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Até quando vamos deixar matar os defensores de tanta beleza?

A construção da Barragem de Belo Monte na Amazônia brasileira ameaça aniquilar culturas únicas, fazendo desaparecer tradições, rituais, línguas e conhecimentos da floresta. Español English

Até quando vamos deixar matar os defensores de tanta beleza?
Uma criança indígena do rio Xingu, Brasil - Imagem do documentário Terra Preta, de Miguel Pinheiro
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Difícil imaginar um lugar com maior diversidade humana que a região do Médio-Xingu, no coração da Amazónia Brasileira. Adentrar na floresta é uma viagem a passados que se sobrepõem a uma velocidade estonteante, dos escravos usando a mata como esconderijo, aos seringais e seus colonos da borracha, à abertura da Transamazônica - estrada que rasgou a floresta como agente de “civilização” e trouxe pioneiros de todo o Brasil, até aos cosmopolitas empresários que chegaram com a ciclópica barragem Hidroelétrica de Belo Monte: gigantesca mas de limitada visão.

Estas ondas de migração foram desfilando aos olhos das populações nativas do lugar. As várias etnias indígenas locais são parte de um Brasil invisível, e guardiãs de cânticos e preces e práticas muito antigas, por eles inventadas nas encruzilhadas dos rios com a floresta. Durante séculos garantiram num pedaço de natureza o sustento e o saber para prosperarem por gerações, pelo cultivo da macaxeira e do cará, pela caça da paca e do tatu, pela pesca do tucunaré e da piranha muitas vezes feita diretamente do topo de suas casas de palafitas, que mais parecem as pernas esguias de um engenhoso Dom Quixote saindo da superfície da água, enquanto bem do lado as crianças se lambuzam da farinha ainda quente. É a terra que dá. Ou pelo menos, este era meu primeiro olhar de encantamento na aurora Amazônica.

Antes da construção da Barragem de Belo Monte, uma das maiores do mundo, Raoni Metuktire, liderança Kayapó e candidato ao Nobel da Paz de 2020, tentou avisar os povos em volta da devastação que se seguiria. Em vão. Pouco ele poderia fazer quando grupos organizados visitavam as aldeias, numa complexa teia de relações, prometendo às lideranças locais extraordinárias riquezas, “Cada aldeia terá uma pista de aterragem e cada chefe de aldeia um avião particular! Vocês serão ricos!!”, escutei de um arrependido cacique da etnia Xikrin.