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A pandemia dispersou os protestos massivos em Delhi, mas a arte ficou como legado

Acompanhamos as históricas manifestações pacíficas lideradas por mulheres muçulmanas. A arte virou a nossa voz e o nosso mural uma homenagem às suas histórias, suas memórias e ao seu movimento. English

Gayatri Ganju Shilo Shiv Suleman
12 May 2020
Mulher pinta mural em Shaheen Bagh, Delhi, India 2020
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Gayatri Ganju

Centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas na Índia em dezembro de 2019 para protestar contra a decisão do parlamento do país, que aprovou uma controversa lei de cidadania e criou um novo Registro Nacional de Cidadania.

Hoje, somente cidadãos não-muçulmanos de países vizinhos que entraram na Índia antes de 2015 estão habilitados para requerer cidadania no país. Os mais de 200 milhões de muçulmanos que moram na Índia temem agora perder sua cidadania e, literalmente, seu chão.

O coração desses protestos foi uma área muito unida, de maioria muçulmana, na zona leste de Delhi, chamada Shaheen Bagh, o “Jardim do Falcão”. Centenas de mulheres se reuniam ali todos os dias, onde montaram cozinhas coletivas e onde estudantes organizaram grupos de voluntários para dar apoio a manifestações pacíficas, que chegaram a contar com mais de 100 mil pessoas.

À medida que as histórias do bairro se espalhavam, online ou de boca em boca, ficou claro que era lá que deveríamos estar. Somos parte do Fearless Collective (Coletivo Sem Medo, em tradução livre), um projeto de arte feminista sul-asiático que trabalha com comunidades locais para que recuperem seu espaço e representem a si mesmas de maneira afirmativa e empoderada.

O coletivo começou em 2012 com a artista Shilo Shiv Suleman e desde então realizou trabalhos em dez países, onde criou mais de 40 murais comunitários. Construímos monumentos participativos junto a comunidades de mulheres do mundo inteiro. Acreditamos que a criação desses murais, por si só, é um ato de resistência. A beleza nos obriga a parar e olhar para além de nós mesmas. A arte nos torna visíveis umas às outras. Em Shaheen Bagh, a arte nos uniu.

“A arte nos torna visíveis umas às outras. Em Shaheen Bagh, a arte nos uniu.”

A Índia é conhecida como a maior democracia do mundo. Há 72 anos, os fundadores da nossa nação chegaram a um acordo e imaginaram a Índia com esperança, o que se refletiu em nossa Constituição: um país soberano, secular, democrático e apaixonado por todos os seus cidadãos, sem distinção, independente do deus que cultuam ou de como o fazem.

Em 1947, nos dividimos, de maneira dolorosa. Milhões de muçulmanos atravessaram a fronteira e emigraram para o Paquistão. Os muçulmanos que ficaram na Índia receberam a promessa de proteção e pertencimento ao país, mas uma e outra vez essa promessa foi descumprida.

Em janeiro de 2020, no Dia da República, quando a Índia comemora a aprovação daquela Constituição, nos unimos às mulheres de Shaheen Bagh para protestar contra a nova lei de cidadania, para sentar ao lado delas, ouvir e pintar.

O último inverno registrou recordes de temperaturas baixas e, ainda assim, durante mais de 45 dias mulheres se reuniram sob um frio cruel, em manifestações pacíficas.

Aquele era um espaço de luto e de revolta, claro. Mas também era um espaço de insurreição islâmica, de amor (“Ishq) e de afirmação de valores da identidade islâmica sul-asiática.

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Manifestantes ocupam Shaheen Bagh no fim da tarde, Delhi, India 2020 | Gayatri Ganju

Ao longo dos anos, a diversidade islâmica foi sistematicamente apagada da cultura indiana. A história Mogol está sendo removida dos livros didáticos, os monumentos são rebatizados e nossos idiomas estão sendo convertidos ao sânscrito.

Em Shaheen Bagh e através do movimento de resistência fomos capazes de ver o todo, uma Índia completa, conformada por todas as suas partes. Fomos testemunhas do despertar de mulheres muçulmanas, especialmente as da classe trabalhadora, que há muito tempo são marginalizadas e, num passado recente, foram ficando cada vez mais invisíveis.

Os protestos foram liderados por trabalhadoras muçulmanas, que bloquearam ruas e entoaram cânticos. Elas reivindicavam seu lugar na linha de frente do movimento, abraçavam sua fé e o lugar dela na nação.

Quando nós chegamos, as ruas de Shaheen Bagh já estavam cobertas por cartazes de protesto, instalações de arte e mostras de foto. Todos os dias chegavam mais artistas, vindas de todo o país, que ofereciam seus corações e suas habilidades. Nós, mulheres, falamos sobre nossas histórias locais e nacionais, e também imaginamos como seriam nossos futuros. Aquele era um espaço de amor, mas não estava livre de medo.

"Escutamos barulho de tiros e nos preparamos para correr para salvar nossas vidas"

Era uma noite fresca no começo de fevereiro quando escutamos barulho de tiros. De repente, começamos a receber mensagens de amigos e jornalistas pelo WhatsApp, que nos avisavam que o protesto estava a ponto de ser desmobilizado de maneira violenta por um grupo fundamentalista hindu.

Estávamos pintando um dos nossos maiores murais até aquele momento, que retratava duas mulheres - uma jovem manifestante chamada Khushboo e uma mulher mais velha. Aquela era uma imagem do verdadeiro poder intergeracional. Nós conseguimos fugir, mas aquelas duas mulheres e as outras de Shaheen Bagh não tiveram outra escolha senão ficar ali e enfrentar os fundamentalistas hindus: aquele lugar era sua casa.

“Aap log chalejao,” (‘Vocês precisam ir embora'), foi o que nos disse Samir, um pintor da comunidade. Tivemos que nos virar para sair dali, enquanto voluntários pularam os andaimes e as crianças que tinham vindo pintar conosco tiveram que correr pelo descampado e pular um muro.

Nós nos preparamos para correr para salvar nossas vidas. No entanto, em alguns minutos o grupo de fundamentalistas foi expulso da área pelos moradores e a tensão foi dissipada.

Amor sim, medo não

Tremendo de medo, mas determinadas a mostrar nossa solidariedade, voltamos na manhã seguinte. A multidão no lugar dos protestos havia sido dramaticamente reduzida, mas havia uma enorme urgência em reunir mais pessoas para fazer frente a uma possível escalada na tensão.

Enquanto caminhávamos em direção ao mural inconcluso, vimos Razi, um jovem estudante que esperava ao lado do andaime. Seu rosto se iluminou e ele começou a desembalar caixas de pintura. Minutos depois Samir se juntou a nós.

Foi então que Aliya, sete anos, e seu irmão mais novo, Farhan - que viram seu bairro se transformar em um lugar histórico - também apareceram e, na ponta dos pés, tentavam alcançar o ponto mais alto possível do muro para pintar seus pássaros favoritos.

“A arte virou a nossa voz. Com ela defendemos nosso protesto e também uns aos outros”

Um por um, os voluntários regressaram. Quase como membros do mesmo corpo, sem necessidade de palavras, todos começamos a pintar. Naquele dia, não havia violência em Shaheen Bagh. Nós escolhemos a criação coletiva e a beleza em lugar do medo.

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The Fearless Collective is a group of women who street art with local communities | Gayatri Ganju

Quando terminamos de traçar as últimas linhas douradas do nosso mural, caligrafistas, poetas e artistas performáticos urdus se juntaram a nós. Na última noite de pintura, a comunidade se reuniu para recitar poesia.

O vendedor local de chá recitou um poema que ele havia ouvido quando era criança. Nós entoamos cânticos com lemas dos camponeses de Punjab, que haviam viajado a noite inteira de ônibus para trazer doações de grãos aos manifestantes. Nós ouvimos discursos das mulheres mais velhas e das crianças de Shaheen Bagh, cada uma delas segurava o microfone com uma força inabalável.

“Enquanto houver sol e lua

Haverá revolução

Vida longa à revolução!”

Aquelas eram nossas companheiras pintoras. Aqui mora o poder desse momento, cada pessoa era um poço de beleza com a capacidade de criar. A arte virou a nossa voz. Com ela nós defendemos nosso protesto e também uns aos outros.

O coronavírus chegou, mas a beleza resiste

Poucas semanas depois, tivemos que enfrentar outra ameaça: um vírus que parou o mundo. Em Shaheen Bagh, manifestantes decidiram respeitar as medidas de distanciamento social ditadas pelo governo. Onde havia dezenas de milhares de pessoas reunidas, resta agora apenas algumas mulheres em um ato simbólico de resistência.

No fim de março, quando o país inteiro entrou em isolamento obrigatório, as autoridades de Delhi retiraram os cartazes e os estandartes que haviam sido criados durante as manifestações pacíficas. Como nunca, ficou claro para nós o poder da arte como dissidência.

Vamos nos lembrar para sempre dos cartazes que as pessoas carregavam, das crianças que os pintaram enquanto suas mães e avós estavam sentadas para protestar pacificamente, das pessoas que apareceram trazendo comida, cobertores e flores para nutrir os espíritos.

As mulheres de Shaheen Bagh nos contaram que o falcão que dá nome ao bairro voa tão alto que nenhum outro pássaro é capaz de fazer dele uma presa. No jardim do falcão, vimos que o que permite a essas mulheres alçar voo é um profundo e retumbante amor sem fim pelo país ao qual pertencem e por todas as comunidades que o conformam.

Nosso mural de 18 metros ainda está no mesmo lugar, como um testamento e um monumento às mulheres de Shaheen Bagh, às suas histórias, suas memórias e ao seu movimento. No mural foi pintada também uma declaração escrita por elas de maneira colaborativa, que é a prova da crença coletiva em tudo que testemunhamos em Shaheen Bagh:

Ishq Inquilab

(meu amor é a revolução)

Mohabbat Zindabad

(que o amor viva para sempre)

‘Democracy Reloaded: Inside Spain's Political Laboratory from 15-M to Podemos’

Can leaderless networks thrive? What did Spain’s radical Left movement owe to social media? And what was the legacy of the protest camps that occupied Spain’s city squares in 2011?

Join us on Thursday 3 December, 5pm UK time/12pm EST to hear Grace Blakeley talk to Cristina Flesher Fominaya about her new book.

Grace Blakeley Staff writer at Tribune magazine and author of ‘Stolen: How to Save the World from Financialisation’ and ‘The Corona Crash: How the Pandemic Will Change Capitalism’

Cristina Flesher Fominaya Editor-in-chief of Social Movement Studies Journal; her previous books include ‘Social Movements in a Globalized World’ and ‘The Routledge Handbook of Contemporary European Social Movements’

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