O principal objetivo de um autocrata é permanecer no poder indefinidamente. Nessa busca, ele permanece sempre alerta para aproveitar qualquer oportunidade que surja ou para provocar uma crise que aumente o fervor nacionalista e o reforce como um líder carismático capaz de defender seu povo e conduzir a nação à dignidade e à vitória. Para isso, um conflito de fronteira, provocado ou não, pode ser uma ferramenta particularmente útil em tempos de tribulação.
Vimos isso com Putin na Ucrânia (invasão em grande escala) e com Netanyahu em Gaza (reação exagerada a um ataque terrorista); vimos isso com a junta militar argentina nas Malvinas e podemos ver isso agora na Venezuela. A reivindicação de soberania de Nicolás Maduro sobre o território de selva escassamente povoado conhecido como Essequibo, em disputa com a Guiana, seu vizinho ao sul, contém elementos comuns aos exemplos citados acima.
Embora seja improvável que esse novo conflito de fronteira leve a uma guerra em grande escala, em um mundo particularmente instável, com tensões geopolíticas em alta, brincar com fogo pode provocar um incêndio na região. É importante ressaltar que a Venezuela é aliada da Rússia, que lhe fornece armas, do Irã, com quem compartilha interesses estratégicos, e da China, que oferece crédito financeiro para a Venezuela em troca de petróleo e, ao mesmo tempo, mantém negócios lucrativos com a Guiana.