democraciaAbierta: Opinion

A luta contra o racismo e o uso da violência nos EUA e no Brasil

A violência, até certo ponto, deu agência política aos negros nos Estados Unidos, enquanto a não-violência manteve seus pares brasileiros ocultos, em segundo plano e em grande parte ignorados. Español English

Manuella Libardi
5 June 2020
Homem carrega uma bandeira do Brasil manchada de vermelho nas costas durante a 14º Marcha da Consciência Negra em São Paulo
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NurPhoto/NurPhoto/PA Images

O grande debate desta semana parece girar em torno dos tumultos, motins e o uso da violência nos protestos contra a violência policial nos Estados Unidos prejudica, o que parece revoltar as pessoas muito mais do o problema em questão, o assassinato de George Floyd e o racismo sistêmico que o tornou possível. Muitos se perguntam se a desordem ajuda ou prejudica a causa. A resposta é complexa e delicada, mas a violência, até certo ponto, deu agência política aos negros nos Estados Unidos, enquanto a não-violência manteve seus pares brasileiros ocultos, em segundo plano e em grande parte ignorados.

A forma como os Estados Unidos e o Brasil lidaram com suas populações descendentes dos africanos que trouxeram como escravos para construir suas colônias e enriquecer suas elites foi muito diferente. Os Estados Unidos pertencem ao grupo de nações que optaram por segregar os negros, estabelecendo leis racistas, mas apoiadas pela Constituição.

O Brasil, por outro lado, estabeleceu teses acadêmicas duvidosas – que remontam ao século XIX, mesmo antes da escravidão ser proibida – de apoio o branqueamento racial, em um esforço de eliminar as características e os genes africanos do acervo genético brasileiro através da miscigenação.

A mistura racial na América Latina foi incorporada à literatura acadêmica, particularmente na primeira metade do século XX, como uma alternativa positiva à segregação étnica e racial e à desumanização que levou ao holocausto judeu e foi fonte de conflitos violentos nos Estados Unidos durante o Jim Crow e o apartheid sul-africano nas décadas de 1950 e 1960.

Nos fim do século XX, o consenso acadêmico brasileiro a respeito da mistura racial começou a mudar. Com o surgimento dos discursos multiculturais e das políticas de identidade, a prática começou a ser denunciada pelo que era – um mito para ocultar e incentivar a reprodução das desigualdades raciais e do racismo sistêmico.

A miscigenação e o mito do daltonismo racial brasileiro deram origem a uma população desprovida de ferramentas suficientes para se unir e lutar por direitos porque foram ensinadas, condicionadas a ignorar o sangue que corre em suas veias.

Enquanto uma tática levou à violência, motins, protestos, a outra a um país onde vastos grupos de pessoas que muitas vezes não se identificam como negros ou pardos. Suas tradições e costumes foram incorporados à sociedade sem créditos expressivos à cultura negra, negando-lhes o direito ao orgulho de sua raça e herança na esfera pública, fora de suas comunidades.

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O artista Micky Doc remove uma foto usada para pintar um mural para George Floyd no International Wall de Belfast, na Falls Road | Brian Lawless/PA Wire/PA Images

Não é coincidência que o número de brasileiros que se identificam como pretos ou pardos tenha aumentado no século XXI. A mudança caminha lado a lado com o empoderamento dos movimentos negros no país, além das políticas de ação afirmativa do Estado.

Em sete anos, entre 2012 e 2018, o número de brasileiros que se declaram negros – que também inclui pardos para fins de censo – subiu quase 30%. Entre 2018 e 2017, o aumento foi de 32,2%.

Similarmente, o número de brasileiros que se declaram brancos vem declinando de forma constante, começando por volta da mesma época. Até 2014, a maioria dos brasileiros se identificavam como brancos, enquanto agora os pardos constituem a maioria da população.

As políticas afirmativas certamente têm um papel, mas não apenas porque os cidadãos podem se beneficiar diretamente do fato de serem negros no contexto de acesso ao ensino superior. A pesquisa do IBGE sugere que as pessoas que reconsideram sua raça por causa das ações afirmativas passam essa nova identidade adiante. Seus filhos, e até mesmo familiares mais velhos, assimilam a nova identidade, criando uma reestruturação da cultura.

Com essas mudanças, juntamente com o boom das redes social no início do século, os movimentos negros ganharam mais visibilidade. As principais mídias voltaram sua atenção para questões relativas aos negros brasileiros, que haviam sido em grande parte ignoradas ao longo da história.

A agitação social provou ser a única linguagem que a os americanos brancos parecem entender diante da desigualdade racial. Essa linguagem não foi permitida aos negros brasileiros

Uma polícia cada vez mais militarizada e violenta vem matando indiscriminadamente civis – a grande maioria negros e pobres –, o que recentemente ganhou atenção internacional. A brutal matança de pessoas nas favelas de todo o Brasil, e mais notoriamente no Rio de Janeiro, pelas mãos da polícia é tão intrínseca à sociedade brasileira como o samba ou o futebol. O que mudou é que os negros estão tomando as ruas e as mídias sociais para delatar as injustiças cometidas contra suas comunidades.

O caso da morte de João Pedro Matos Pinto atraiu a atenção da mídia recentemente. Em 18 de maio, apenas uma semana antes da morte de Floyd, três policiais, supostamente perseguindo suspeitos, invadiram uma casa na favela do Salgueiro, no Rio, onde João Pedro, de 14 anos, brincava com alguns primos. Os policiais abriram fogo, atirando nas costas do adolescente. Os policiais levaram João Pedro em um helicóptero, deixando a família sem informação nenhuma sobre seu paradeiro ou condição, por mais de 17 horas.

O casa da Ágatha Félix também teve repercussão internacional. Em setembro, a menina de 8 anos e sua mãe voltavam para sua casa no Complexo do Alemão, no Rio, quando a polícia atirou na van em que viajavam, matando Ágatha.

Estes não são incidentes isolados, mas fazem parte de uma tendência ultrajante. Na última década, a polícia matou mais de 33 mil civis – pelo menos 75% deles eram negros. Aconteceram protestos, particularmente dentro das comunidades mais afetadas por essa violência, mas nada como o tumulto visto nos Estados Unidos.

Por mais dividido, desigual e injusto que seja os Estados Unidos, os negros americanos têm sido capazes de se organizar e lutar pela justiça por mais tempo, de uma forma mais coesa. Ao longo do século XX, houve revoltas significativas em Chicago em 1919, no bairro do Harlem em Nova York em 1935, Detroit em 1943 e Los Angeles diversas vezes(1943, 1965, 1992). Em quase todos os casos, a agitação havia sido desencadeada ou pela violência policial direta ou por sua relutância em intervir quando violência estava sendo cometida contra negros.

A atenção do público só começou a ganhar força no caso Floyd durante o fim de semana – vários dias depois de Derek Chauvin pressionar o joelho contra o pescoço do homem por quase nove minutos no dia 25 de maio – quando negros (e brancos) invadiram as ruas de Minneapolis e outras cidades dos Estados Unidos. A agitação social provou ser a única linguagem que a os americanos brancos parecem entender diante da desigualdade racial. Essa linguagem não foi permitida aos negros brasileiros, e isso lhes custou séculos de mortes sistêmicas, em plena luz do dia.

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