democraciaAbierta

Sâmia Bomfim: o futuro da esquerda está nas mãos de mulheres jovens

Em entrevista, a jovem deputada federal do PSOL discute o crescimento da esquerda no Brasil, o papel das mulheres e outras minorias na política, os ataques à educação, e os impactos de um possível retorno de Lula à cena política.

Francisco Cabral
4 September 2019
Sâmia Bomfim em ato em defesa do Hospital Universitário da USP, Março, 2018.
|
Sâmia Bomfim/Flickr/CC BY 2.0. Alguns direitos reservados.

Sâmia Bomfim é uma candidata jovem, oriunda do movimento estudantil, que tem estado muito ativa nas últimas movimentações da juventude. Foi a segunda parlamentar mais votada do PSOL nas últimas eleições, atrás apenas de Marcelo Freixo (RJ).

Sâmia, que fez 30 anos no mês passado, em poucos anos passou de liderança estudantil a vereadora, e nas últimas eleições se elegeu como deputada, conquistando a segunda maior votação da história de seu partido.

Uma deputada que nasceu do movimento estudantil e das lutas feministas, ela faz um mandato, que, como ela gosta de dizer, tem um pé na rua e permanece em contato constante com as lutas populares e mobilizações, principalmente quando relativas a pautas sensíveis às mulheres, minorias e juventudes.

Na conversa, ela discute o crescimento da esquerda no Brasil, o papel das mulheres e outras minorias na nova política, assim com o questão geracional e as mudanças que estão chegando com os jovens. Além disso, Sâmia fala também dos ataques à educação, e os impactos de um possível retorno de Lula à cena política à luz dos grampos revelados pelo The Intercept.

Nota: Esta entrevista foi editada e condensada pelo openDemocracy Brasil.

Francisco Cabral: Como você vê esse cenário nacional? Fala-se muito do crescimento da direita no mundo, mas a esquerda também cresceu, o partido que mais perdeu nas eleições foi o PSDB.

Sâmia Bomfim: Tanto cresceu que o PSOL que, no Congresso, é o partido mais à esquerda, dobrou a bancada. E dobrou com uma renovação interessante. Um perfil de mulheres jovens, que eram vereadoras nas suas cidades e que foram eleitas a partir desse fenômeno de pautas radicais de esquerda, não só as pautas identitárias, mas também uma postura radical no parlamento.

De certa forma uma antipolítica, só que à esquerda, uma espécie de antítese do que é o Bolsonaro. Esse é um fenômeno em todos os lugares do mundo. Nos Estados Unidos, tem o Trump, um governo conservador, bizarro em muitos aspectos, mas o motor social de oposição a ele também é de mulheres.

Tanto que depois das eleições que teve para Câmara, fenômenos como a Ocasio-Cortez e depois outras mulheres muçulmanas, indígenas, etc. também ascenderam ao poder. Eu acho que é uma tendência de uma renovação nos dois polos da política, à esquerda e à direita, e mais radicalizadas também, com novos atores e atrizes dessa cena.

Eu acho que tem alguns temas que nos fazem ser flexíveis na prática e na composição. Então, por mais que seja um governo muito reacionário, a agenda econômica é aquela que qualquer outro governo à direita teria. Talvez não tivesse tanta força porque o momento da crise era outro ou porque não era tão reacionário, tão desavergonhado, em descer o ajuste na população.

Quem determina [a política] ainda são aqueles que estão lá há décadas

Eu acho que mesmo a esquerda, por mais que a gente tenha bastante destaque – eu digo a gente porque não sou só eu, tem outras deputadas com o perfil parecido – a gente tem um desafio que é conseguir ser uma política gente grande, ser respeitada, ser ouvida, também ser articuladora, ser identificada não só com pautas identitárias, mas com a grande política também. Não é um desafio fácil porque esse espaço já é muito dominado pela política tradicional. Então por mais que tenha uma renovação à esquerda é a direita quem determina a política; quem determina ela ainda são aqueles que estão lá há décadas. Esse é o mais difícil, furar esse bloqueio.

FC: Essa radicalização dos dois lados põe em risco a democracia ou as instituições conseguem sobreviver a esse contexto?

SB: Eu acho que é um caminho um pouco inevitável, tendo em vista o nível de crise política que o Brasil chegou e a etapa histórica, eu chamaria de talvez o fim da República e o início de um novo regime que ainda está se desenhando. Resta saber a capacidade do Bolsonaro de levar ele até às últimas consequências e a nossa capacidade de resposta e resistência também.

Eu sei que, por exemplo, os direitos sociais estabelecidos pela Constituição, que são o marco da nova República, estão desmoronando. A Previdência está se desmontando, a educação pública está se desmontando, a saúde está em curso também.

Não necessariamente é um risco à democracia, mas é um risco ao regime político democrático burguês brasileiro, eu diria assim. É uma nova etapa. Está em curso, então é difícil de avaliar.

FC: A gente está vendo uma mobilização na educação. Você acha que essa luta tem potencial de se massificar?

SB: Olha, eu fiquei muito empolgada com o que eu vi na rua porque foram 15 dias de manifestações com milhões de pessoas, isso é muito difícil de ser feito e manifestações enraizadas, unificadas de escola e de universidade.

Claro que a UNE teve um papel muito importante no dia 30, foi ela quem marcou, convocou, chamou. Mas teve um processo de auto-organização gigantesco nas escolas, que me lembra muito do que aconteceu nas ocupações das escolas secundaristas.

Boa parte, inclusive, dessas novas lideranças da Universidade, novas lideranças políticas, também se formou nesse processo de ocupação das escolas (2015 para agora). Se você pensar que o perfil da Universidade Federal hoje é classe C e D, é essa molecada. Ontem era uma molecada e agora é universitária e tem outros métodos de luta, mais horizontal. Inclusive, questionando o papel das direções tradicionais.

São novas lideranças da política brasileira que vão se desenvolver e vão estar inseridas em muitas lutas contra o Bolsonaro

São novas lideranças da política brasileira que vão se desenvolver e vão estar inseridas em muitas lutas contra o Bolsonaro em muitas áreas.

A gente tem um avanço de consciência significativo entre esses jovens. Não necessariamente todas as lutas vão ter a amplitude que teve a educação, porque a pauta da educação tem essa característica de envolver a comunidade, professores, envolver gente que não é politizada, mas que vai porque é muito concreto.

Mas que tem uma nova vanguarda é inevitável, que é muito anti-Bolsonaro.

FC: Você acha que essa geração que está vindo tem uma leitura um pouco diferente das que estavam antes? Isso explica a radicalização?

SB: Eu acho, acho que é mais libertária em algum aspecto. O método político é diferente, é mais horizontal e mais radicalizado, tende a ser mais convocado para a luta com facilidade. Do ponto de vista dos costumes, eu vejo muitas meninas. Na época que eu estava no movimento estudantil as meninas não eram tão linha-de-frente. Agora são todas muito jovens, todas feministas liderando, puxando palavras de ordem e tudo mais. Isso é muito significativo. É uma recomposição social da vanguarda de esquerda, pelo menos aqui em São Paulo. Não tenho o panorama nacional, mas pelo que eu vi nessas duas manifestações no caminhão de som, todas as lideranças de coletivos mil e faculdades, eram meninas jovens de 19 a 22 anos, super-radicalizadas, anti-Bolsonaro, querendo incendiar.

FC: Você acha que a esquerda tradicional está preparada para absorver isso?

SB: Eu acho que não. Eu acho interessante que nessas duas manifestações tinham algumas lideranças sindicais, o que eu acho importante porque são as direções convivendo e não tem um apartidarismo, o que poderia ser uma tendência, a exemplo do que aconteceu em junho de 2013, que era anti-partido, “fora todos”.

Mas você vê que é muito deslocado. Eu via o esforço de alguns sindicalistas, “Ah, essa juventude, muito bacana!”, mas você vê que não tem muito mais conexão. Eu acho que é um processo inevitável mesmo uma nova geração feminilizada tomar conta do espaço político, porque está acontecendo já.

Não à toa, também, que a ampliação da bancada do PSOL foi a partir desse perfil. Ainda que essas meninas nas ruas sejam muito mais radicais e avançadas do que eu, porque eu sou de uma geração anterior. Vou fazer 30 anos, elas têm 10 anos a menos do que eu. É bem diferente, é um reflexo disso. Você está aumentando o número de lideranças femininas e jovens. Essa é a renovação.

FC: Você acha que isso é o que motiva um pouco a ala Damares no governo? Essa percepção de que as mulheres viraram um perigo?

SB: Eu acho que eles se organizam com o anti-feminismo; tem deputados que se elegem com isso. Tem um deputado do RJ, aquele que quebrou a placa da Marielle junto com o Witzel, que foi um dos mais votados do RJ. Ele é aquilo o tempo inteiro, truculento, autoritário. Principalmente com a Talíria (Petrone), ele é muito grosso, que é uma mulher negra, do RJ, símbolo da herança política da Marielle.

Mulheres jovens, rebeldes, contra governos autoritários de homens brancos é uma tendência mundial

Não é só aqui no Brasil, se você for observar essa é a tendência mundial. Mulheres jovens, rebeldes, contra governos autoritários de homens brancos. Tem uma discussão que eu vejo vários partidos de esquerda fazendo dessa recomposição social. Está acontecendo no Brasil também, por isso que eles vão para cima.

FC: O bolsonarismo tem uma questão com os professores porque ele é anti-intelectual, com as mulheres pela afronta ao status quo e os LGBTs, por que essa perseguição, quase uma obsessão?

SB: Olha, são muitas explicações. Mas eu acho que o elemento família tradicional é muito constitutivo desse projeto de sociedade que eles têm. E uma família LGBT é outra proposta, não tem a lógica da reprodução imediata, só através da adoção é possível constituir pai e pai, mãe e mãe e filhos, porque contradiz a interpretação hegemônica que se faz da bíblia ou dos ensinamentos de Jesus e de Deus. Acho que é devido ao elemento da religião e porque os pastores que apoiaram o Bolsonaro, as igrejas, eles têm a pauta fundamentalista, anti-LGBT muito forte. Isso mesmo antes do governo Bolsonaro. Feliciano virou uma figura grande em função disso e tantos outros. Eles são uma base de sustentação grande do governo Bolsonaro, fizeram campanha, garantiram voto, então acho que tem um cálculo pragmático aí.

FC: Os vazamentos dos áudios publicados pelo The Intercept aumentam a possibilidade de que o Lula saia da cadeia elegível. Qual o impacto disso para a política nacional?

SB: Seria uma reviravolta muito grande na política, porque tudo caminhou para tirá-lo do processo eleitoral. Acho que o povo está fazendo uma experiência - ainda curta - com o governo Bolsonaro e muitos de seus eleitores já estão insatisfeitos com o que ele está fazendo. Não necessariamente isso se reverteria numa possível eleição do Lula, num cenário extremo, porque eu acho também que tem uma burguesia brasileira que se organiza para ter novas figuras e não aceitar um político que depois que saiu da presidência, flertou com a esquerda, até para ter um respaldo popular gigantesco.

Acho que ele sairia moralizado, se tornaria novamente uma grande figura, maior do que entrou na cadeia, seria talvez um novo respiro do PT. Porque existem duas grandes críticas ao PT, que estão juntas na verdade. Primeiro uma traição do ponto de vista da política, de classe, de ter trabalhado para elite e não só para o povo. Outra é uma discussão moral, que carrega escândalo de corrupção, mensalão e tudo mais. Esse elemento moral daria uma sobrevida para o PT, porque diriam que na verdade quem não tem moral são esses caras que prenderam o Lula. Mas acho que o elemento da política segue, por isso que segue o espaço à esquerda também.

FC: E qual impacto que essas novas informações poderiam ter para a esquerda? Independente de o Lula sair, os áudios em si.

SB: Acho que é uma tomada de posição, talvez uma politização até de alguns partidos. Por exemplo, dentro do PSOL, eu consigo imaginar os impactos disso. Afinal de contas o PSOL nasceu por quê? Qual a grande diferença, qual é a separação? Talvez ele tenha ficado mais forte na época do mensalão. Veio muita gente, porque chegou ao limite.

Mas o PSOL nasceu quando o Lula fez a Reforma da Previdência, uma história nossa que a gente esquece de resgatar. Naquele momento os que continuaram mais à esquerda se abstiveram, pela dificuldade de votar numa traição contra um setor de trabalhadores.

Acho que tem a ver com uma necessidade de politização da esquerda de maneira geral, de entender as diferenças, o que é um projeto socialista ou não. Talvez crie realmente um espaço para o socialismo no Brasil.

FC: Você acha que isso poderia, de certa forma, abafar essa renovação que a gente estava falando?

SB: É um risco, porque, por exemplo, o PSOL é um partido muito diverso, com muitas correntes e leituras diferentes (e independentes também) sobre o que é a esquerda, sobre o que é o PT, sobre o que é o socialismo. Talvez muitos deles se re-localizassem.

É inevitável o crescimento dessa renovação à esquerda

Mas eu acho que é inevitável o crescimento dessa renovação à esquerda - por mais que o espaço do PT volte a crescer - esse espaço do radical, horizontal, do feminismo. A direção do PT é incapaz de aprender.

FC: Sobre o tema da Lava-Jato. O PSOL passou incólume por todos os escândalos, mas a operação gerou polêmica dentro do partido. Como é que fica a postura do PSOL perante a Lava-Jato?

SB: Olha, eu acho que se assentaram as diferenças em relação a isso. Na disputa partidária, claro, essas divergências sempre aparecem, mas ela já esteve mais presente quando a operação começou. Porque é parte do DNA do partido a pauta da ética, contra a corrupção, o partido cresceu mais na época do Mensalão, quando vieram deputados que disseram "não dá mais para ficar nesse lugar, não, vamos para o PSOL".

Eu acho que ficou mais intensa a disputa interna de leitura sobre a Lava-Jato nas proximidades da prisão do Lula, porque então se a Lava-Jato é um processo que precisa acontecer, então a prisão do Lula é uma consequência disso. Mas acho que foram decantando um pouco as diferenças porque - talvez seja uma leitura inocente, não sei - ela começou de um jeito e terminou de outro. Se ela começou como elemento promissor de limpar a política, ela acabou como algo instrumentalizado por alguns setores com muito dinheiro, por pessoas interessadas em atacar mais o PT do que outras legendas. Conforme isso foi ficando mais evidente, acho que dentro do PSOL as diferenças diminuíram também.

Por exemplo, todas as correntes, com exceção de uma ou duas, na época da prisão do Lula soltaram notas semelhantes, dizendo "olha, manipularam, porque aceleraram julgamento, porque ele está em primeiro na campanha". Grupos muito minoritários fizeram uma leitura diferente. Alguns ainda sustentam que teve impactos positivos a Lava-Jato, não foi tudo lixo. Prendeu o Cunha. O Temer. São as contradições. Na verdade, são as contradições da justiça brasileira, que é dominada por interesses. A Lava-Jato mostrou bem isso.

Unete a nuestro boletín ¿Qué pasa con la democracia, la participación y derechos humanos en Latinoamérica? Entérate a través de nuestro boletín semanal. Suscríbeme al boletín.

Comentários

Aceitamos comentários, por favor consulte ás orientações para comentários de openDemocracy
Audio available Bookmark Check Language Close Comments Download Facebook Link Email Newsletter Newsletter Play Print Share Twitter Youtube Search Instagram