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# Tendências políticas e ação cidadã em 2022: o que nos espera?
- URL: https://www.opendemocracy.net/pt/tendencias-politicas-acao-cidada-2022/
- Published: 2022-02-15T00:01:00.000Z
- Updated: 2026-04-21T21:49:40.000Z
- Description: Este ano veremos mais protestos, mobilização climática, ataques à democracia, luta contra o populismo de direita – e esperança
- Author: Inés M. Pousadela
- Tags: Analysis, #Migrated, Crime, justice & law, Economics, Environment, #pt, #Import 2026-04-10 10:30, #ImagesUploaded, #appended-excerpt

O primeiro mês de 2022 passou como um pesadelo. No Cazaquistão, vimos a repressão brutal de um movimento que exige mudanças profundas. Burkina Faso tornou-se o último país a sucumbir ao poder militar, enquanto a Rússia mobilizou um número assustador de tropas para a fronteira com a Ucrânia, aumentando o espectro da guerra. O que o resto do ano nos reserva?

## Aumento de preços de alimentos e combustíveis

O custo de vida vem aumentando em todo o mundo. As necessidades básicas, principalmente alimentação e combustível, parecem ser as que mais aumentaram. Este é o indicador mais previsível de protestos populares.

Em cada país, a forma dos protestos depende em parte do grau de democracia do regime e da abertura do espaço cívico. Onde as liberdades e os direitos são amplamente respeitados, os protestos contra o custo de vida devem ser esporádicos, mas quando persistentes e em grande escala podem levar a concessões governamentais, compromisso com o diálogo ou até mesmo grandes reformas.

Mas os protestos em contextos autoritários e repressivos, onde outras formas de expressão de dissidência são bloqueados, devem ser generalizados e massivos, abrangendo uma ampla variedade de demandas além de seu estopim inicial. O povo pressionará não apenas para substituir os líderes políticos, mas também para mudar o sistema.

Esses protestos serão recebidos com repressão violenta. Em alguns casos, essa repressão será decisiva, embora não consiga dissipar o descontentamento profundo, que buscará outras oportunidades para ressurgir. Em outros, as forças de segurança estarão ao lado dos manifestantes, levando a avanços. Os [protestos no Cazaquistão](https://lens.civicus.org/kazakhstan-demands-for-radical-change-met-with-lethal-response/?ref=opendemocracy.net) são apenas os primeiros deste ano: outros virão e, algumas vezes, os manifestantes vencerão.

## Nova onda de mobilização climática

A mobilização do movimento por justiça climática, um dos fenômenos mais importantes da sociedade civil nos últimos anos, será retomada e intensificada este ano. Ao tomar as ruas, ativistas colocam a crise climática na agenda política. Os [resultados da COP26, em última análise decepcionantes](https://lens.civicus.org/cop26-elitist-summit-leaves-us-far-from-climate-justice/?ref=opendemocracy.net), são um convite para mais uma vez pressionar os processos institucionais nas ruas.

Com grandes marchas, greves climáticas e crescentes exemplos de desobediência civil não-violenta, o ímpeto climático voltará a crescer antes da COP27, no Egito, onde os governos serão instados a se comprometerem com cortes de emissões mais ambiciosos. O movimento de ação climática permanecerá global, mas as mobilizações em grande escala ocorrerão nos países do Norte Global, em parte porque o espaço este tipo de mobilização em países como o Egito é muito limitado e em parte para instar os governos ocidentais a assumir a liderança moral, reduzir suas emissões e financiar a transição do Sul Global.

Outras táticas complementarão a ação nas ruas, algumas comprovadas e outras ainda em fase de testes. Os litígios climáticos aumentarão e novos desenvolvimentos judiciais significativos podem ser esperados, como a decisão na [Holanda de 2021, que forçará a Shell a se comprometer a reduzir suas emissões](https://lens.civicus.org/climate-activists-take-to-the-courts/?ref=opendemocracy.net). O ativismo dos acionistas em relação aos fundos e financiadores de combustíveis fósseis se intensificará, com os fundos de pensão, em particular, sob crescente pressão para investir em alternativas aos combustíveis fósseis.

## Ataques mais profundos à democracia

É provável que a regressão democrática se aprofunde, com prováveis golpes de Estado. Depois de [Guiné](https://lens.civicus.org/guinea-no-timetable-for-democracy/?ref=opendemocracy.net), [Mali](https://lens.civicus.org/mali-military-has-no-plan-to-cede-power/?ref=opendemocracy.net), [Sudão](https://lens.civicus.org/democracy-in-sudan-back-to-square-one/?ref=opendemocracy.net), [Tunísia](https://lens.civicus.org/tunisia-a-dangerous-slide-away-from-democracy/?ref=opendemocracy.net) e agora Burkina Faso, outros exemplos devem vir, especialmente devido às pressões dos protestos desencadeados pelos preços dos alimentos e combustíveis, bem como o fraco desempenho e a natureza de muitos regimes que têm interesses sobre esses aumentos.

> Um setor significativo da população deve inicialmente apoiar os golpes

Dado o péssimo desempenho dos governos, um setor significativo da população deve inicialmente apoiar os golpes, mas deve se distanciar quando as promessas de uma transição democrática começarem a colapsar diante das manobras dos golpistas para se agarrarem ao poder.

Os golpistas aproveitarão a distração da comunidade internacional. Eles explorarão a preocupação dominante dos governos ocidentais com o controle da migração, estabilidade e segurança em detrimento dos direitos humanos e a intenção de Estados repressivos como China e Rússia de minar o sistema internacional e explorar oportunidades econômicas na autocracia.

Os estados autoritários cada vez mais levarão sua repressão além das fronteiras para silenciar os dissidentes exilados. Seguindo os passos da Rússia, a [Bielorrússia](https://lens.civicus.org/belarus-goes-after-its-exiles/?ref=opendemocracy.net) sequestrou e matou dissidentes exilados em 2021\. [Ruanda](https://lens.civicus.org/the-long-reach-of-rwandan-repression/?ref=opendemocracy.net) fez algo semelhante. A ausência de uma resposta global coordenada, em um sistema internacional enfraquecido, apenas encorajará outros.

Uma tendência importante a ser observada é o crescente uso indevido do sistema de alertas internacionais da Interpol, ou seja, [notificações compartilhadas](https://www.interpol.int/es/Como-trabajamos/Notificaciones/Ver-las-notificaciones-rojas?ref=opendemocracy.net) por meio do sistema de comunicação da polícia para extraditar pessoas por crimes graves. Estados como China e Turquia os estão usando cada vez mais contra dissidentes exilados. Agora que a Síria, o país com a maior população de refugiados do mundo, voltou ao sistema da Interpol, os abusos devem aumentar.

## Luta contra o populismo de direita

A maré tóxica do populismo de direita ainda não acabou – e continuará pressionando as democracias estabelecidas. Em alguns países, como Portugal, continua a aumentar. Em ano de eleições presidenciais na França, a direita monopoliza o debate sobre migração. Nos Estados Unidos, o trumpismo está ganhando espaço nas estruturas que supervisionam as eleições. Mas também veremos avanços entre a oposição em seus esforços de refutar o populismo de direita e expulsar seus líderes.

Uma abordagem interessante, tentada com sucesso na [República Tcheca](https://lens.civicus.org/a-defeat-for-populism-in-the-czech-republic/?ref=opendemocracy.net) no ano passado, é a organização de frentes unidas para remover líderes populistas. Os partidos deixaram de lado suas diferenças para se apresentarem como amplas coalizões, derrotando o primeiro-ministro Andrej Babiš, regularmente acusado de conflitos de interesse e corrupção. Em 2022, esse modelo será posto à prova contra um peixe muito grande: o húngaro Viktor Orbán. Até agora, manteve-se a unidade dos partidos que se unem na tentativa de limpar a maltratada democracia do país.

> No Brasil, parece que apenas uma tentativa de insurgência ao estilo Trump poderia salvar Jair Bolsonaro

Na Índia, o nacionalista de direita Narendra Modi parecia imparável, mas sua derrota diante das manifestações de agricultores, que se recusaram a parar de protestar, enfraqueceu sua reputação antes das eleições. Enquanto isso, no Brasil, parece que apenas uma tentativa de insurgência ao estilo Trump poderia salvar Jair Bolsonaro.

## Nova geração de ativistas

O mais importante é que o final da história ainda não foi escrito. A história continuará a ser feita graças a uma sociedade civil renovada, rejuvenescida e energizada que continuará a mobilizar a criatividade para capturar a imaginação e fazer manchetes. Longe da velha imagem das ONGs, uma nova geração, jovem e diversificada, está forjando seus próprios movimentos sociais fora das estruturas convencionais.

Junto com o movimento climático, movimentos por justiça racial, direitos das mulheres e LGBTQI+, direitos indígenas e direitos de migrantes e refugiados continuarão a mudar a maneira como vemos o mundo e nossas vidas. Liderados cada vez mais por jovens líderes, mulheres e membros de comunidades excluídas, eles encontrarão uma voz e exigirão o que é seu por direito. Eles criarão suas próprias estruturas de participação e afirmarão o valor de suas visões de mundo. Em contextos autoritários, eles literalmente arriscam seus corpos. Em algumas instâncias, eles vão refazer a política, como no Chile, onde um presidente emergiu do movimento de protestos que nomeou um gabinete diversificado e marcado pelo presença de mulheres.

Esses são os movimentos que vão inspirar e dar esperança de que, em mais um ano tumultuado, haja vitórias para comemorar.

Este ano veremos mais protestos, mobilização climática, ataques à democracia, luta contra o populismo de direita – e esperança