Os incêndios que estão devastando as planícies da Bolívia e que consumiram mais de um milhão de hectares afetando reservas florestais, áreas protegidas e parques nacionais, refletem as tensões ambientais geradas pelo modelo extrativista agrícola que impulsiona o governo boliviano, que nos últimos anos vem favorecendo os setores do agronegócio e pecuária, por meio de leis e acordos políticos, gerando uma aliança agro-estadual em torno da ocupação do solo como fonte de riqueza.
Dada a queda nos preços de hidrocarbonetos e minerais em 2013, o governo considera adequado promover o aumento das monoculturas de exportação (terceiro produto com maiores exportações), para aumentar sua contribuição para o PIB nacional, que na última década teve um crescimento médio de 4,5%, dados presumidos pelo governo. Assim, em 2015, os agronegócios e o governo nacional prepararam uma Cúpula Agrícola (CA), onde serão definidos os detalhes da nova expansão agrícola, consolidando os pactos políticos entre os dois atores.
Um dos objetivos da CA é expandir a fronteira agrícola em 10 milhões de hectares até 2025, a leste sobre a Chiquitania boliviana (área atualmente afetada) e a nordeste em terras adjacentes ao departamento de Beni, para exportação de monocultura (soja, sorgo, milho), pecuária, produção de etanol e biocombustíveis. Para fins desse objetivo, é necessária a promoção e o fortalecimento de parcerias com as elites proprietárias de terras e as empresas transnacionais de alimentos (Monsanto, Cargill, Bayern Syngenta), responsáveis pela cadeia produtiva da monocultura através do fornecimento de sementes transgênicas e insumos químicos aos produtores; sua transformação em commodities (bolo, farinha de soja), e sua comercialização para mercados internacionais (CAN). Tudo isso, através do cluster agrícola estabelecido em Santa Cruz desde os anos noventa.