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Derrota dos EUA no Afeganistão marca o fim do neoliberalismo

Se os militares americanos podem ser derrotados, eles não podem governar os mercados globais

Adam Ramsay
Adam Ramsay
23 Agosto 2021, 12.00
O presidente Biden defende a retirada do Exército americano do Afeganistão em 16 de agosto de 2021
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UPI/Alamy Live News

A era neoliberal, que começou quando os Estados Unidos perderam a guerra do Vietnã, terminou com os Estados Unidos perdendo a guerra no Afeganistão. E a guerra contra o terrorismo. E a guerra contra as drogas.

A linha do tempo conta uma história horrível para aqueles que enfrentam massacres e subjugação pelo Talibã. Mulheres, xiitas e qualquer pessoa que tenha colaborado com as forças dos EUA e do Reino Unido, ou com o regime local agora essencialmente derrotado, enfrentam um futuro sombrio, pois os "hooligans do absoluto", como o pensador político Tom Nairn os apelidou, assumem o controle do país uma vez mais.

Não posso deixar de pensar nos afegãos que conheci em um campo de refugiados em Belgrado em 2015. Um homem foi baleado na perna enquanto servia no exército nacional ao lado das tropas britânicas e levado para um hospital em Cardiff, onde passou um ano se recuperando. Depois de ter seu asilo negado, ele foi enviado de volta ao Afeganistão. Sabendo que o Talibã mataria ele e sua família, ele fez fez outra vez no trajeto à Europa em sua perna fraca, com sua irmã e seus sobrinhos.

Eles ficaram presos na fronteira da Europa? Foram mortos? Tentei entrar em contato pelo Facebook, mas não tenho ideia do que aconteceu com eles.

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Não posso deixar de pensar nos 32 mil requerentes de asilo afegãos que o Reino Unido rejeitou desde 2001, como o openDemocracy revelou recentemente. Os aviões de deportação da Grã-Bretanha os entregaram aos pelotões de fuzilamento?

Não posso deixar de pensar em minha avó, que tinha quase 90 anos quando a invasão da OTAN começou em 2001. “Não aprendemos a lição na segunda guerra afegã?” ela me perguntou na época, quando eu era adolescente, referindo-se à invasão britânica em 1878, apenas uma geração antes da sua.

Não posso deixar de pensar nos relatos da primeira guerra anglo-afegã, em 1839, quando a Grã-Bretanha invadiu, foi expulsa e voltou a invadir o país como "vingança" – assassinando, estuprando e matando aldeias inteiras de fome por onde passou, para que eles pudessem transformar esta sociedade humana em uma zona de amortecimento para sua colônia indiana. Esta não é uma história de 20 anos – é uma história de 200 anos.

Não posso deixar de pensar na guerra contra as drogas. Se, em vez de criminalizar a heroína e jogar os produtores de papoula da Ásia Central nas mãos do Talibã, nós a tivéssemos legalizado e regulamentado, onde estaríamos?

Não posso deixar de imaginar por que tantos adolescentes e jovens que não conheceram outra realidade além da ocupação da OTAN estão tão desesperados para derrubar o governo a ponto de se aliarem a combatentes estrangeiros para massacrar seus vizinhos.

E não posso deixar de me maravilhar com o fracasso da imprensa ocidental em fazer essas perguntas. Vinte anos de guerra – vinte anos de suposta construção de uma nação pelo que começou como a aliança mais poderosa da história humana – foram varridos em questão de dias.

A era neoliberal acabou. E como vemos em Cabul hoje, o que vem a seguir não é inevitavelmente melhor.

O neoliberalismo realmente acabou?

Tem havido um certo debate nos últimos tempos sobre se o neoliberalismo está morrendo ou mudando. Eventos como o G7 deste ano que, pelo menos em teoria, concordou com um imposto corporativo mínimo global, encorajou o historiador econômico Adam Tooze a dizer que o consenso da elite em torno do neoliberalismo como uma ideia acabou.

Tão significativo quanto, como o co-fundador do openDemocracy Anthony Barnett apontou, o ápice do neoliberalismo foi definido por uma negação nos círculos da elite de que tal coisa existisse. “Você também pode debater se o outono vem depois do verão”, argumentou Tony Blair em 2005, contra aqueles que desejavam discutir a globalização dos mercados ocidentais.

Não se tratava de uma ideologia, eles diriam, apenas de lógica, o jeito que as coisas são, apenas a realidade. Hoje em dia, até o Financial Times está começando a questionar se o neoliberalismo funciona – sim, usando essa palavra – e os grandes think tanks da ideologia voltaram a usar o termo. A ideia não é mais o bom senso puro e simples – ela precisa ser defendida.

A jornalista econômica Grace Blakeley acredita que o neoliberalismo está vivo e prosperando, no entanto. Escrevendo no Tribune em maio, ela argumentou: “O estado neoliberal não é um Estado pequeno, é um Estado projetado para atender aos interesses do capital”. Os investimentos de resgate da Covid-19, ela conclui, não significam o fim do neoliberalismo. “Os Estados estão gastando mais dinheiro porque as grandes empresas e as grandes finanças precisam ser resgatadas – de novo.”

'Uma pessoa, um voto' passou a ser 'um dólar, um voto'. Ou talvez um milhão de dólares.

No mês seguinte, o historiador Quinn Slobodian apontou acertadamente as conexões ideológicas entre a nova direita nacionalista – os Trumps, Bolsonaros e Brexiters – e a direita neoliberal. Os pais do neoliberalismo eram muito mais racistas do que nos fazem acreditar, e a nova direita nativista está muito mais alinhada com o Big Money do que gosta de admitir.

Se o ex-conselheiro de Donald Trump, Steve Bannon, glorifica Hayek – e ele o faz – ele não é também um neoliberal?

Tanto James Meadway, escrevendo para Novara, quanto o editor de economia do openDemocracy, Laurie Macfarlane, argumentam, no entanto, que uma mudança na ordem internacional aponta para a substituição do neoliberalismo por um sistema de capitalismo autoritário, tipificado pela ascensão da China, mas também pela quebra de acordos comerciais neoliberais por Trump.

A retirada e derrota dos EUA no Afeganistão faz sentido apenas neste contexto.

O que foi neoliberalismo?

O neoliberalismo é normalmente descrito como uma ideologia – a crença de que o Estado deve ser revertido e abrir caminho para o mercado fluir livremente – desenvolvida nos famosos think tanks e faculdades de economia da Anglo-América.

Não acho que seja a melhor maneira de ver as coisas. Pesquisas de opinião em países ao redor do mundo mostram consistentemente que as ideias neoliberais como a privatização, cortes de impostos para os ricos e a desregulamentação são profundamente impopulares. E ainda assim eles dominaram por 40 anos. O neoliberalismo é uma ideia, mas não se tornou poderoso por causa de seu sucesso como ideia.

O acadêmico William Davies forneceu talvez a definição mais sucinta, que enquadra o neoliberalismo como um processo sociológico: “o desencanto da política pela economia”. Isso atinge o cerne de muito do que aconteceu – a mudança das tomadas de decisões da esfera política para o mercado: 'uma pessoa, um voto' passou a ser 'um dólar, um voto'. Ou talvez um milhão de dólares.

Se a primeira metade do século 20 viu as mulheres e a classe trabalhadora ganharem o direito de eleger governos nacionais, no último trimestre os governantes entregaram o poder a outro lugar, para garantir que a maioria das pessoas nunca chegasse realmente perto dele.

Mas prefiro ver o neoliberalismo de outra forma: como um processo histórico e geográfico.

Durante séculos, a forma dominante de capitalismo foi o colonialismo. As pessoas que tinham dinheiro perceberam que uma maneira eficiente de ganhar mais dinheiro era pagar para alguém ir a outro lugar e saquear.

A contabilidade de dubla entrada, inventada no norte da Itália medieval, permitia que as empresas monitorassem capital, crédito, empréstimos e investimentos. Um dos primeiros a adotá-la foi Cristóvão Colombo, que levou um contador real em sua notória viagem de 1492.

Logo, os europeus se tornaram os especialistas mundiais em acumulação de capital por meio da violência colonial: daí os genocídios das Américas e da Australásia, a conquista brutal das Companhias das Índias Orientais do Sul e Sudeste Asiático, a disputa assassina pela África e as Guerras do Ópio, para dar apenas um alguns exemplos. O controle dos mercados globais ajudou a produzir a revolução industrial, que intensificou o processo.

Os europeus-americanos seguiram o exemplo com zelo, genocidando e conquistando o velho oeste "selvagem" – com as Dakotas, Washington, Idaho, Wyoming e Utah incorporados como estados no final do século 19, Novo México e Arizona em 1912, e Havaí e Alasca em 1959 – juntamente com a colonização de grande parte do Pacífico (as Filipinas foram uma colônia dos Estados Unidos de 1898-1946 e a Micronésia esteve sob o domínio dos Estados Unidos de 1945 a 1986).

Os 50 estados, distrito federal e cinco territórios habitados dos EUA
Os 50 estados, distrito federal e cinco territórios habitados dos EUA | Wikimedia Commons/Domínio Público

Esta expansão para o oeste do império americano teve problemas quando esbarrou no poder chinês e russo – com a ofensiva do Tet de 1968 no Vietnã trazendo não apenas derrotas militares, mas também levantes populares em todo o mundo ocidental.

Incapaz de alcançar este terreno, mas dominando grande parte do resto do planeta, a capital ocidental atingiu uma fronteira. Depois de um breve flerte com a viagem espacial, não sabia para onde ir depois. Não era mais simples para o capital colonizar algum lugar "novo".

Tendo a pensar no neoliberalismo como a resposta do capital ocidental e seus Estados aliados – liderado pelo capital dos EUA e pelo Estado americano – a essa fronteira. Foi uma tentativa de criar um único mercado global com os EUA e, até certo ponto, a Europa Ocidental, em seu núcleo. Não é uma coincidência que tenha ocorrido imediatamente após o desmembramento da maior parte do império britânico – em muitos aspectos, foi uma tentativa dos Estados Unidos de substituí-lo.

A derrota militar dos EUA primeiro no Iraque e agora no Afeganistão marca o fim daquela era.

Consentimento para governar e humanização

Duas invenções, ambas em 1947, ajudaram a acelerar a mudança do imperialismo tradicional ao acabar com as vastas assimetrias na violência entre colonizado e colonizador. Ao contrário de seus antecessores, o fuzil de assalto AK-47 e o Toyota Hilux podiam ser consertados em campo quando quebravam ou emperravam, e sua ampla distribuição fornecia meios baratos e acessíveis para a violência em massa. As ferramentas de guerra foram democratizadas. O poder dos insurgentes cresceu.

De forma igualmente significativa, a tecnologia de comunicação também se transformou. O mundo ficou mais conectado do que nunca e, como Anthony Barnett descreveu no ano passado, as revoltas de 1968 ajudaram a criar um senso de comunidade global.

A violenta realidade do império sempre foi contestada nos centros imperiais. Em maio de 1840, durante as primeiras Guerras do Ópio, William Gladstone escreveu em seu diário que vivia “com pavor dos julgamentos de Deus sobre a Inglaterra por nossa iniquidade nacional contra a China”. Mas a distribuição criteriosa da riqueza resultante de saques e pilhagem, patriotismo e propaganda permitiu que o sistema garantisse consentimento suficiente para operar.

Assim como as riquezas roubadas começaram a secar quando o capital imperial alcançou suas fronteiras geográficas, também os sistemas de propaganda começaram a ruir. A ofensiva do Tet não representou apenas uma mudança militar do destino. Quando as forças norte-vietnamitas receberam a ordem de “quebrar o céu, sacudir a terra”, eles fizeram exatamente isso, mas não apenas da maneira que imaginaram.

Nos Estados Unidos, a televisão em cores começou a popularizar, e a fotografia em cores já dominava as primeiras páginas das revistas do país. Embora os impérios europeus tenham enfrentado desastres nas décadas anteriores, seus cidadãos sentados em casa nunca os viram tão vividamente.

O regime de Pinochet é frequentemente visto como a primeira experiência do neoliberalismo

Mas, ao mesmo tempo que os Estados Unidos estavam perdendo a guerra da propaganda no Vietnã, estava ganhando a guerra secreta na Indonésia. Dois meses após o início da ofensiva do Tet, Suharto, apoiado pelos EUA, foi empossado como presidente daquele que era então o quinto país mais populoso do mundo. Demorou até 2017 para a escala do envolvimento da CIA no assassinato de um milhão de pessoas ser oficialmente confirmada.

Suharto usou economistas treinados nos EUA para forçar a abertura dos mercados ao capital americano, criando o que a Transparência Internacional mais tarde descreveria como “o governo mais corrupto da história moderna”. Ele permaneceu no poder até 1998.

Cinco anos após a posse de Suharto, um modelo semelhante foi usado para depor o presidente eleito do Chile, Salvador Allende, com uma enxurrada de aviões bombardeiros, substituindo-o pelo general Pinochet e um choque de conselheiros econômicos treinados nos EUA – alunos do professor da Universidade de Chicago, Milton Friedman. O regime de Pinochet é frequentemente visto como a primeira experiência do neoliberalismo.

Como apontou o escritor e acadêmico David Wearing, esse sistema tem como característica fundamental a disposição de se aliar a todos os tipos de regimes brutais, fundamentalistas e autoritários se eles se alinharem aos interesses do capital ocidental. Como ele diz, não é necessário realizar um experimento mental para enxergar como os governos britânico e americano tratariam o Talibã se lhes fosse útil. Basta olhar para a Casa de Saud.

Em seu livro "A Doutrina do Choque", a escritora e ativista Naomi Klein expõe o mito de que o capital dos EUA avançou em todo o mundo de mãos dadas com a democracia. Em vez disso, ela explica, foi por meio da exploração de crises e da aplicação da violência que os países foram forçados a entrar na economia neoliberal globalizada.

Outra característica desse sistema é que, em resposta à falta de novos territórios para conquistar, passou a concentrar-se na extração de riqueza dos Estados ocidentais que antes contava como seus principais aliados na conquista, por meio das privatizações que se tornaram uma de suas propriedades definidoras.

Embora o programa retórico do neoliberalismo martelasse na ideia de redução nos gastos do governo, a promessa raramente caracterizou a realidade. Os gastos do governo dos EUA permaneceram praticamente os mesmos durante a era neoliberal. O verdadeiro processo que ocorreu em Washington foi um rápido crescimento nos gastos militares, compensando o desinvestimento em outros setores.

Uma análise dos gastos do governo dos EUA em 2020
Uma análise dos gastos do governo dos EUA em 2020 | Wikimedia Commons/Domínio Público

Enquanto os Estados Unidos tentavam expandir seu controle, as potências europeias, falidas pela Segunda Guerra Mundial, enfrentavam em seus impérios movimentos de resistência cada vez mais armados com os AK-47 e Hilux e com conhecimento local superior. Os europeus temiam que as tentativas contínuas de governar suas colônias os levassem ao alinhamento total com a União Soviética e, portanto, se retiraram delas.

Uma consequência desses processos foi a formação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em 1960. Onde as empresas britânicas antes efetivamente roubavam petróleo do Oriente Médio, agora os autocratas locais queriam sua parte. E em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, eles aceleraram seus motores e quadruplicaram o preço do petróleo. Junto com a turbulência financeira produzida pela derrota no Vietnã, esses eventos produziram a crise econômica dos anos 1970.

Richard Nixon, aconselhado por aqueles economistas e think tanks anglo-americanos, abandonou os acordos do pós-guerra que mantinham o consenso social-democrata em todo o Ocidente desde a Segunda Guerra Mundial, desvencilhou o dólar do padrão ouro e deu início ao novo consenso da mercantilização, conhecida por seus fundadores como sistema neoliberal.

Na próxima década, a União Soviética também descobriria como a tecnologia democratizou a violência ao enfrentar os Mujahidin armados pelos Estados Unidos no Afeganistão, que acabaram contribuindo para sua queda. Mas essa é outra história.

Os mecanismos para tentar controlar essas ex-colônias – e para garantir a transferência contínua de riqueza do Sul para o Norte – continuaram. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) impuseram condições aos empréstimos, conhecidos como programas de ajuste estrutural, que nada fizeram para aliviar a pobreza e tudo para garantir a exclusividade do capital ocidental. Estruturas complexas de propriedade corporativa foram desenvolvidas, operações secretas continuaram e novas guerras foram travadas – especialmente contra regimes que controlavam grandes reservas de petróleo.

Mas, ao contrário dos dias do império, quando o controle das colônias pelos colonizadores era claro, mesmo que a missão às vezes fosse tida como cristã e civilizadora, esse novo processo sempre foi opaco. O empobrecimento dos que já eram pobres era, de alguma forma, sempre justificado como a ordem natural das coisas. À medida que a conexão global se expandia, ficava mais difícil assassinar, torturar e saquear em outros países sem enfrentar uma reação em casa: compare, por exemplo, a reação limitada contra a tortura em massa de prisioneiros Mau-Mau na Grã-Bretanha nas décadas de 1950 e 1960 com a reação contra os abusos dos direitos humanos cometidos na prisão iraquiana de Abu Ghraib pelos EUA no início dos anos 2000.

A principal diferença entre o sucesso do Reino Unido na "Emergência" Malaia (1948-1960) e a derrota dos EUA no Vietnã foi, indiscutivelmente, que o Reino Unido pôde usar campos de concentração sem sofrer as consequências.

À medida que os EUA abraçavam seu papel de principal potência imperial mundial, enfrentavam o desafio significativo de administrar uma população doméstica mais conectada ao resto do mundo do que a de qualquer centro imperial anterior. E, assim, desenvolveu todo um emaranhado de mecanismos para ofuscar os processos de pilhagem que estavam acontecendo: desde a transferência do controle para as corporações, passando pela transferência do poder para as instituições transnacionais, até a vasta expansão da dívida, tanto internacional quanto doméstica.

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E um desses mecanismos era a propaganda do intervencionismo liberal – a ideia de que a intervenção militar ocidental era necessária para o bem dos cidadãos de onde quer que houvesse intervenção.

Claro, você pode perfeitamente argumentar que algumas dessas intervenções foram de fato benéficas para os residentes dos países bombardeados; que eles estão em uma situação melhor sem o regime que foi deposto. Essa é uma conversa para outro dia. Mas é difícil argumentar que os ideais humanitários foram as principais motivações para os vários atentados no auge do neoliberalismo. Regimes brutais não foram apenas tolerados mas ativamente celebrados em países que o Ocidente queria incluir no mercado neoliberal de seu domínio.

Um sistema construído em ilusões não pode manter a realidade em uma chave de braço para sempre. Há 20 anos, grupos fascistas radicalizados pelas tropas dos EUA na Terra Santa derrubaram as Torres Gêmeas e levaram Washington a uma guerra de 30 anos. Embora o crédito que foi destruído no colapso financeiro de 2008 tenha sido em grande parte reemitido, o sentimento de riqueza compartilhada nos anos 90 foi substituído no Ocidente por um sentimento profundo de que algo está quebrado. E a derrota dos EUA no Iraque, e agora no Afeganistão, apenas confirma esse sentimento. Afinal, você consegue pensar em uma guerra que os EUA venceram neste século?

Já tínhamos sinais de que o neoliberalismo estava desmoronando, uma vez que capitalistas autoritários e nacionalistas vêm assumindo o controle de países desde a Índia ao Brasil e até mesmo os antigos tecnocratas do domínio do mercado fizeram o Estado entrar em ação diante da pandemia de Covid-19.

Mas a derrota dos EUA no Afeganistão é outro sinal de que a era neoliberal acabou, porque marca o fim – por enquanto – daquela tentativa de unir o mundo em um mercado liderado pelos EUA.

E também nos diz algo sobre o que provavelmente o substituirá. Como o conselheiro de segurança internacional do openDemocracy, Paul Rogers, apontou, o governo chinês tem muito a ganhar. Há menos de um mês, o chefe político do Talibã, Mullah Abdul Ghani Baradar, se encontrou com o ministro das Relações Exteriores de Pequim, Wang Yi. A minúscula fronteira entre os dois países – o Corredor de Wakhan – surge como um dedo entre o Tajiquistão e o Afeganistão, um legado dos jogos do século 19 entre os impérios russo e britânico.

Esse dedo, combinado com uma aliança com um governo do Talibã, permitiria ao capital chinês novas rotas comerciais para o Oriente Médio e o Ocidente. Se o neoliberalismo tratava do poder do capital americano, então há todas as chances de que o que vem a seguir seja o aumento da hegemonia de Pequim, com seu sistema de capitalismo autoritário dominando o Oriente e o Ocidente.

Há também todas as chances de resistir.

Mas, como sempre, o povo do Afeganistão continuará a ser tratado como animal morto na estrada de outros.

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