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China investiu U$ 66 bilhões no Brasil em uma década – e investimentos são duradouros

47% dos investimentos chineses na América do Sul tiveram como destino o Brasil

Tulio Cariello
23 Setembro 2021, 12.00
Oleg Elkov/Alamy Stock Photo

A China se consolidou como um dos maiores investidores estrangeiros no Brasil a partir de 2010, como mostrou o estudo publicado recentemente pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Ela chega a rivalizar com os Estados Unidos e países europeus, que há décadas têm presença consolidada como investidores estrangeiros no país. O Brasil é o principal destino de investimentos chineses na América do Sul e recebeu US$ 66,1 bilhões, o equivalente a 47% do total aportado, na última década até 2020.

Entre 2007 e 2020, empresas chinesas fizeram grandes investimentos na área de eletricidade, o que atraiu 48% do valor total, seguidos pelos setores de extração de petróleo, com uma fatia de 28%, e mineração, com 7%. Por outro lado, se analisarmos os investimentos pelo número de projetos – e não pelo valor, mesmo com o setor de eletricidade seguindo na liderança, com 31% do total, há um aumento considerável da participação da indústria manufatureira, que fica em segundo lugar, com 28%. Sob essa ótica, aumentam também as participações de projetos em tecnologia da informação e agricultura, ambos com 7%, e serviços financeiros, com 6% do total.

Essas empresas chinesas investiram em todas as regiões do Brasil, com projetos confirmados em 23 das 27 unidades federativas – ainda que o estado de São Paulo tenha atraído quase um terço de todos os empreendimentos. Em análise geral, o que mais chama a atenção é a velocidade com que esses atores recém-chegados conseguiram ingressar em praticamente todo o território nacional, tendo levado pouco mais de uma década para deixar um legado de construção de fábricas, projetos de infraestrutura e aquisições de empresas de diversos segmentos.

O fluxo dos investimentos chineses no Brasil, todavia, é irregular. O ano de 2010 marca o pico do valor aportado pelo país asiático, com US$ 13 bilhões. A partir de então, houve quedas e aumentos pontuais, movimento verificado também na análise por número de projetos, que chegou ao máximo de 32 em 2018.

Em 2020, os investimentos chineses tiveram um tombo de 74%, para US$ 1,9 bilhão – o menor valor registrado desde 2014

Entre 2019 e 2020, a situação não foi diferente. Houve expectativas sobre o futuro dos investimentos chineses no Brasil após o início do governo de Jair Bolsonaro, que já demonstrava resistência a firmar parcerias com o país asiático, tendo até mesmo declarado que os chineses estariam “comprando o Brasil”. Apesar disso, o que seu viu em termos institucionais foi um movimento com mais continuidade do que rupturas.

Em 2019, houve o restabelecimento da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN), liderada pelo vice-presidente Hamilton Mourão. Além disso, visitas de Estado, no Brasil e na China, dos presidentes Bolsonaro e Xi Jinping evidenciaram a distância entre o discurso crítico de parte da cúpula da administração federal e a realidade do diálogo bilateral.

Naquele ano, o valor dos investimentos chineses confirmados no Brasil cresceu 117%, somando US$ 7,3 bilhões, apesar da queda de 8,2% nos investimentos diretos da China em todo o mundo no mesmo período. Pela primeira vez, o Nordeste atraiu o maior  número de projetos chineses — 34% do total por região – e o maior valor em aportes, com mais da metade do capital investido no Brasil.

Já em 2020, os investimentos chineses tiveram um tombo de 74%, para US$ 1,9 bilhão – o menor valor registrado desde 2014. Esse cenário menos dinâmico não foi um ponto fora da curva dos investimentos globais, mas reflexo de uma conjuntura internacional marcada pelos desafios da pandemia de Covid-19. De acordo com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, os investimentos externos no mundo chegaram a US$ 1 trilhão em 2020, uma queda de 35% em relação ao ano anterior, marcando um valor quase 20% menor do que o registrado após a crise financeira mundial em 2009. No Brasil, houve queda de 50% dos investimentos estrangeiros em território nacional, segundo dados do Banco Central.

O mais importante é perceber o caráter de longo prazo dos investimentos chineses no Brasil

Apesar de eventuais altos e baixos nas trocas comerciais, o mais importante é perceber o caráter de longo prazo dos investimentos chineses no Brasil. O desenvolvimento desses projetos não apenas cria empregos no país – inclusive em regiões distantes dos grandes centros urbanos –, como também moderniza a infraestrutura, dinamiza a economia e cria redes de conectividade entre indústrias.

Para que o Brasil possa maximizar seus ganhos com a atração de novos projetos chineses, é fundamental que governos, setor privado e academia sigam buscando entender a ascensão da China em todo o mundo, não apenas como um investidor capaz de aportar grandes volumes de capital, mas também como uma potência tecnológica. Na relação sino-brasileira, ainda há potencial para ir muito além dos setores já plenamente estabelecidos, com grandes sinergias, por exemplo, nas áreas portuária, de transporte e logística, bem como nas novas fronteiras da tecnologia da informação.

Esse artigo se baseia no estudo do autor Investimentos chineses no Brasil: histórico, tendências e desafios globais (2007-2020)


Este artigo foi publicado originalmente no Diálogo Chino. Leia o original aqui.

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