democraciaAbierta

Áurea Carolina de Freitas e Silva

Avina DemocraciaAbierta
14 September 2017

Inspirando-se no evento "Cidades sem medo" ("Fearless Cities") deste ano, a Fundación Avina e o Democracia Abierta estabeleceram uma colaboração especial para explorar algumas das experiências políticas mais interessantes que estão emergendo na América Latina.

Concersar com líderes relevantes neste campo, diretamente envolvidos na ação da inovação política a nível local, nos deu a oportunidade de buscar respostas para quatro questões principais que afetam de forma diferente, porém transversal, todos esses projetos: a) Visão de inovação; b) contexto político nacional e limitações do poder local; c) Influência do contexto político internacional e d) A questão da liderança.

Nesta página, Áurea Carolina de Freitas e Silva aborda essas questões. Áurea é cientista política brasileira, educadora popular e ativista de movimentos feministas, negros, juvenis e cidadãos. Ele pertence ao PSOL e é vereadora na cidade de Bello Horizonte por esse partido. Áurea participou de uma série de entrevistas sobre inovação política realizadas pela demoAbierta em colaboração com a Fundação Avina.

TEMA 1: TEMA DA INOVAÇÃO

Eu acredito que, ao invés de pura inovação, se trata mais de uma mistura de ruptura e inovação. Procuramos deixar as práticas de uma política desatualizada, como continuam sendo o clientelismo ou hierarquia, toda essa política que não serve à emancipação das pessoas. Porque as pessoas hoje não são agentes da construção democrática. Nós tentamos acabar com isso. Isso é crucial para esta outra política pela qual estamos lutando seja possível. Penso que a inovação tenta mudar o aspecto da política e que a política não precisa ser reduzida a um jogo de competição eleitoral.

Acreditamos que a política pode ser um espaço de convivência; deve ser democrática, integrando a possibilidade de que nossas diferenças sirvam para tornar-nos cidadãs cheias. Se a política se tornar em um negócio de igual para igual, mesmo que sejamos muito diferentes, aí estamos inovamos e produzindo processos de cooperação, colaboração, experimentação. Para inovar, devemos mudar não apenas as práticas, mas também as pessoas que estão na vanguarda das políticas e dos processos. O perfil das pessoas mais visíveis é importante. Temos que ter mulheres, mulheres negras, indígenas, pessoas LGBT, pessoas que não são percebidas como agentes convencionais da política.

O conteúdo da política também deve ser alterado. É importante perguntar honestamente quais são as nossas necessidades mais importantes. É por isso que uma política feminista é essencial, porque é uma política que coloca a vida comum como uma prioridade. Prioriza o cuidado de todas as criaturas no espaço comum. A vida com qualidade que buscamos depende do conteúdo que associamos a essas novas práticas.

 

TEMA 2: CONTEXTO POLÍTICO NACIONAL E LIMITAÇÕES DO PODER LOCAL

A política global de dependência, de dominação, também está em nossas práticas menores, na colonização mental. Os valores que temos refletem um sistema muito maior, que existe apenas porque é baseado no comportamento das pessoas. Não estou dizendo que, se a pessoa mudar o comportamento, muda o sistema completamente. Mas é impossível mudar o sistema se não mudarmos o que está mais próximo. Para isso, o municipalismo é a dimensão mais importante: tem um grande impacto se mudarmos aqui, começando pelo bairro, por um grupo cultural, por uma rede de criação de ocupação do espaço público, pelo governo municipal, por uma escola, pela nossa maneira de coexistir, e isso está ganhando escala

Mas, para ganhar escala, deve ser algo muito forte desde o início, da convicção das pessoas em suas próprias forças. Assim, existe um quadro de compromisso ético que a política municipal tem que divulgar. E a política nacional não pode mudar se não construímos outra ideia de liderança, personalidades potentes, de autonomia, de autogestão, de corresponsabilidade, sobre tudo o que é compartilhado pelas pessoas. Mas agora, no Brasil e em muitos lugares, ainda temos uma imensa dificuldade em olhar para a classe política e ver pessoas que podem representar esses anseios dos processos locais comuns.

Na minha opinião, ainda vamos viver uma fase muito negativa. Novas práticas estão emergindo, é verdade, mas a nível nacional ou transnacional, ainda estamos sujeitas ao pior tipo de política. Para não nos desencorajar, temos que criar nossas redes nacionais e transnacionais também. É por isso que este encontro municipal (Ciudades sin Miedo) é um ar que respiramos juntos: compartilhamos muitas ideias, nos identificamos umas com as outras. Mas nas cidades, nossas experiências também não são hegemônicas. Nossas pequenas experiências municipalistas ainda são muito pontuais. Sou vereadora em Belo Horizonte, com outra companheira, Cida Falabella. Somos duas entre 39 vereadores, no total 41. Somos uma minoria muito pequena e não podemos neutralizar tanta força sozinhas.

A nível local, o fenômeno do prefeito de Belo Horizonte, o empresário Alexandre Kalil, que ganhou as últimas eleições, é preocupante. Ele ganhou com o lema: "basta de políticos". Como se ele não fosse político! E todo o dia ele continua repetindo que ele não é um político, e sua equipe também. Mas isso cria confusão entre a população. Não entre toda a população, obviamente, porque as pessoas têm um sentido crítico. Mas ele ganhou com esse discurso, e é isso que é preocupante.

E com essa mesma ideia, o prefeito de São Paulo, João Doria, também não é um político de profissão, mas um empresário. E o do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, é gerente, religioso e engenheiro. E há muitos outros assim. Há um discurso muito perigoso que está alimentando cada vez mais a ideia de que a política é inútil, que a política é ruim. É corrupta, é uma coisa que temos de nos afastar, e muitas pessoas seguem acreditam. Infelizmente.

Na nossa campanha, tentamos dizer às pessoas: ei, a política é bonita. É possível fazer política de outra maneira. A política é algo que nos emancipará. E a política é uma aventura de descobrir quem somos neste mundo. Que o melhor que temos em nós pode ser extraído da nossa generosidade humana. E, bem, é muito difícil porque as pessoas dizem: "Sim, claro, claro", mas elas simplesmente não conseguem acreditar. Embora outras vezes as pessoas digam: sim, o que precisamos é acreditar que ainda faz sentido apostar na política.

 

TEMA 3: CONTEXTO POLÍTICO INTERNACIONAL

Observamos com preocupação o surgimento de fenômenos como o Trump, com esse discurso que vem com a extrema direita, não apenas da direita mais extrema, mas também por parte da direita mais soft, uma direita "inofensiva", uma direita muito inteligente, que diz que sabe como administrar o estado. Contra isso, temos que contrastar nossas narrativas, não apenas com o imaginário, mas com a prática política. Temos que ensinar às pessoas que somos capazes de fazer com que a democracia valha a pena. Somente assim seremos capazes de contrariar os ventos ameaçadores que nos chegam de dentro e de fora.

 

TEMA 4: A QUESTÃO DA LIDERANÇA

As novas lideranças são constituídas por equipes de pessoas poderosas. Eles são pessoas muito corajosas, que gostam muito da democracia, da comunidade. E devemos incentivar o surgimento de outros líderes, outras pessoas envolvidas, que sejam postas em uma situação de compromisso. Esses líderes agora não são destinados a prover pessoas que vão salvar a humanidade, como a esquerda tradicional frequentemente fez. "Precisamos de um homem que...". Esses homens não existem, não podem existir. A liderança não pode ser baseada no poder das pessoas, porque isso custa muito. Custa saúde, custa tempo, custa energia, emoção e devemos proteger as pessoas envolvidas que dedicam suas vidas a esses processos.

Penso que estamos trabalhando com outra forma de liderar, que não é para competir, nem para obter vantagens, privilégios. É mais uma liderança para prestar serviços. Muitas vezes pode parecer uma idealização, como dizer: "Agora são todos muito santos, dando tudo o que têm". Mas se você não se comprometer com valores, então é muito difícil. Esta é uma mudança ética, sim. Uma mudança ética baseada na prática, porque são práticas que revelam como as pessoas são. É como elas se comportam. É como elas interagem. E os líderes mais firmes em termos democráticos são aqueles que têm a capacidade de se mobilizar mais, abrir estradas, atrair mais pessoas, inspirar e trazer mudanças para a sociedade.

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