ourEconomy: Analysis

Como os gigantes dos grãos fizeram uma bonança com a fome

O sistema alimentar global precisa ser reformulado para diversificar cultivos, produtores e rotas de abastecimento

Pat Mooney
Pat Mooney
8 Novembro 2022, 12.00
Quatro empresas dominam o comércio global de grãos
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Martyn Williams/Alamy Stock Photo

À medida que as economias caem, a inflação dispara e os preços globais dos alimentos alcançam níveis criticamente altos, dois setores parecem ter ganhado na loteria em 2022 – gigantes da energia e comerciantes de grãos.

Estima-se que 345 milhões de pessoas estão hoje em situação de insegurança alimentar aguda, em comparação com 135 milhões antes da pandemia. Populações vulneráveis ​​enfrentam miséria em países importadores de alimentos, como Líbano, Iêmen, Sudão e Somália. Consumidores pobres em países ricos estão lutando para colocar comida na mesa.

Crises na oferta causadas pela pandemia de Covid-19 e a invasão russa da Ucrânia foram o estopim dessa explosão de fome. Mas ela apenas expôs as graves fragilidades subjacentes em nosso sistema alimentar.

Isso inclui a forte dependência de muitos países das importações de alimentos, sistemas de produção arraigados, especulação financeira e ciclos de pobreza e dívida. Mercados de grãos disfuncionais e a bonança recorde desfrutada pelos comerciantes de grãos são sintomas dessas falhas.

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Há décadas, quatro empresas dominam o comércio global de grãos e pelo menos 70% do mercado. Elas são conhecidas coletivamente como ABCD (Archer-Daniels-Midland, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus). A estatal chinesa COFCO e alguns outros concorrentes na Ásia estão agora se juntando ao ABCD para brigar pelos lucros crescentes. A Cargill relatou um aumento de 23% nas receitas para um recorde de US$ 165 bilhões em meados de 2022. E durante o segundo trimestre do ano, Archer-Daniels-Midland teve seus maiores lucros de todos os tempos.

Diante da disparada do preços dos alimentos disparam, o aumento da fome e da perspectiva de ainda mais escassez de oferta, a injustiça de tal especulação põe em evidência a falha de mercado abjeta. Os aumentos dos preços aconteceram apesar das abundantes reservas públicas e privadas de grãos. Não há correlação entre os lucros exorbitantes dos comerciantes de grãos e o que eles estão entregando em termos de segurança alimentar ou sustentabilidade. Os ABCD não conseguiram cumprir suas funções básicas de garantir que os alimentos cheguem às pessoas e a um preço estável.

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Profits of the big four grain giants 1995-2021

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Graphic courtesy of Jennifer Clapp

Também falta transparência em relação aos estoques de grãos dos ABCD, assim como garantia de que eles sejam liberados em tempo hábil. Em vez disso, os gigantes de grãos têm um incentivo para conter os estoques na expectativa de preços mais altos.

Mas enquanto essas empresas estão registrando altos lucros, outras estão sentindo os efeitos do sistema alimentar que ajudaram a projetar. O sistema globalizado de distribuição de alimentos just-in-time pode ser rapidamente interrompido em um único ponto. O sistema é altamente especializado, linear e projetado para otimizar fluxos de alto volume, partindo da suposição de que as condições serão estáveis. É eficiente para os ABCD lidarem com apenas um punhado de cultivos – variedades padronizadas de regiões de produção especializadas ao longo de rotas de transporte centralizadas. Mas quando o sistema sofre um choque, o sistema pode ser estilhaçado. O verdadeiro teste de qualquer sistema é como ele funciona sob pressão e em condições inesperadas. Quando se trata de proteger as cadeias alimentares do mundo, a resiliência é fundamental – ainda mais em um mundo que enfrenta condições climáticas cada vez mais extremas.

O nível de monopólio nos mercados de grãos também está contribuindo para seu fracasso. Os mercados globais de grãos são mais concentrados que o setor de energia e ainda menos transparentes. Os gigantes de grãos exercem tanta influência sobre os mercados e o desenvolvimento de políticas governamentais que não há incentivos para mudar ou alienar seu poder. Essa é uma característica compartilhada com muitas outras partes da cadeia “agroalimentar”, desde monopólios de sementes e agroquímicos até máquinas agrícolas e produção de carne, conforme documentado em um novo relatório do ETC Group. E todos eles são substancialmente de propriedade do mesmo conjunto de empresas de gestão de ativos: State Street, Vanguard e Blackrock.

O que pode ser feito?

Um imposto único sobre os lucros imerecidos das gigantes de grãos ajudaria temporariamente a corrigir a falha do mercado. Também liberaria bilhões para esforços de segurança alimentar, refletindo os impostos sobre os lucros recordes dos gigantes dos combustíveis fósseis na Índia, Reino Unido, Alemanha e em breve na UE.

Mais transparência sobre os mercados de grãos é fundamental. O caso nunca foi tão forte para o sistema de informações de mercados agrícolas da ONU (AMIS) incorporar estoques de alimentos e dados comerciais de grandes comerciantes de cereais, para reduzir a especulação e o risco de bolhas econômicas.

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O modelo just-in-time também precisa ser revisto. Os sistemas alimentares devem ter capacidade de reserva como um amortecedor contra a interrupção da produção ou do comércio. A Toyota foi pioneira na fabricação just-in-time na década de 1960 e seria imitada por todas as outras indústrias. Mas, ao contrário de suas montadoras rivais, a Toyota sempre se certificou de que sua cadeia de suprimentos fosse diversificada e os centros de fabricação descentralizados. Assim, tornou-se mais à prova de choque. Para os sistemas alimentares, isso significaria redes de reservas regionais de grãos controladas conjuntamente por diferentes governos e redes regionalizadas de alimentos mais diversos, variedades de cultivos, sementes, rotas comerciais, empresas e produtores. As mudanças climáticas dão maior urgência à tarefa de diluir o risco, priorizando a diversidade de cultivos, produtores e rotas de abastecimento.

Em última análise, os ABCDs deste mundo são os sujeitos errados para nos tirar das múltiplas crises enfrentadas pelo sistema alimentar. Os produtores indígenas e de pequena escala do mundo domesticaram mais de 7 mil cultivos. São 6.988 a mais do que são negociados regularmente pelos ABCD. Suas colheitas e cadeias alimentares não globalizadas são a verdadeira diversidade e resiliência de que precisamos para suplantar nossa dependência insegura dos ABCD.

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