democraciaAbierta: Opinion

Vergonha do presidente do Brasil

Sob a negligência e irresponsabilidade do governo Bolsonaro, a Covid-19 se espalha, conferindo ao Brasil o status de um dos primeiros do mundo em número de infectados e de vitimas letais. Español

Gilda Moreira
4 May 2020
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em uma manifestação a favor do governo e contra o isolamento em meio ao surto de Covid-19 em frente ao Palácio do Planalto em Brasília, Brasil, no domingo, 3 de maio de 2020
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Andre Borges/NurPhoto/PA Images

Nasci em meados da década de 70, quando estava em curso na América Latina um dos mais perversos regimes políticos da nossa história: a Ditadura militar. Enquanto eu estava chegando a este mundo, centenas de pessoas estavam desaparecendo, sumindo de uma hora para outra, sendo arrancadas violentamente de suas casas, dos braços de familiares e amigos ou de abrigos coletivos, sem deixar vestígios. Sobre as atrocidades da Ditadura, aprendi com a nossa história, a partir de meados dos anos 80, com meus professores, com relatos de familiares, amigos de familiares, enfim, com a memória. E é justamente por este aprendizado da memória que cresci me arrepiando a cada vez que vejo uma manchete ou imagem qualquer com menção a este regime. É pelos ensinamentos da memória/história que hoje, já consciente do meu papel político de cidadã, grito, com a voz pesada, mas sempre “alevantando”: “Abaixo a Ditadura. Tortura Nunca Mais!” Porém, na contramão do meu brado, o que faz o atual presidente? Ostenta a memória do maior torturador da ditadura no Brasil, o sanguinário general Carlos Alberto Brilhante Ustra, elogia o ditador paraguaio, Alfredo Stroessner, pedófilo e estuprador em série, chama a ditadura militar de Revolução e outras aberrações.

Na década de 80 tive a honra de acompanhar, ainda nos braços dos meus pais, a formação do maior Partido de Trabalhadores da America Latina (PT) e o nascimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), fatos cruciais para o desencadeamento da redemocratização no Brasil. Isso se deu quando a Ditadura ainda fluía, entre 1980 (criação do PT) e 1984 (formação do MST). E onde estava o atual presidente? Certamente se preparando para ser o general do amanhã.

Na década de 90, já na universidade (UFRJ), vi de perto as mazelas do Neoliberalismo, em sua fase de expansão internacional, tendo no Brasil a representação do governo FHC, falsa liderança do povo, que muito contribuiu para os processos privatizantes do Estado brasileiro e para a entrega do país aos ditames do capital estrangeiro e do FMI. Ao longo da gestão FHC vivenciei, na prática, no então movimento estudantil, a luta pela resistência da democracia e contra a privatização das universidades públicas e das grandes empresas estatais. Naquele momento a atuação do PT e demais partidos de esquerda, em parceria com o MST, bem como com a ação de um sindicalismo nacional razoavelmente forte, foi o que garantiu a suspensão da entrada desenfreada do Brasil no abismo privatizante neoliberal. Não obstante, o legado FHC conseguiu deixar sequelas políticas desastrosas para o país, dificultando a reestruturação e refortalecimento do Brasil, no cenário internacional. E onde estava o atual presidente? Em Brasília, sem nada ter feito pelo povo contra o desmantelamento da nação.

Vieram, então, os primeiros anos de 2000. O novo século se inicia com uma promessa valiosa: chega à presidência da república Luiz Inácio Lula da Silva, um filho do povo, sindicalista do ABC paulista, o torneiro mecânico de nove dedos, um dos formadores ilustres do PT, a maior liderança política que o Brasil já teve e, quiçá, terá. Em janeiro de 2003, finalmente, a esquerda brasileira chega ao poder central pelo voto direto do povo. Sobre as consequências objetivas e essenciais do governo Lula, não vou aqui me alongar. Apenas dizer que somente duas gestões suas seguidas foram o suficiente para retirar o Brasil da linha internacional da pobreza e da fome, ou seja, da miséria. E você me pergunta: “E isso é muito?” Respondo: Bem, pouco não é. Basta olhar o percurso da nossa história. Como boa parte dos brasileiros, tenho minhas críticas específicas e construtivas aos governos petistas, mas não cabe aqui, agora, possível ilustração. Como muitos colegas da minha geração, fui, sim, e com orgulho, à posse de Lula em Brasília, acompanhei o evento de perto, tirei fotos na esplanada, chorei. A emoção daquele momento, confesso, foi, e ainda é, indescritível. E onde estava o atual presidente? Certamente lamentando a eleição da esquerda e se articulando para fazer a oposição, a todo custo, até tirá-la do poder.

Onde estava o atual presidente? Comandando a frota desvairada que conduzia o Brasil rumo à desgraça

Mas a bola rodou, a terra girou e, claro, ao contrário do que afirmam os “terraplanistas” de hoje, a terra é redonda sim, a ciência comprova. E ela gira e gira e gira e, por vezes, volta ao ponto de partida, embora este já não seja mais exatamente o mesmo, claro. Como a terra, a política girou. Veio a Presidenta Dilma Rousseff. E lá se vão quase mais duas gestões seguidas do PT. Mas, num piscar de olhos, para a nossa surpresa, veio o golpe da direita articulada com todo o tipo de setor que podemos imaginar, orquestrado pela maior rede de comunicação do país, a Rede Globo de Televisão, aproveitando-se dos atos de rua de junho de 2013 e transfigurando suas reais intenções. E foi então que a terra deu novas voltas no Brasil. E onde estava o atual presidente? Apoiando e articulando, na linha de frente, o GOLPE.

Chegaram as eleições de 2018. E eis que uma jogada mestra da comunicação, alavancada pelo recurso perverso das chamadas “Fake news”, vira o jogo da história brasileira ao extremo. O PT passou a ser demonizado, a esquerda passou a ser desqualificada por verdades construídas em laboratórios eletrônicos. A militância de esquerda foi batizada de “esquerdopata” e de “comunista”, sendo esta última palavra usada como sinônimo do que há de pior na sociedade, ou seja, numa inversão extrema de valores, advinda da cegueira política, “comunista” virou xingamento agressivo por parte dos (de)formados e (des)educados pela ideologia da tal ” Fake news”. No mundo das “Fake news” até “mamadeira de piroca” passou a existir. A tradicional aula de conscientização pela liberdade passou a ser vista como doutrinação. A docência, pasmem, ficou tachada de “esquerdopata”, leia-se, algo muito perigoso, porque promove a “balbúrdia” e impõe a “ideologia de gênero”, que consiste em tornar proscrita qualquer forma de sexualidade que não seja a heteronormativa. Do lado mais extremo da coisa, Deus passou a ser visto por aí desfilando em cima das goiabeiras, a terra passou a ser plana e os comunistas voltaram a comer e a perverter as criancinhas, como afirmavam outrora, antes de a terra girar e voltar, plana, ao mesmo lugar. Com este cenário digitado, ilustrado e viralizado nas redes sociais de todo o Brasil, advinha quem chegou à presidência da república? O ilustre atual presidente que, mal tomou posse, já assumiu o posto mostrando ao que veio, no sentido destrutivo.

2020 chega pegando fogo, literalmente. A Amazônia queimando mesmo, sendo o astro Leonardo DiCaprio e a ambientalista Greta Thunberg os grandes incendiários. A Contrarreforma da Previdência garantiu seu assento no epicentro do país, os servidores públicos passaram a ser tachados de parasitas, o ministro da Educação mostrou bem que não sabe grafar as palavras, o presidente da Fundição Palmares garantiu que a escravidão foi muito boa para o Brasil e que não existe racismo por aqui. A namoradinha do Brasil, a Viúva Porcina, ousou pilotar o avião da Cultura, desavisada de que a Regina Duarte não tinha brevê de piloto. E onde estava o atual presidente? Comandando a frota desvairada que conduzia o Brasil rumo à desgraça.

Para o presidente e seu ministro genocida da economia, a morte do povo é o menor dos infortúnios

Aí, para o nosso total infortúnio nesse início de século, desembarcou por aqui, em pleno carnaval, a indesejada visitante da gente: a Covid-19, que atingiu como primeira vítima fatal no Rio de Janeiro uma empregada doméstica da Baixada Fluminense, que nunca pisou no exterior, mas que servia a uma madame da zona sul. A esta altura a COVID-19 já fizera centenas de vítimas na China, quando o lado de cá do mundo a ignorava. Já devastava parte da Europa, onde fez um estrago sem precedente, desde a peste negra, na Itália e Espanha, chegando ao Brasil no final de fevereiro. E onde estava o atual presidente? Visitando a Terra do Tio Sam, articulando política com Trump, enquanto subestimava o vírus fatal e chamava a Covid-19 de “gripezinha”.

Negligenciando a recomendação da OMS e demais órgãos oficiais da Saúde Mundial que recomendam, insistentemente, o isolamento social (a quarentena) como uma das principais precauções, o presidente convoca a população para as ruas, para apoiar o seu governo e salvar a economia. Para o presidente e seu ministro genocida da economia, a morte do povo é o menor dos infortúnios, a desgraça seria a crise do mercado econômico. Assim, deixar morrer é a receita para salvar a economia. Capital acima de todos; a morte do pobre acima de tudo, para o lucro continuar ileso. Viver não é essencial para o povo. Deixar morrer acima de tudo, para lucrar por cima de todos. Eis aí o real e cruel Brasil em que nos encontramos. E onde está o atual presidente? Lavando as mãos, em sentido unicamente metafórico, e propagando a Cloroquina como a salvação, enquanto o povo, já faminto, é ainda convocado por ele para jejuar e para seguir ao encontro da morte, logo ali na próxima esquina. Sob a negligência e irresponsabilidade desse governo insano e genocida, a Covid-19 se espalha por todo o país, conferindo ao Brasil o status de um dos primeiros do mundo em número de infectados e de vitimas letais, na mesma velocidade em que a crise política e econômica ganha corpo e proporções desastrosas, fruto da notória incompetência desse desequilibrado presidente, que conduz a nação rumo ao abismo.

Quanta negligência e leviandade! Mas a esperança (no sentido de esperançar, e não de esperar) é fonte perene que alimenta o Brasil, e dela sairão forças para a resistência. Com o apoio dos meios de comunicação em geral, em especial os meios alternativos, incluindo as redes comunitárias de todo o país, e com a nossa unidade em defesa da vida, novos ventos haverão de soprar. A lucidez e sensatez hão de prevalecer e, juntos, cuidando uns dos outros, venceremos esta guerra.

Vergonha do presidente do Brasil!

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