ourEconomy: Opinion

Trump conquistou mais eleitores latinos em 2020. Os democratas podem reconquistá-los?

Os democratas devem construir uma narrativa que reúna a classe trabalhadora multirracial e multigeracional em torno de questões populares universais.

Adam Almeida
31 December 2020, 12.00am
Apoiadores cubanos de Trump em um comício do Police Lives Matter em Miami, Flórida, 17 de junho de 2020
|
Alberto E. Tamargo/SIPA USA/PA Images

Após a eleição de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos, comentaristas da mídia americana e políticos do establishment têm tentado explicar por que os democratas venceram o cargo mais alto das eleições, mas fracassaram nas demais corridas. Alguns líderes do partido, como a ex-senadora Claire McCaskill e o atual deputado Jim Clyburn, atribuíram a perda de "eleitores moderados" a questões divisivas de "identidade", como aborto, direitos trans e o movimento 'defund the police'. Já outros vêm focando na aparente deserção de eleitores não-brancos para os republicanos.

O apoio vacilante dos eleitores não-brancos é amplamente citado como sendo fundamental para o fracasso dos democratas em virar a Flórida ou o Texas nas eleições presidenciais de novembro. Atenção especial foi dada aos padrões de votação do eleitorado latino. Em bairros fortemente cubanos em Miami e distritos de imigração mexicana ao longo da fronteira com o Texas, os eleitores guinaram drasticamente para a direita. Em alguns condados, o apoio a Donald Trump aumentou em até 55 pontos.

Na realidade, o êxodo nacional de eleitores latinos para Trump é em grande parte uma falsa narrativa. Em todo o país, latinos votaram em Biden na mesma proporção que votaram em Hillary Clinton em 2016 (cerca de dois terços votaram nos democratas contra um terço que votou para os republicanos). Os blocos eleitorais não-brancos, amplamente listados como afro-americanos, latinos e asiático-americanos, foram cruciais para obter vitórias decisivas dos Democratas nos centros urbanos de estados decisivos, como Filadélfia, Milwaukee, Detroit e Atlanta.

Então, se a maioria dos eleitores latinos apoiou Biden, por que, em locais específicos como Miami e sul do Texas, os democratas perderam apoio entre os latinos?

Compreendendo a identidade “latina”

No léxico americano, “latino” frequentemente significa um grupo racial não-branco de pessoas originárias de países ao sul da fronteira entre os Estados Unidos e o México. Mas na realidade, os latinos compreendem uma amálgama multirracial e multi-étnica de pessoas, a maioria das quais é originária de ex-colônias espanholas e portuguesas. O termo engloba desde o povo indígena Aymara dos Andes até a pequena burguesia italiana de Buenos Aires, bem como os descendentes de escravos da África Ocidental que vivem nas favelas do Rio de Janeiro ou os cristãos palestinos que residem no Chile. “Latino” simplesmente aplana todas essas pessoas em um grupo aparentemente homogêneo.

Cubano-americanos, nicaraguenses e venezuelanos imigraram para a Flórida quando governos de esquerda em seus antigos países ameaçaram sua condição de burgueses dentro da classe dominante

Essa terminologia geral obscurece as hierarquias racializadas e classistas que existem na América Latina; hierarquias que definem a experiência de imigração para quem cruza a fronteira dos Estados Unidos. A experiência do migrante é baseada em muitos fatores, incluindo o país de origem, classe e status de imigração.

A compreensão dessa dinâmica fornece uma visão sobre alguns dos padrões de votação relatados após a eleição do mês passado. Nos últimos 60 anos, a maioria dos cubano-americanos (assim como os nicaraguenses e mais recentemente os venezuelanos) imigrou para Miami e outras cidades no sul da Flórida quando governos de esquerda chegaram ao poder em seus antigos países e ameaçaram sua condição de burgueses dentro da classe dominante. Os cubanos nos Estados Unidos, que são, em média, mais instruídos do que a comunidade imigrante latina em geral, tendem a ganhar acima da renda média e se identificam mais amplamente como "brancos".

A afirmação de que os interesses de classe e as motivações desses eleitores são os mesmos da diversificada comunidade latina nega a maneira como raça e identidade operam na realidade política. É muito explicável que subconjuntos específicos do eleitorado latino apoiem Trump, que conquistou os corações da classe média americana em 2016.

O que é interessante, entretanto, é o aumento do apoio a Trump entre texanos de origem mexicana da fronteira sul, que são mais pobres e menos propensos a se identificarem como brancos. Muitos apontaram para os valores católicos conservadores e tradicionais desse grupo demográfico e a "cultura machista" para explicar o apoio a figuras de "homem forte" como Trump.

No entanto, 77% dos eleitores latinos na Califórnia, predominantemente descendentes de mexicanos, votaram em Biden. O mesmo grupo demográfico ajudou a virar o Arizona e outras comunidades católicas, como os porto-riquenhos, votaram em número recorde nos democratas em todo o país. Quanto ao conservadorismo tradicional, os mexicanos-americanos na fronteira sul, assim como latinos em Los Angeles e Las Vegas, deram vitórias importantes para o candidato socialista Bernie Sanders, que obteve um apoio sem precedentes nas primárias democratas, dando-lhe o apelido de “Tio Bernie”.

Enquanto isso, o establishment democrata negligenciou as contribuições dos eleitores latinos durante a campanha presidencial. A congressista Alexandria Ocasio-Cortez foi a única política latina a discursar na Convenção Nacional Democrata de 2020 durante o horário nobre – e teve apenas 60 segundos de fala. Biden e sua campanha não consideravam os latinos como peça importante em seu trajeto rumo à vitória.

Re-imaginar o "dividir para reinar" da direita

No entanto, apesar de o establishment democrata se recuse a reconhecer a diversidade do eleitorado latino, os republicanos perceberam que, em uma nova era de marcantes mudanças demográficas, eles não podem continuar a explorar as mesmas velhas táticas de divisão. Uma classe média e multirracial emergiu nos Estados Unidos, onde os 20% mais ricos concentram 79% da riqueza agregada dos Estados Unidos – o que significa que as concepções tradicionais de raça e classe, que geraram maiorias conservadoras nas últimas décadas, devem ser reinventadas.

Os democratas devem impulsionar políticas e unir a classe trabalhadora multirracial e multigeracional em torno de questões mais amplas, tais como a exploração dos trabalhadores

Os exemplos mais notáveis dessas novas divisões são as concepções de "elites costeiras de Nova York e Califórnia" versus "o meio do país". Ambas as narrativas efetivamente extirpam a classe trabalhadora predominantemente negra e parda ao longo da costa, desde aqueles que vivem nos complexos pobres do Bronx até aqueles nos acampamentos sem-teto de West Oakland. Esses grupos estão sendo deixados para trás pela elite americana, assim como os produtores de leite de Iowa e os mineiros de carvão dos Apalaches.

A retórica de Trump sobre os "imigrantes que vieram da maneira certa" versus aqueles que "são ilegais" é outro exemplo de uma nova identidade política em construção. Isso foi assumido não apenas pela base nacionalista branca de Trump, mas por mexicanos-americanos que vivem no país legalmente e desejam se distinguir daqueles que ficam indocumentados pela política doméstica americana e um regime violento de fronteira.

Desse modo, os republicanos exploraram criativamente preconceitos e divisões estabelecidas nas comunidades não-brancas para criar novos inimigos imaginários por meio de processos de formação de raça.

Um caminho ousado para a esquerda

A esquerda deve ser criativa na construção da solidariedade entre grupos que compartilham uma experiência comum de sofrimento material além das linhas raciais. Apoiar políticas universalistas, como a provisão de saúde para todos e universidades e faculdades públicas gratuitas, oferece uma oportunidade para reconstruir essa coalizão diversificada.

Biden parece ter começado a reconhecer suas falhas de campanha, julgando pela notícia da proposta de nomeação do apoiador do Medicare para Todos, Xavier Becerra, como secretário de saúde e serviços humanos. Liderança da minoria no Senado, Chuck Schumer, também está começando a se inclinar para o cancelamento da dívida do empréstimo estudantil como um método de reduzir a lacuna de riqueza racial entre mutuários negros e latinos e graduados brancos.

Os democratas devem impulsionar ainda mais estas políticas e unir a classe trabalhadora multirracial e multigeracional em torno de questões mais amplas, tais como a exploração dos trabalhadores e o desmembramento de famílias e comunidades nas mãos da fiscalização das fronteiras. Estas questões devem ser enquadradas como aquelas que afetam não apenas pessoas indocumentadas e comunidades não-brancas, mas que moldam as condições de vida e de trabalho mais amplas de toda a classe trabalhadora.

Should we allow artificial intelligence to manage migration?

How is artificial intelligence being used in governing migration? What are the risks and opportunities that the emerging technology raises for both the state and the individual crossing a country’s borders?

Ryerson University’s Canada Excellence Research Chair in Migration and Integration and openDemocracy have teamed up to host this free live discussion on 15 April at 5pm UK time/12pm EDT.

Hear from:

Ana Beduschi Associate professor of law, University of Exeter

Hilary Evans Cameron Assistant professor, faculty of law, Ryerson University

Patrick McEvenue Senior director, Strategic Policy Branch, Immigration, Refugees and Citizenship Canada

Chair: Lucia Nalbandian Researcher, CERC Migration, Ryerson University

Economics journalism that puts people and planet first. Get the ourEconomy newsletter Join the conversation: subscribe below

Comentários

Aceitamos comentários, por favor consulte ás orientações para comentários de openDemocracy
Audio available Bookmark Check Language Close Comments Download Facebook Link Email Newsletter Newsletter Play Print Share Twitter Youtube Search Instagram WhatsApp yourData