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O desenvelhecimento do mundo

Os poderes que produziram o envelhecimento do mundo e fizeram dele a indústria da sua eternização vão ser cada vez mais confrontados com o desaforo causado pelo seu desaforo. Irão envelhecer? Español English

O desenvelhecimento do mundo
"O capitalismo... normaliza, destrói, mata", Berlin.
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Na vida pessoal, o envelhecimento depende menos da idade fisiológica do que da idade social. A idade social é inversamente proporcional à capacidade de pensar, sentir e viver o novo como futuro, como tarefa, como presente por experimentar. É-se tanto mais jovem quanto maior é a capacidade de viver a vida como se ela fosse uma experiência de constantes recomeços que apontassem, não para repetições do passado, mas antes para futuros – mapas por explorar e caminhos por trilhar com disponibilidade para enfrentar riscos, assumir ignorâncias e responder a desafios novos. É o futuro como antecipação, como "ainda não", como latência, como potência. Como sabemos que nunca vivemos senão no presente, o futuro é sempre o presente incompleto, o presente como tarefa, como acontecimento, pelo qual somos pessoalmente responsáveis. Ter futuro é ser dono do presente. Pelo contrário, é-se tanto mais velho quanto mais se vive convencido de que o mundo já decidiu por nós o que podemos esperar ou não esperar e que, consequentemente, o futuro está fechado para nós. Envelhecer é, pois, viver de repetição ou em repetição como se cada repetição fosse única e irrepetível. É passar os dias como se fossem os dias a passar com a indiferença do passeio diário.

São três os modos de viver de repetição: como se o passado fosse um eterno presente e tanto as rotinas como as instituições e as notícias o confirmassem dia-a-dia (envelhecimento por morte viva); como se o passado tivesse passado e tivesse deixado no seu rasto um vazio inabarcável que só o jogo de cartas, a televisão ou a conversa sobre doenças pode iludir (envelhecimento por vida morta); ou, finalmente, como se tanto o passado como o futuro estivessem igualmente distantes e inacessíveis, criando assim um pânico insuperável que só o gasto excessivo do corpo no álcool, nas drogas, na academia, na igreja ou na terapia pudesse iludir (envelhecimento por vida sem morte).

Nas sociedades de corpos industrializados e informatizados em que vivemos foram criados serviços públicos e privados para dar assistência às pessoas que têm mais dificuldades com a repetição da repetição. No fundo, trata-se de normalizar a decadência. Nestas sociedades o envelhecimento é sempre o resultado de um esgotamento crónico de energias gastas ou por gastar. Consiste em pôr convictamente o letreiro de lotação esgotada à porta do teatro da vida, mesmo que há muito se não represente nele uma peça, ou mesmo que nunca se tenha feito nele um primeiro ensaio. No caso das duas primeiras formas de envelhecimento, o objectivo é investir no passado como se não tivesse passado. Consiste cada vez mais na comercialização de serviços de co-envelhecimento. São, em geral, eficazes porque a invenção da repetição oculta astuciosamente a repetição da invenção. A ideia básica é que as experiências de envelhecimento, por mais insuportáveis, são sempre mais suportáveis quando partilhadas. No caso da terceira forma de envelhecimento, em vez da omnipresença do passado, procura-se a omniausência do passado, um eterno presente que dispensa o futuro de ter de assombrar os vivos com as más notícias que ainda não são. São as técnicas de envelhecimento por rejuvenescimento. É uma versão modificada da metáfora do filme "The Curious Case of Benjamin Button", baseado no conto de F. Scott Fitzgerald, no qual o protagonista nasce velho e vai rejuvenescendo à medida que o tempo passa até morrer bebé. Nas técnicas de envelhecimento por rejuvenescimento o relógio da estação de caminho de ferro da pequena cidade do sul dos EUA, em vez de andar para trás, pára, e com ele pára o tempo também.