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Vacinas seguras para seus filhos? O dilema das mães venezuelanas

Venezuelanos dependem de vacinas colombianas distribuídas na fronteira, já que os constantes apagões comprometem estoques em seu país. Com as fronteiras fechadas pela pandemia, o que podem fazer?

Lorena Bornacelly
17 August 2020
USAID

Com o fechamento das fronteiras entre a Venezuela e a Colômbia devido à pandemia da Covid-19, anunciado pelo governo colombiano em 14 de março, as mães venezuelanas foram deixadas à deriva com as vacinas de seus filhos.

Aquelas que viajaram para a fronteira entre Táchira e Norte de Santander para chegar a Cúcuta, vindas de diferentes estados venezuelanos, perderam a chance de cruzar até que a passagem entre as duas nações seja reaberta. De acordo com o jornal La Opinión, em 2019, citando dados fornecidos pela Secretaria do Governo da Colômbia, o Estado distribuiu 113.929 doses de vacina à população venezuelana.

Com essa opção indisponível, muitas mães se encontram no dilema de vacinar ou não seus filhos nos centros de saúde pública da Venezuela, algo que passou a ser visto como um risco depois da morte de um bebê de 11 meses de idade logo de ser vacinado em 16 de maio em Chacao, estado de Miranda.

Em um país com constantes cortes de luz, a principal preocupação dessas mulheres é que as vacinas sejam danificadas ao serem expostas a altas temperaturas durante os apagões, que em muitos estados do país pode durar 24 horas seguidas.

Após a morte de uma criança em 16 de maio em Chacao, o Ministério da Saúde retirou todo o lote de vacinas pentavalentes no país para revisão e investigação

Incumprimento da cadeia de frio

O termo cadeia de frio faz referência à refrigeração exigida pelas vacinas para preservar os componentes de imunização. O processo requer eletricidade para o funcionamento dos refrigeradores. Quando os refrigeradores são desligados, a cadeia de frio é quebrada e pode comprometer a eficácia das vacinas.

Essa é a principal razão pela qual muitas mães venezuelanas não confiam nas imunizações na Venezuela, especialmente no estado de Táchira, onde o serviço de eletricidade é constantemente interrompido. Muitas crianças venezuelanas não cumprem o calendário de vacinação devido a esta situação.

Solimar Luna trouxe sua filha, hoje com 7 meses, a Cúcuta, Colômbia, para iniciar o cronograma de vacinação quando a menina tinha apenas 2 meses de idade. Em um centro de saúde pública na Colômbia, ela recebeu sua primeira dose oral de pólio e doses injetáveis contra o rotavírus, pneumococo e de pentavalente. Enquanto aguardava a segunda dose das mesmas vacinas, a fronteira foi fechada e Solimar se viu confinada pela Covid-19. Atualmente, a bebê já acumula três doses não tomadas.

"Minha filha não tomou as doses de 4 e 6 meses. Ela tomou as vacinas em Cúcuta porque não confio na cadeia de frio das daqui por causa das constantes quedas de energia. Ela tinha que ter tomado a de 4 meses há dois meses, e agora acumularam as de 6 meses, assim como a da gripe, que é dada aos 7 meses", disse a mãe.

Melissa Montano, com sua filha de 1 ano, também está na mesma situação de vacinas acumuladas. Atualmente, ela está sem os reforços de 6 meses. Ela também não tem a da gripe e está sem o reforço contra sarampo, hepatite A, febre amarela e pneumococo.

"Desde que ela nasceu, eu vou a Cúcuta para suas imunizações. Eu não confio nas vacinas que eles dão aqui. Prefiro correr o risco de não vaciná-la do que arriscar que ela tome algo que está em mau estado. Aqui a cadeia de frio pode ser perdida muito facilmente com tantas horas sem luz. Não importa quão cuidadoso você seja, as condições não são ideais. Além disso, o país já teve problemas com vacinas, incluindo casos de crianças doentes e uma morte. Não vou correr nenhum risco", disse Montano.

Escassez de vacinas

Mesmo que as mães de Táchira quisessem continuar as imunizações de seus filhos sem ir para a fronteira, não poderiam fazê-lo. Em junho de 2020, a Corporação de Saúde (Corposalud) e as clínicas do estado não tinham todas as vacinas que as crianças necessitavam.

"Temos as vacinas primárias, ou seja, BCG e hepatite B, mas o resto do calendário está incompleto. Há anos o sistema de saúde pública não tem vacinas contra pneumococo ou rotavírus e o Ministério da Saúde não relata as razões da falta delas", disse Ildemaro Pacheco, gerente geral da Corposalud Táchira.

Não há centros de saúde na Venezuela que disponibilizem a vacina que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e contra a bactéria haemophilus influenza tipo b

Além da ausência dessas duas vacinas, não há atualmente nenhuma pentavalente. "Após a morte de uma criança em 16 de maio em Chacao, o Ministério da Saúde retirou todo o lote de vacina pentavalente no país para revisão e investigação", explicou o gerente da Corposalud. 

Como resultado, não há centros de saúde em Táchira ou na Venezuela que disponibilizem essa imunização que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e contra a bactéria haemophilus influenza tipo b, responsável por infecções no nariz, meninge e na garganta. 

Pacheco disse que os profissionais da Corposalud e clínicas ambulatoriais devem informar aos pais ou responsáveis que não podem realizar a imunização completa. "Eles avisam que não temos todas as vacinas, mas não são capazes de propor nenhuma alternativa. Com a fronteira aberta, essa era a opção, mas agora isso não é possível. Não podemos encorajá-los a ir por trochas (trilhas ilegais) até Cúcuta, então pedimos desculpas porque a culpa é do governo nacional", disse ele.

Ou seja, as vacinas contra o rotavírus, o pneumococo e a pentavalente atualmente não estão disponíveis no sistema de saúde pública venezuelano.

As vacinas contra o rotavírus, o pneumococo e a pentavalente atualmente não estão disponíveis no sistema de saúde pública venezuelano

Consequências de doses incompletas

Diante da escassez de algumas vacinas e quedas de energia para preservar a cadeia de frio das que existem, as dúvidas são constantes. As mães temem que seus filhos tenham reações adversas, mas elas também vivem com medo do que pode acontecer se não vacinarem seus bebês.

O conselho que Solimar Luna recebeu da pediatra de sua filha foi que ela espere que a fronteira reabra. "Prefiro esperar. Não confio na cadeia de frio. Nem minha bebê nem eu saímos. Não posso arriscar que ela pegue nenhuma doença, então a mantenho em casa. Falei com a minha pediatra e ela recomendou esperar até a abertura da fronteira. Ela não me deu nenhum motivo, mas acho que é por causa da cadeia de frio. Ela me disse que a bebê não corre risco de contrair doenças preveníveis por vacina, porque ela não está saindo de casa", disse.

Para María Isabel Rodríguez, médica especializada em puericultura e pediatria, as vacinas são – depois da água potável – a descoberta que mais salvou vidas ao longo dos anos. 

"Se a criança tomar uma vacina aos 2 meses e não tomar o reforço aos 4 e 6 meses, significa que sua imunização é apenas parcial. Ela não está completa e não tem o mesmo efeito de uma vacina que foi dada nos tempos certos. Mas, por exemplo, a pentavalente se for dada aos 2 meses, ela faz uma curva enorme, gera bastante imunidade", disse Rodriguez.

Ela tomou as vacinas em Cúcuta porque não confio na cadeia de frio das daqui por causa das constantes quedas de energia

Embora o corpo não gere a resposta imunológica necessária, ele não estará completamente desprotegido contra a doença. Mas pular doses ou vacinas importantes pode gerar riscos.

"Se eu não vacino meu filho, estou simplesmente expondo meu próprio filho a doenças que são obviamente endêmicas no nosso país. Faz uns cinco ou oito anos que estamos vendo doenças no país que não víamos há mais 20, 30 anos, porque um calendário de imunização muito amplo já havia sido cumprido. A população total havia sido vacinada, gerando o que chamamos de estratégia de cocoon (casulo em inglês)", explicou.

Rodríguez não tem uma posição determinante sobre o que as mães devem fazer, especialmente porque a fronteira está fechada. Em suas visitas diárias, antes da pandemia, sempre recomendava que as mães de seus pacientes fossem aos centros de saúde colombianos para cumprir com o calendário de imunização.

Confiança nas vacinas

A Sociedade Venezuelana de Puericultura e Pediatria (SVPP) emitiu uma declaração em 18 de maio, após a morte da criança de 11 meses em Chacao, reiterando a importância das vacinas para bebês.

"Exortamos a comunidade a continuar confiando nas vacinas e no Programa Ampliado de Imunização (PAI), uma vez que não há um padrão que relacione a morte a uma vacina em particular, e a não ecoar rumores infundados de grupos anti-vacinas que se aproveitam de situações desta natureza para incutir desconfiança nas vacinas", diz a declaração. 

No entanto, em 29 de junho de 2020, SVPP emitiu novamente uma declaração pública, dessa vez sobre a investigação que está sendo realizada pelo Ministério da Saúde sobre a morte do bebê. Na comunicação, a SVPP relata que se desassociou completamente da investigação, considerando que ela conta com irregularidades. 

"A pouca transparência com que o Ministério da Saúde tratou do evento supostamente atribuído à vacinação e imunização aumentou a dúvida existente na comunidade, apesar do fato de que a SVPP foi a única entidade a fazer uma declaração e a pedir tranquilidade e confiança à comunidade de forma oportuna, quando quem deveria haver feita uma declaração a este respeito foi o MPPS e nunca o fez, apesar das múltiplas recomendações", diz uma parte da carta. 

Apesar da retirada formal da investigação, em nenhum momento no texto a SVPP se refere às vacinas de forma negativa. Pelo contrário, a entidade rejeita o fato de que o Ministério da Saúde não se pronunciou a favor das imunizações, especialmente após o medo que algumas famílias possam sentir. 

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Algunas madres optaron por vacunar a su hijos en Venezuela, para garantizarles las inmunizaciones acorde a sus edades | Lorena Bornacelly

Mães que decidiram vacinar na Venezuela

Assim como há aquelas que decidiram não vacinar, há também aquelas mães que, para sua paz de espírito, vacinaram seus filhos na Venezuela para garantir o máximo cumprimento do calendário, apesar da escassez de algumas vacinas. 

Victoria Duque é uma delas. Sem medo e com total confiança, ela foi a um ambulatório e vacinou seu filho de 1 ano. "A verdade é que eu tinha mais medo de não vaciná-lo. Consultei o pediatra e ela não se opôs, então fui. Ele ainda precisa de vacinas, mas eu me sinto mais confortável sabendo que ele tem pelo menos algumas doses. Vacinar crianças garante sua saúde, e a saúde vem em primeiro lugar", disse ela.

Com o mesmo pensamento, Nelly Pernía cumpriu as vacinas correspondentes ao primeiro ano de vida de sua filha, mas teve que gastar US$ 180 para pagar pela pneumocócica e pela vacina contra o rotavírus, adquiridas por laboratórios privados que as compraram e armazenaram sob as condições especiais que garantem a eficácia das vacinas. 

"Dei as de hepatite e sarampo nos centros públicos, mas como eles não tinham as outras, fiz o esforço e comprei as duas que os hospitais não têm há anos. Por nada no mundo eu arriscaria não ter o calendário completo, especialmente em um país como a Venezuela, onde doenças que não são vistas há séculos estão reaparecendo", disse Pernía. 

Ambas as mães disseram que, após o fechamento da fronteira, sabiam que não queriam atrasar a imunização. Com relação ao caso de Chacao, ambas concordam que, embora a morte do bebê provavelmente tenha relação com a vacina, elas o vêem como um caso em milhares e não como algo comum ou normal.


Este artigo foi previamente publicado em El Pitazo.

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