também suscetível de ser comprado pela melhor oferta. Os agressores, os assassinos, aqueles que seguem soltos e que não se imutam pelos seus atos, passeiam pela rua como se nada passasse. O caso de Andrea, mostra-nos que não importa o estrato social do agressor e põem à vista o comportamento de determinadas elites sociais.

William Kushner Dávalos, supostamente membro de uma família pacenha de cómoda posição económica, foi o autor da brutal morte de Andrea. Provavelmente a sua forma de proceder surpreendeu grande parte da população já que forma parte das poucas famílias de elite da sociedade boliviana; no entanto já em 1930 Carlos Medinaceli sustentou que os que se definem como a classe alta boliviana estão “desaristocratizados”, caracterizando-se unicamente pelo “amor ao luxo, à comida e à vaidade da aldeia [1]. Também H. C. F. Mansilla menciona: “…as nossas elites, cujos membros representam com frequência iletrados enriquecidos subitamente, vaidosos sem refinamento, torpes sem clemência, seres aos quais literalmente a riqueza se lhes subiu à cabeça para jamais voltar a descer. Basta com ver o desprezo com o qual tratam os seus subordinados, como são temidos pelas suas secretarias e como se humilham perante os mais poderosos [2].

A nossa sociedade encontra-se num ponto crucial: mudar e deixar de lado os nossos nocivos costumes, ou fazer de Andrea uma vítima mais e um dado estatístico do feminicidio.

[1] Carlos Medinaceli, Carta a José Enrique Viaña, La Paz, 10 de Dezembro de 1930.

[2] H.C.F. Mansilla, El carácter conservador de la nación boliviana, Editorial El País, 2da. Edición, 2010

Este artigo foi publicado por primeira vez em Asuntos del Sur.

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