democraciaAbierta

Susana Ochoa


Avina DemocraciaAbierta
14 September 2017

Inspirando-se no evento "Cidades sem medo" ("Fearless Cities") deste ano, a Fundación Avina e o Democracia Abierta estabeleceram uma colaboração especial para explorar algumas das experiências políticas mais interessantes que estão emergendo na América Latina.

Concersar com líderes relevantes neste campo, diretamente envolvidos na ação da inovação política a nível local, nos deu a oportunidade de buscar respostas para quatro questões principais que afetam de forma diferente, porém transversal, todos esses projetos: a) Visão de inovação; b) contexto político nacional e limitações do poder local; c) Influência do contexto político internacional e d) A questão da liderança.

Nesta página, Susana Ochoa aborda essas questões. Susana é coordenadora de comunicação da Wikipolítica e do deputado Pedro Kumamoto no Congresso de Jalisco, no México.

TEMA 1: VISÃO DA INOVACÃO

Eu acredito que a inovação é o resultado de uma necessidade de encontrar respostas para problemas para quais obviamente não temos resposta. Há muita conversa sobre inovação, mas quando você faz campanha, não pode falar sobre inovação. Você não pode, por exemplo, mencionar em seu discurso a palavra "experimentar".

Nós a usamos uma vez na campanha, em dois eventos eleitorais, e a mãe de uma das pessoas com quem fazíamos campanha nos disse: "Não usem essa palavra, as pessoas não querem saber que você vai experimentar e menos com o dinheiro público. Claro que você tem que comunicar que você está inovando e que está experimentando na campanha, mas sem usar palavras como experimentar ".

Eu também acredito que, em questões de inovação política, se pensa automaticamente no uso de aplicativos ou de tecnologia, mas muitas vezes descobrimos que um aplicativo não resolve o problema da participação cidadã. No final, pode ser um aplicativo perfeito, mas se as pessoas não usam, é obsoleta. Consequentemente, acredito que a inovação não tem necessariamente a ver com a tecnologia, mas sim com as diferentes maneiras criativas que se pode usar para ser disruptivo. Mas não só ser disruptivo por ser disruptivo – porque qualquer um pode fazer coisas loucas – mas, na verdade, fazer coisas que fazem sentido para as pessoas, para que possam dizer "eu também poderia ter pensado nisso". São coisas de senso comum, um sentido que eu acho que falta a classe política.

 

TEMA 2: CONTEXTO POLÍTICO NACIONAL E LIMITAÇÕES DO PODER LOCAL

Há uma maneira fundamental de ver as questões locais, o que até melhora a maneira como vemos o poder nacional. Vou dar um exemplo. Um dia, um acadêmico de Guadalajara estava apresentando um projeto sobre a sociedade civil, e ele colocou uma foto de um monstro muito grande, e disse que assim eram os problemas que o nosso país enfrenta. E ele começou a ampliar a imagem, e ela começou a pixelar, então este monstro já não era mais ameaçador, porque você já podia ver seus defeitos. Então, acho que é assim que temos que analisar a questão do poder.

Eu não acho que o poder deve ser eliminado, já que o poder é a forma que permite que você faça as coisas. Mas acredito que devemos repensar a forma como a descentralizamos. Isso tem a ver com práticas como, por exemplo, a de Pedro Kumamoto. Sendo uma figura tão visível como ele é, sendo um líder moral até mesmo a nível nacional, o seu primeiro contrapeso acontece no seu escritório. Eu acho que muitos políticos foram cercados por pessoas que constantemente lhes dizem que tudo vai ficar bem, e que eles são os melhores, e acho que é muito fácil para essa classe política perder o chão. É sobre como se descentraliza o poder, e isso tem a ver com a forma de gerar pesos e contrapesos dentro de uma organização.

Já a nível nacional é mais complicado. Mas se você pensa nisso dentro da sua organização, dentro de sua equipe, você pode pouco a pouco ir extrapolando.

Em qualquer caso, temos que começar pelo micro, pela reflexão pessoal que cada pessoa política no poder faz, e por que ele quer fazer as coisas, como ele está gerando mais instituições. Eu acho que isso é importante. Acreditamos que isso deve ser a aposta: como gerar instituição e não me refiro a como começamos a Wikipolitics, que era como um grupo de amigos e amigos que tinham coisas em comum. Mas percebemos que você não pode criar um movimento político baseado nisso, em amizades recíprocas e emocionais, porque você se torna um grupo fascista. Então, você precisa criar regras claras e transparentes que permitem controlar o poder.

 

TEMA 3: IMPACTO DO CONTEXTO POLÍTICO INTERNACIONAL

O que acontece nos Estados Unidos tem um efeito imediato no México. Mas acho que o principal problema com o Trump é que ele diz muitas verdades. Ele diz, e é verdade, que existem muitos meios de comunicação que enganam as pessoas, e que o sistema não está funcionando, e isso é verdade. Digamos que ele se refere a verdades comuns, mas daí ele propõe soluções extremas e atrozes, e acho que esse é o principal problema.

No México, temos o PRI, que esteve muito tempo no poder e durante muito tempo exerceu o poder de forma muito autoritária, mas ao mesmo tempo existiram alguns progressos no país por alguns anos. Consequentemente, especialmente para a geração de pessoas com mais de 50 ou 60 anos, essa ideia de que é preciso uma “mão dura” – a mano dura – tem força, que isso faz com que as leis sejam cumpridas. Porque, em um país como o México, a impunidade é uma questão brutal: praticamente não existe nenhuma garantia de acesso à justiça, que é a única coisa que uma pessoa comum tem para se defender contra qualquer coisa. O resultado é que a justiça não existe no México. E então, é muito fácil construir essa ideia de que uma mão dura pode devolver a justiça.

O que realmente nos preocupa no México é a violação sistemática dos direitos humanos. Primeiro, porque a questão dos direitos humanos não é algo que esteja na agenda dos cidadãos comuns: as pessoas não sabem quais são os direitos humanos. Eles não sabem que eles têm. Desta forma estão em perigo, porque as pessoas comuns não as abraçam, porque elas não as conhecem.

Vou contar uma anedota muito representativa do que acontece no México em matéria de direitos humanos. Eu marquei uma reunião com os vizinhos e vizinhas da colônia onde moro porque mataram uma pessoa na frente da minha casa, e é uma zona central. Fiquei impressionada com o número de pessoas que vão à faculdade e não passam nenhuma necessidade que disseram que tinham que fazer o que se faz em Cingapura, que é aplicar a pena de morte, porque é o único que funcionou para elas. Isso me preocupou muito. As pessoas estão muito assustadas, querem viver seguras e acreditam que viver seguro significa ter soldados nas ruas, significa poder deter cidadão sem garantias, espioná-lo. Essas são as coisas que me preocupam.

 

TEMA 4: A QUESTÃO DA LIDERANÇA

A questão da liderança tem sido objeto de muita reflexão na Wikipolitics, porque acredito que, durante muito tempo, fetichizamos a horizontalidade. Agora sabemos que a horizontalidade é uma aspiração, mas que estamos definitivamente longe. Nós podemos até transitar pelo território, descentralizar um pouco o poder. Na campanha, por exemplo, Pedro Kumamoto sempre fazia referência a “nós”, e sempre foi muito explícito que havia um time por trás.

Mas a liderança compartilhada é difícil, porque as pessoas estão acostumadas a delegar as mudanças, elas acham que virá uma pessoa para salvá-las. Isso é o que Lopez Obrador representa, por exemplo. Na história mexicana, quase sempre tivemos muitos salvadores. Mas estamos no meio do debate da horizontalidade, da coletividade, que definitivamente é uma maneira de avançar na política: não há retorno.

Mas, no fim das contas, as pessoas quando vão às urnas votar, votam em uma pessoa, um líder que representa as coisas. E esse líder está cercado de pessoas. A pessoa que vai liderar a lista também é parte de uma equipe, mas no final, é a pessoa que dá as entrevistas, é essa pessoa que sai e fala com as pessoas, é o nome dessa pessoa que aparece nas urnas eleitorais. O desafio é construir novas lideranças, reinventá-las e torná-las mais coletivas, mas definitivamente não podemos fazer políticas sem líderes. E isso nos custou entender, tivemos que trabalhar ... mas fizemos a paz nesse sentido.

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