Já afeta quase metade do planeta. Em poucas semanas o COVID-19 se transformou em pandemia, obrigando impensáveis paralisações e confinamentos. Desde então, iniciou-se uma série de debates sobre os possíveis paradigmas de uma nova normalidade e a urgência de uma outra globalização. Na maioria dos casos, retóricas reformistas que se utilizam de reflexões amadurecidas há décadas em circuitos intelectuais contra-hegemônicos. Em outros, indagações sobre a regulação das tecnologia mais recentes e seus papéis em um novo contrato social, deixam uma brecha de incertezas sobre se estamos a caminho de um mundo mais solidário ou autoritário.
Os primeiros estudos avalizados pela comunidade científica, permitem aferir que a humanidade teve sorte. A pandemia é causada por um vírus muito mais temido por sua capacidade de disseminação do que por sua letalidade. Se muitos estamos em quarentena, não é por outro motivo que o de evitar o contágio simultâneo de toda a população, manter o máximo de normalidade nos sistemas de saúde para que atendam, tanto os casos mais graves de COVID19, como as necessidades sanitárias de rotina. Nenhum governo condiciona a agenda de restabelecimento da rotina à fabricação de uma vacina.
Além de fatores demográficos, urbanísticos, culturais e socio-econômicos, ficou evidente que a intensidade da atual privação social e da paralisia econômica é proporcional à sujeição dos sistemas de saúde às regras da administração empresarial. Ficaram evidentes os limites do aclamado dinamismo global, incapaz de oferecer insumo hospitalar adequado para potenciais 5% da população com os sintomas mais agudos da doença. A incapacidade de zonas ricas do hemisfério norte em lidar com a quantidade repentina de enfermos (Lombardia, Madrid, Nova York e outras), somente comprova que estes sistemas sanitários funcionavam perfeitamente bem, de acordo com suas diretrizes administrativas. O que estava rotundamente equivocado eram, e continuam sendo, os princípios do mercado aplicados às esferas que escapam de sua alçada. A Suécia, tradicional exemplo de Estado de bem-estar social, considerou estar preparada para se abster da quarentena. Dentro de alguns meses, a comparação com seus vizinhos nórdicos mais precavidos, evidenciará os equívocos globais das últimas décadas.