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Uma bruxa na fogueira midiática

Um relato de uma cobaia no laboratório da desinformação brasileira

Marcia Tiburi
21 Junho 2021, 12.00
Marcia Tiburi entrevistada por Francesc Badia em seu ateliê de pintura em Pantin, Paris, em 5 de junho de 2021
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Cristina Juliana Abril/Todos os direitos reservados

Há um sentimento estranho em ser, ao mesmo tempo, sujeito de uma pesquisa e objeto da mesma pesquisa. Para quem, como eu, estava acostumada a falar do ponto de vista da análise e da produção de conceitos, fosse em sala de aula, fosse em público, de repente, se tornar um “caso” em uma guerra indireta que inclui um verdadeiro experimento de laboratório na cultura da desinformação instaurada no Brasil é algo que obriga a pensar a partir de um lugar diferente.

O trauma costuma afundar as pessoas no silêncio, e há muitas formas de silêncio que nenhuma autoconfissão biográfica ou desabafo será capaz de superar; mesmo assim é preciso falar sobre o que não se pode falar.

A urgência do trabalho do discernimento se renova nesse momento em que as estratégias do psicopoder tomam conta das mentes e todo o cenário da subjetividade no qual a linguagem é produzida encontra-se sitiado.

O laboratório do psicopoder

Como professora de filosofia, escrevo buscando corresponder à urgência que o momento nos pede. Levantar alguns aspectos relacionados à campanha de difamação que aconteceu contra mim a partir de janeiro de 2018 e que culminou com a minha saída do Brasil no final daquele ano é o que me cabe no espaço desse texto.

Por isso, vou expor o sentido do que vem a ser o experimento de laboratório no qual o Brasil foi transformado e do qual eu, como vários outros, faço parte na condição de cobaia. Estamos sob uma guerra cultural e, dentro dessa guerra, há um verdadeiro trabalho operacional, o que entendo por laboratório, do que venho chamando de psicopoder, no qual se fazem experimentos com a linguagem com vistas a determinados fins.

Psicopoder é o cálculo que o poder faz sobre o que as pessoas pensam, sentem e desejam, sobre o espaço subjetivo que as leva a agir conforme necessidades do sistema. Refiro-me ao sistema capitalista organizado sobre a desinformação que busca substituir o pensamento crítico e o velho paradigma da verdade.

Ao escrever, me vejo como a cobaia que tivesse escapado do laboratório e que agora olha de fora do vidro tentando entender como desmontar o mecanismo no qual outras cobaias ainda se encontram enredadas. Lembrando de Platão, a cobaia gostaria de mostrar o túnel que leva para além da caverna, mas os projetadores de sombras mantém as outras cobaias, bem como as vítimas em geral, bem hipnotizadas, de tal modo que jamais possam ver a abertura pela qual poderiam sair.

Lembro ainda de um conto de Kafka chamado “Na Colônia Penal”. No conto, o condenado tem uma sentença escrita por uma máquina de tortura em sua própria pele, mas o conteúdo da sentença lhe é ocultado. Eu reescreveria esse conto, colocando o condenado como um sobrevivente que tenta ler a sentença escrita nas suas costas, o que ele não faz sem desespero.

No meu conto, ele buscaria um espelho no qual refletir a imagem tentando facilitar a leitura, mas mesmo assim, ele veria a imagem invertida e descobriria que um segundo gesto, um esforço mental, seria necessário. Ao tentar ver direito, superando o problema ótico, o condenado estaria mergulhado na reflexão, mas a lucidez adquirida traria ainda mais pavor quanto ao conteúdo da escrita que ele acaba de decifrar.

Além disso, é a condição de professora de filosofia que não deve abandonar o seu papel histórico, o da análise, da crítica e do esclarecimento, o que me move a falar sobre o meu caso, agora que vivo fora do meu país, justamente por ser uma cobaia que escapou viva do laboratório no qual ele vem sendo transformado há um certo tempo.

Nos anos 90, Moniz Bandeira falou que a América Latina era um laboratório de experimentos neoliberais. A partir dele, muitos começaram a falar a partir dessa imagem do laboratório econômico-político envolvendo Chile e Brasil e, bem depois, muitos outros países.

Ora, o capitalismo neoliberal tem uma lógica de saque das economias, mas a condição de laboratório implica construir parâmetros para que determinadas práticas neoliberais – basicamente o saque geral sobre economia locais, incluso o conhecimento que é visto pelo sistema como um capital e não como algo que pertence à humanidade – possam ser implantado em outros países.

Pois bem, meu interesse com esse texto é compreender a figura da cobaia que emerge no experimento neoliberal em curso. Por cobaia entendo o corpo vivo objetificado sobre o qual um experimento se dá. O capitalismo é sempre um trabalho sobre o corpo, que o reduz a partir de seduções, docilizações ou violações. Usando o termo cobaia como categoria analítica, busco entender a incidência do experimento sobre os corpos, mas também a instância espiritual do corpo concreto, a subjetividade de uma maneira geral.

Exterminar os intelectuais críticos, comprometidos e engajados é essencial para o sistema. Os intelectuais eliminados servem como exemplos

Busco também entender o destino da subjetividade crítica dos corpos críticos. Espera-se da subjetividade em geral a docilidade, a participação na imbecilização mundializada que acompanha a mundialização da economia. Remetendo a outros trabalhos nos quais venho escrevendo sobre os processos de esvaziamento cognitivo, afetivo e ativo, aqui gostaria de colocar foco sobre a subjetividade crítica que me permite falar do tipo específico de cobaia pela qual fui tomada.

De um lado, é evidente que se espera que toda subjetividade crítica desapareça, mas ao mesmo tempo, fazê-la desaparecer não é tão simples. Não é possível simplesmente eliminar a humana capacidade de pensar, ou, do ponto de vista do sistema, exterminar todos os professores, intelectuais, trabalhadores da cultura e da educação, agentes do pensamento crítico em geral. Por mais que se faça a guerra contra os estudos de gênero ou se trabalhe com o “delírio da escola sem partido”, não é possível exterminar de uma vez os teóricos críticos que atrapalham a lógica do sistema econômico-político autoritário em suas roupagens religiosas e midiáticas.

Porém, sempre se pode eliminar alguns que valerão de exemplo para que não surjam outros. Exterminar os intelectuais críticos, comprometidos e engajados é essencial para o sistema. Os intelectuais eliminados servem como exemplos.

Já os intelectuais ornamentais, ou seja, aqueles que concordam com o sistema porque foram domesticados por ele, que que lustram os rostos com algum verniz “humanista”, são deixados em paz porque nos sistemas cínicos o descomprometimento é sempre premiado.

Dito isso, podemos passar à análise do conceito de cobaia midiática .

Uma cobaia midiática

Quando um país ou território é transformado em laboratório, a população é transformada em vítima ou cobaia. Embora próximos, esses termos implicam uma diferença. A cobaia é certamente a vítima de um experimento de laboratório. Mas antes de ser vítima, a cobaia é criada ou capturada para fins instrumentais, ou seja, ela tem um uso ontologicamente específico.

Na condição de objeto a ser usado, a cobaia sempre é manipulada por um sujeito que produz sobre ela o seu experimento. Diferentemente de uma vítima pura, não se mata uma cobaia por matar; ela nunca é morta sem antes ter sido usada para fins específicos em um experimento cujos resultados inspiram ações.

O termo cobaia remete ao experimento de laboratório, não a um acontecimento casual, não a um acaso da vida cotidiana. Experimentos visam analisar reações. Em muitos casos, espera-se para ver se a cobaia vai morrer ou sobreviver e o seu exemplo pode orientar novos experimentos.

A campanha de difamação contra mim não visa apenas destruir a minha imagem, mas também o valor do pensamento crítico

Quero aqui lançar o conceito de cobaia midiática pelo qual é possível compreender o caráter do experimento no qual muitos de nós, vítimas de fake news, fomos usados. No meu caso, não se visa com a campanha de difamação ainda em curso contra mim apenas destruir a minha imagem, considerando a condição de intelectual pública que ocupo, mas destruir por meio da destruição da minha imagem, de uma professora de filosofia crítica, feminista e com consciência de classe e posição política, o valor do pensamento crítico. Duas fake news específicas foram usadas para isso. Eu falarei sobre elas.

Antes de contar o meu “caso”, verificando nele o conceito que emerge nesse momento, é preciso ter em vista o estado de sítio ou, se preferirmos, o estado de exceção da linguagem sobre o qual venho falando há pelo menos uma década (desde um livro chamado “Olho de Vidro – a televisão e o estado de exceção da imagem”), para referir-me à manipulação e ao consumismo da linguagem. No estado de exceção da linguagem, experimentamos o paradoxo de viver livremente aprisionados. Essa condição de liberdade no aprisionamento, ou de aprisionamento como liberdade, define o que produzimos em termos de linguagem hoje em um círculo vicioso.

O estado de exceção da linguagem implica o paradoxo que acabo de enunciar e sobre o qual precisamos ter consciência se quisermos escapar dele. O sujeito que hoje se manifesta nas redes sociais na crença de que pratica a liberdade de expressão, na verdade, não percebe que a pratica sob coação. Uma coação inerente ao programa prévio dentro do qual um indivíduo é aparelhado. A liberdade de expressão continua sendo liberdade de expressão na superfície, mas é, ao mesmo tempo, reduzida à simples liberdade da violência.

Transformada em liberdade de expressão de violência, tanto a liberdade quanto a expressão estão, ao mesmo tempo, ameaçadas. Infelizmente, é uma violência que aniquila o outro, que o emudece, interrompe a comunicação e destrói a própria expressão. Em termos simples, podemos dizer que o estado de sítio dos meios de produção da linguagem é posto em cena por seus proprietários em um consórcio envolvendo oligarquias e seus poderes.

Com a desinformação, vivemos hoje em um ambiente mentalmente nocivo, em que relações interpessoais e institucionais ficam comprometidas e perdem o sentido

É nesse cenário que nos encontramos aprisionados como corpos marcados por preconceitos de raça, classe, gênero, sexualidade, capacidade e assim por diante. Presos em mistificações, enganações, somos todas e todos vítimas da uma episteme nova, a da desinformação. A desinformação constitui um ambiente mental, ou seja, um ambiente linguístico no qual é produzida a cognição de cada um. Vivemos hoje em um ambiente mentalmente nocivo, em que relações interpessoais e institucionais ficam comprometidas e perdem o sentido.

Podemos falar de um cenário geral de injustiça epistemológica, de crime epistemológico perpetrado diariamente pelos donos dos meios de produção da linguagem, todos aqueles que tem “voz” e as usam de modo antiético e antipolítico, seja nos púlpitos das igrejas, seja nos telejornais mentirosos, seja nas redes sociais viralizantes.

A guerra cultural da extrema-direita

A guerra cultural da extrema-direita começou de maneira programática em 2013, organizada como guerra híbrida pela qual se quebra a resistência do inimigo sem lutar, como já estava claro desde o clássico “A Arte da Guerra” de Sun Tzu. Contudo, no Brasil de 2013 era bem difícil perceber as estratégias e as táticas dessa guerra. Em 2013, a multidão consciente se misturou às massas inconscientes manipuladas pela extrema-direita e pelo conjunto das oligarquias midiáticas e ficou difícil distinguir o que estava acontecendo. Depois disso, as instituições seguiram com ações golpistas, e o Brasil afundou no descaso, no abandono e na morte com o agravamento da pandemia instrumentalizada pelo governo.

Como professora de filosofia e ocupando um espaço de intelectual pública, me acostumei a ser alvo de amores e ódios ao longo dos anos. Contudo, em 2015, quando publiquei um livro chamado “Como conversar com um fascista”, percebi que as críticas mudaram de tom. O livro surgiu quando o golpe que aconteceria em 2016 já estava anunciado. Minha fala pública sobre o livro junto à denúncia do golpe, fizeram subir ainda mais o tom daqueles que me viram como alvo, seja com minha obra, seja com minhas análises políticas feitas em todo tipo de meios de comunicação. Eu recebia xingamentos e ataques em mensagens por meio de redes sociais, mas entendia que isso fazia parte do jogo envolvendo o meu livro; afinal, ninguém era obrigado a gostar dele.

Meu livro já incomodava muita gente por sua denúncia da ascensão fascista, e o fato de que eu analisasse o golpe que estava em curso nesse processo em um livro que fala muito sobre o ódio, produzia ironicamente ódio em relação a mim. A denúncia que fiz da misoginia (desde o Tribunal Russell ocorrido em 19 e 20 de julho de 2016 no Rio e amplamente ignorado pela imprensa hegemônica e até mesmo por grande parte da imprensa alternativa) despertou a atenção daqueles que já estavam organizados para descobrir alvos para seus fins.

Os ataques a Dilma Rousseff se espalharam para todas e todos que a defenderam. Ela era o núcleo do alvo e ao seu redor, nos demais círculos em torno do alvo principal, estavam pessoas e instituições que também deveriam ser alvejados para o sucesso do empreendimento.

A guerra híbrida foi avançando. A deposição da presidenta aconteceu através do conluio entre poder legislativo, judiciário e mídia, o pool golpista que não se arrepende de seu gesto, embora já tenha sido amplamente reconhecido o caráter de golpe do impeachment de 2016. Ora, o poder usurpado precisava ser mantido para que o neoliberalismo pudesse avançar.

Comparar o que foi feito com os artistas em 2017 com o exemplo de Bolsonaro na sua ascensão ao poder é fundamental para entender o procedimento de alavancamento midiático

Nesse caso, o campo da cultura era estratégico, devido ao capital midiático potencial desse campo. Se até 2016 o ódio tinha sido um combustível manipulado pela mídia e pelos demais produtores de discurso como a igreja do mercado neopentecostal neoliberal, a partir de então uma nova manobra radical foi operada na ordem dos afetos, na qual o ódio permaneceu fundamental, mas agora o alvo era a população fragilizada intelectualmente e que, no entanto, tem o poder do voto.

Os ataques à “esquerdistas”, “comunistas”, “feministas”, a “intelectuais” e líderes em geral, atingia um alvo mais difuso por meio das artes. Artistas cujas performances pudessem despertar algum interesse moral, a partir do qual a manipulação midiática seria possível, foram perseguidos, atacados e demonizados. Os ataques eram publicitários, visavam produzir polêmica e altos índices de audiência, por meio de materiais produzidos pela imprensa de extrema-direita e que seriam difundidos pelo “gabinete do ódio” em estratégias de viralização por todas as redes sociais.

A produção de capital midiático corria solta sem nenhum escrúpulo, por meio de assaltos midiáticos, de saques e roubos de imagens sem que as vítimas pudessem se defender. Deputados, senadores e até o próprio presidente da República se elegeram em 2018 usando personagens como alavancas para se auto-impulsionarem como assunto das redes. A falta de escrúpulos usava discursos homofóbicos e misóginos, apelava para a retórica da pedofilia e todo tipo de ataque e preconceito contra temas defendidos por quem luta pela liberdade e uma vida justa.

Os personagens-alavanca tem o estatuto de objetos em produções de narrativas audiovisuais com o objetivo de produzir capitalização midiática. Comparar o que foi feito com os artistas em 2017 com o exemplo de Bolsonaro na sua ascensão ao poder é fundamental para entender o procedimento de alavancamento midiático.

Bolsonaro era um político obscuro que durante quase 30 anos foi um deputado improdutivo. Ele usou Jean Wyllys para se impulsionar ao colocá-lo como foco de seus ataques homofóbicos: colocando sombra sobre o objeto, o atacante conseguia orientar os holofotes para si.

Foi nesse mesmo sentido que o MBL (Movimento Brasil Livre) atacou estrategicamente a exposição Queermuseu, de Porto Alegre, levando ao fechamento da mesma. O caso de Wagner Schwartz com sua performance La Bête que aconteceu no MAM, em 2017, participa da mesma estratégia. Material com imagens da performance desse artista é até hoje usado pela extrema-direita no Brasil e em outros países como objeto de mistificação.

Ora, pessoas que carregavam os marcadores acima e tinham potencial de produção de capital midiático, se tornavam alvo dos agitadores fascistas no ano de 2017. Esse foi o ano em que publiquei “Ridículo Político” – sobre o risível, a manipulação da imagem e o esteticamente correto. A extrema-direita continuava com seus bombardeios diários, mas eu ainda entendia como pura reação de pessoas que se sentiam ofendidas com os títulos dos meus livros, mesmo que não os lessem. Nesse livro, a tese central é justamente que o ridículo foi transformado em estratégia de capitalização política. De minha parte, havia esperanças de que a situação pudesse ser algo contornável, mas a minha tese se confirmou na eleição de 2018.

Alvo do Movimento Brasil Livre

Em janeiro de 2018, eu fui escolhida como foco dessa orquestração pelo MBL. Tudo mudou de tom quando dois ou três jovens invadiram uma entrevista que eu iria dar a um jornalista do sul, Juremir Machado, para quem eu sempre dei entrevistas na ocasião do lançamento de meus livros. Naquele época começavam os movimentos de lançamento de um livro chamado “Feminismo em Comum”.

Logo vim a saber que não se tratava de uma invasão, mas de um acordo que havia sido feito pelas minhas costas entre jornalista e MBL. Tanto a produção do programa quanto o próprio jornalista esconderam de mim que haveria a presença desse grupo, cuja estratégia é produzir agitação. A característica da agitação é permanecer na zona cinzenta, no espaço de fronteira entre democracia e autoritarismo. A propósito, o MBL é um grupo de típica agitação fascista no sentido que Adorno deu a essa expressão. São agitadores que levam à troca de regime da democracia para o autoritarismo fascista. Não são meninos ingênuos, como muitos acreditam – são assaltantes midiáticos, que roubam imagens, munidos de uma câmera de telefone celular. Não respeitam o direito de imagem e usam como tática a mesma produção de perplexidade e estupor que é usada por Jair Bolsonaro desde a época de sua campanha e que segue agora no governo desastroso que ele realiza.

Como figura pública, professora de filosofia, escritora de livros diversos – muitos deles provocativos –, feminista, esquerdista, comunista, mas também uma figura relativamente conhecida no contexto em que poucos filósofos ou professores tem evidência midiática, eu era um prato cheio para a produção de polêmica que encheria os cofres do capital midiático dos saqueadores.

Fui lançada na fogueira moderna, a fogueira digital, na qual estou sendo queimada em intensidades diversas de labaredas desde janeiro de 2018

Há muito tempo, meu nome é constantemente associado à “polêmica” com o objetivo de diminuir a consistência do que eu digo e escrevo, em função de meu modo crítico de ver o mundo. Há misoginia nisso, mas muito mais o ataque ao pensamento crítico e à liberdade de expressão crítica. A liberdade de expressão autoritária corre solta. Esse modo crítico de ver o mundo deve ser combatido, em si mesmo, pelo sistema que eu critico, a saber o capitalismo em todas as suas expressões.

Mas voltando à rádio onde sofri a emboscada midiática no começo de 2018. Há um ditado alemão que diz que “se há dez pessoas numa mesa, um nazista chega e se senta, e nenhuma pessoa se levanta, então existem onze nazistas numa mesa” e naquele dia com a chegada do MBL, eu agi nessa direção. Naquele momento, eu não tolerei o intolerável e me tornei, eu mesma intolerável. Então a artilharia contra mim intensificou-se mais do que jamais e, usando um argumento tão ingênuo como hipócrita, os inimigos perguntavam: por que Marcia Tiburi, que havia escrito “Como conversar com um fascista”, fugiu sem falar com um? De fato, o título do meu livro era uma provocação e não um manual de receitas para dar suporte e palco a aproveitadores e defensores do fascismo. Quem não o leu, não entendeu nem sequer o título, mas soube usá-lo com má fé.

Passei a ser caçada como uma bruxa pelo MBL e fui lançada na fogueira moderna, a fogueira digital, na qual estou sendo queimada em intensidades diversas de labaredas desde janeiro de 2018.

Naquela mesma noite (24 de janeiro de 2018), o auto-de-fé era o caso mais falado do Twitter, rede que por muito tempo, e inclusive naquele momento, eu não utilizava ativamente. Era o dia do farsesco julgamento de Lula no STF, mas o MBL tinha colocado a faísca nas redes e a minha fogueira era mais visualizada do que a que atingiu Lula por um longo tempo.

A opinião se dividiu e muita gente ficou do meu lado. Contudo, 48 horas depois, surgiu a primeira fake news: um recorte de vídeo de uma entrevista que eu havia dado num programa da TV Cultura em 2015, da época de lançamento de “Como conversar com um fascista”. Certamente, alguém passou a noite procurando material para produzir mais lenha para a figueira virtual.

Naquele recorte de vídeo, transformado em vários cards espalhados para viralizar, eu aparecia dizendo “sou a favor do assalto” e “há uma lógica no assalto”. A entrevista está na internet e nela se pode constatar a argumentação como um todo, em que inclusive apareço dizendo que não era a favor do assalto, que estava construindo um argumento para sinalizar para o absurdo de certas opiniões.

O fato de ser uma entrevista na qual não se podia elaborar cada detalhe do que era dito favorecia o recorte. Há um caráter de impressão em toda imagem e quanto mais resumida, rápida e emblemática seja, mais ela tem o poder de “colar”, ou seja, de ser impressa na mente do observador. A propaganda se utiliza dessa estratégia.

Diante disso, a exigência analítica não tem nenhum poder. Não há poder da reflexão diante do gozo que se alcança pelo “conteúdo” estarrecedor ou bizarro adquirido através desses recortes de segundos . Desde então, memes e cartazes se espalharam nos grupos de extrema-direita e seguem circulando até hoje.

Por muito tempo, consultei advogados que desaconselharam entrar na justiça porque a tarefa de provar a verdade no sistema da difamação seria imensa e desgastante e a chance de vencer pelo direito o que estava condenado na cultura da difamação e da desinformação tornava a tarefa inviável. No meu caso, não se tratava de uma calúnia ou ameaça em específico, mas de milhares de ataques e ameaças. Era claro que não era possível desmontar um esquema cultural apelando à justiça, ela mesma, altamente fascistizada.

Além disso, no meu caso, percebi que eu estava mais do que enredada em mentiras quando um “fact checking” que circulava na eleição de 2018, na qual fui candidata, dizia que eu realmente havia dito “eu sou a favor do assalto”. Eu estava enredada em uma teia de desinformação, em um verdadeiro ecossistema perverso.

Evidentemente, não havia como contestar o sentido que era dado à frase deslocada alegando o “contexto” do argumento, pois tanto “contexto”, quanto “argumento” não interessavam aos meus algozes e perseguidores e a todos os que gozavam com isso.

Além de tudo, o conteúdo do que eu dizia (sobre o qual já escrevi em artigos e livros e sobre o qual já falei em diversas entrevistas e palestras) tocava num ponto crucial: o capitalismo é um sistema de apropriação, um saque, um roubo, uma imensa violência sobre o que deveria ser considerado patrimônio comum. Se essa tese fosse compreendida, provavelmente as pessoas exploradas pelo capitalismo deixariam de ser defensoras do regime que delas abusa.

A tentativa de transformar uma professora de filosofia em uma “louca”, desqualificando assim a sua fala foi, e continua sendo, a estratégia da extrema-direita

Considerando outros recortes de falas minhas se pode ver o mesmo tom de difamação e a sedução pelo gozo dos espectadores. O mesmo se deu com um recorte de uma palestra feita em 2017, por ocasião do lançamento do “Ridículo Político”, no qual eu falo, em tom de brincadeira, sobre vários teóricos que teriam feito análises sobre o “ânus” e uso o termo coloquial para esse órgão corporal que é “cu”.

A extrema-direita faz circular desde então essa fala como se eu tivesse dito algo abominável. A estratégia de difamação é tão básica e evidente que o chamado “guru” da extrema-direita fala em “cu” todo o tempo, mas os mesmos que me xingam por isso consideram normal quando esse personagem da guerra cultural se pronuncia. Ou seja, o que está em jogo não é o conteúdo, mas o dispositivo do ataque mesmo em cima de um significante vazio como é “cu”.

A tentativa de transformar uma professora de filosofia em uma “louca”, desqualificando assim a sua fala foi, e continua sendo, a estratégia. A fala crítica e analítica é justamente o que mais incomoda ao projeto de guerra cultural da extrema-direita. É visível nesses produtos, que circulam sobretudo em redes como Facebook (rede da qual tive que sair por perceber que os milhares de ataques não cessavam e não podiam ser combatidos in loco) e WhatsApp, o projeto de destruição de uma imagem pública, algo que, na era da imagem como capital, configura um verdadeiro assalto e até mesmo um latrocínio midiático. Roubam sua imagem e matam você, depois de tê-la queimado na fogueira da internet, como eu disse acima, em intensidades diversas de labaredas.

De janeiro a junho de 2018, viajei por todo o Brasil para lançar “Feminismo em Comum” em livrarias e espaços culturais, como parte da “caravana literária” promovida pela editora Rosa dos Tempos. O MBL invadiu ou ameaçou invadir todos esses espaços. Jovens vestidos com camisetas do MBL e máscaras de Kim Kataguiri entravam nos locais dos eventos, mesmo quando tinham que esperar uma hora por uma senha na fila, ou até mesmo comprar o livro (medida que era usada para evitar a entrada de arruaceiros nos lançamentos).

Nesses eventos, pessoas foram espancadas, homens entraram armados até que, em novembro daquele ano, quando eu estava lançando outro livro, dessa vez um romance chamado “Sob os pés, meu corpo inteiro”, e fui convidada para um evento em Maringá, o MBL criou uma página chamada “ElaNão” e surgiu um rumor na cidade de que “acabariam com a raça dos petistas” que fossem ao evento.

Eu estava sendo transformada em uma presença-bomba que apenas eu mesma seria capaz de neutralizar, a saber, com a minha própria ausência. Assim me retirei para o exílio

Depois de muito pensar, tendo em vista que o segundo turno da eleição presidencial ainda estava em disputa, decidi em comum acordo com os organizadores que não eram petistas, nem de esquerda, mas eram democratas, manter a minha participação para não dar vitória antecipada aos agitadores fascistas.

A parte da cidade que defendia a democracia veio em peso ao evento, o esquema de segurança foi redobrado, todas as pessoas foram revistadas e um policial com um rifle ficou ao meu lado durante todo o debate. Foi nesse dia que decidi aceitar um convite que me havia sido feito por uma instituição internacional, City of Asylum, que protege escritores perseguidos e que acompanhava o meu caso há meses. Nesse dia, me dei conta de que eu poderia, de fato, ser morta e isso acendeu um alerta ainda maior em mim.

Durante todo o evento eu me perguntava de onde viria “o tiro no meio da testa” que me era prometido pelas redes sociais em centenas de mensagens dos mais diversos agentes. Marielle Franco havia sido assassinada em março de 2018 e isso era uma prova do pesadelo que poderia se repetir. Mas o alerta que soou mais forte foi de que as pessoas que vinham aos meus eventos também estavam correndo riscos. Estava claro que eu não poderia mais participar de nenhum evento público. Ninguém merecia morrer por estar em um evento em nome dos meus livros.

A cobaia midiática na qual eu havia sido transformada precisava sair da cena para preservar a própria vida e a vida de outros, meus leitores, que se tornavam indiretamente ameaçados. De cobaia midiática, usada para destruir a reputação do pensamento crítico, da lógica e da filosofia, à qual eu dediquei a minha vida, eu estava sendo transformada em uma presença-bomba que apenas eu mesma seria capaz de neutralizar, a saber, com a minha própria ausência. Assim me retirei para o exílio. Hoje leciono em uma universidade da França e dedico meu tempo ao ativismo feminista, à literatura e às artes visuais.

Por fim, gostaria apenas de dizer que continuarei na luta pela justiça epistemológica, ou seja, na luta pelo direito a viver com base na verdade. A cultura da desinformação precisa ser superada e não medirei esforços para isso.

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