
O grande filósofo do século XVII, Bento Espinosa, escreveu que os dois sentimentos básicos do ser humano (afectos, na sua linguagem) são o medo e a esperança, e sugeriu que é necessário um equilíbrio entre ambos, pois medo sem esperança leva à desistência e a esperança sem medo pode levar a uma auto-confiança destrutiva.
Esta ideia pode ser transferida para as sociedades contemporâneas, sobretudo num tempo em que, com o ciberespaço, as comunicações digitais interpessoais instantâneas, a massificação do entretenimento industrial e a personificação massiva do microtargeting comercial e político, os sentimentos colectivos são cada vez mais "parecidos" com os sentimentos individuais, ainda que sejam sempre agregações selectivas. É por isso que a identificação com o que se ouve ou lê é hoje tão imediata ("é isto mesmo que eu penso", mesmo que nunca se tenha pensado sobre "isto" anteriormente), tal como o é a repulsa ("eu bem tinha razão para odiar isto", mesmo que nunca se tenha odiado "isto" anteriormente).
Os sentimentos colectivos transformam-se assim facilmente numa memória inventada, no futuro do passado dos indivíduos. Claro que isto só é possível porque, na ausência de uma alternativa, a degradação das condições materiais da vida torna-se vulnerável a uma ratificação reconfortante do status quo.