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Cuba perdeu seu unicórnio azul, assim como a revolução

A ausência de crítica à repressão aos artistas do Movimento San Isidro mostra quantos acadêmicos, jornalistas e esquerdistas desatualizados ainda acreditam que Cuba alcançou um paraíso socialista.

Rut Diamint Laura Tedesco
18 December 2020
Manifestante no Restaurante Versailles em Miami, FL, EUA, em apoio aos artistas cubanos presos pelo governo
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Miami Herald/TNS/ABACA/ABACA/PA Images

Em 2017, escrevemos um artigo publicado nessas mesmas páginas sobre o extremo desconforto dos governos e acadêmicos da esquerda latino-americana em criticar o governo cubano ou enfatizar a necessidade de mudanças. E acrescentamos que a Europa, que no passado contribuiu para as transições democráticas na América Latina, não exerceu nenhuma pressão pela democratização de Cuba.

Três anos depois, questionamos mais uma vez a indiferença de dirigentes e partidos políticos da América Latina e, neste caso, também da Europa, em relação às práticas repressivas do governo cubano para com um grupo de artistas do Movimento San Isidro.

Em 2018, o governo cubano propôs o Decreto 349 para limitar a liberdade de expressão. Um grande número de artistas reagiu ao que consideraram mais uma afronta do governo à cultura. Em 2019, muitos desses artistas organizaram uma bienal paralela, denominada Uma Bienal Sem 349.

Desde então, artistas como Tania Bruguera, Luis Manuel Otero Alcántara, Nonardo Perea ou Yanelys Núñez Leyva começaram a ser perseguidos sistematicamente pela segurança do Estado. Desse confronto com o governo nasceu o Movimento San Isidro, assim denominado por estar localizado no bairro de San Isidro, no município de Havana Velha.

Luis Manuel Otero Alcántara, um dos fundadores do movimento, mora nesse bairro. Não tem escolaridade, é negro e tem 33 anos. Ele nasceu em um dos bairros mais pobres da capital, El Cerro, mas um dos mais ricos em cultura popular. A versão oficial diz que “o fabricado Movimento San Isidro, centro de um boom midiático orquestrado pela articulada rede de meios de comunicação a serviço dos interesses dos Estados Unidos, não representa de forma alguma o bairro humilde, trabalhador e revolucionário do qual tiraram seu nome".

Desde a criação do Movimento San Isidro, Luis Manuel vem sendo perseguido pela segurança do Estado quase diariamente. Nos últimos dois anos, ele foi preso 20 vezes.

No dia 7 de novembro, a polícia chegou à casa do rapper Denis Solís sem mandato de prisão. Dois dias depois, ele foi preso e condenado em um julgamento rápido a oito meses de prisão. Membros do Movimento San Isidro começaram a solicitar informações sobre seu paradeiro. O governo cubano se recusou a informar. Para pressionar o governo, alguns membros, incluindo Luis Manuel, iniciaram uma greve de fome e o governo iniciou uma campanha de difamação e repressão.

Na sexta-feira, 27 de novembro, um grupo de artistas sentou-se pacificamente às portas do Ministério da Cultura e pediu para falar com o ministro da Cultura, Alpidio Alonso Grau. Por fim, o vice-ministro da Cultura, Fernando Rojas, recebeu cerca de 30 artistas. Nessa reunião, chegou-se a um acordo sobre vários pontos para conversas futuras. No entanto, o governo cubano quebrou o acordo.

Embora Denis Solís ainda esteja preso, os integrantes do Movimento San Isidro foram soltos depois da reunião de 27 de novembro, mas continuam sendo vigiados. Claro, os meios de comunicação oficiais e as redes sociais disseminaram informações falsas sobre os jovens que falaram com o vice-ministro da Cultura. Notícias falsas foram usadas para criar acusações e traições que grande parte da população considera verdadeiras.

Diariamente, os cubanos que têm a coragem de pensar diferente do governo são detidos, perdem a conexão de internet ou têm membros da segurança do Estado à sua porta – tudo por algumas horas

Por outro lado, nos últimos dias de novembro, as redes sociais utilizadas pelos jovens cubanos se viram inundadas de mensagens de solidariedade, pedidos de libertação, pedidos de apoio e informações sobre o paradeiro de membros do Movimento San Isidro Tardiamente, alguns meios de comunicação como os jornais El País, El Mundo, BBC, Washington Post, New York Times, El Universal, La Prensa ou Infobae começaram a publicar os acontecimentos em Cuba. O World Movement for Democracy condenou a prisão arbitrária do artista Denis Solís González, criticando essas técnicas estratégicas repressivas, como prisões arbitrárias, despejos, cortes de celular.

Diariamente, cubanos que têm coragem de pensar diferente do governo são detidos, perdem a conexão de internet ou têm membros da segurança do Estado à sua porta – tudo por algumas horas. Por exemplo, enquanto escrevíamos este artigo (entre 4 e 9 de dezembro), lemos que Luz Escobar, uma jornalista do meio 14ymedio, tinha funcionários do Ministério do Interior na porta de seu prédio proibindo-lhe de sair. Luz Escobar não foi acusada de nenhum crime, mas é verdade que não concorda com as decisões do governo cubano.

Alguns dos artistas que estiveram no encontro de 27 de novembro enfatizaram publicamente que não houve insultos durante manifestação à porta do Ministério e que o objetivo foi sempre um diálogo pacífico com o governo. No último podcast do El Enjambre, um dos participantes do encontro, Yunior García Aguilera, um jovem dramaturgo respeitado entre os artistas – e que rapidamente passou a ser insultado por apoiadores do governo nas redes sociais – analisou o que aconteceu na sexta-feira 27 e nos dias seguintes. Algumas das frases de Yunior resumem brilhantemente esses eventos. Sobre o encontro entre os artistas antes de entrar no Ministério da Cultura, disse que “foi muito difícil exercer a democracia sem nunca tê-la exercido antes”.

Outra frase carregada de conteúdo histórico foi: “educaram o povo cubano na universidade gratuita e agora esperam que fiquem de braços cruzados”. Há uma diferença entre os cubanos que não têm acesso às redes sociais, pois continuam a acreditar estritamente na informação do jornal Granma (órgão oficial do Partido Comunista Cubano) que descreveu a manifestação como “um novo espetáculo contra-revolucionário, patrocinado e apoiado pelo governo dos EUA”. No entanto, os jovens cubanos que têm acesso às redes escolhem outros canais de informação que não são mais os gerados em Miami. Hoje existem veículos de comunicação como 14ymedio, El Toque, Periodismo de Barrio, El Estornudo, Diario de Cuba ou o podcast El Enjambre, cujos editores e jornalistas são jovens que vivem em Cuba.

Uma surpresa desagradável foi o destacamento militar do governo em Havana. As chamadas “Vespas Negras” foram vistas por toda a cidade, mostrando que o governo tem planos de reprimir possíveis manifestações. Yunior García Aguilera, Camilo Condis e Lucía March expressaram no mesmo podcast que esses soldados com carros em boas condições e “armados até os dentes” passam medo e insegurança. O uso dos soldados, eles dizem, é contraproducente, pois os cubanos não se sentem protegidos por eles. Eles afirmaram que "não está claro quem eles estão protegendo." Um artigo da Cubanet compara os gastos do governo para equipar essas tropas especiais e a falta de investimento na agricultura, destacando que essa diferença revela as prioridades do governo.

Eles também criticaram o poder do governo de decidir quem é artista e quem não é. Os artistas enfatizaram que estão pedindo liberdade de conteúdo e liberdade de expressão e, embora sejam reivindicações políticas, não são reivindicações contra os revolucionários. No entanto, García Aguilera lembrou que "o erro do governo foi esquecer que a cultura é perigosa".

A esquerda latino-americana parece ter ficado presa na década de 1970

Aqui, queremos destacar que desde 2016 realizamos várias viagens de estudo a Cuba e chamou nossa atenção a quantidade de obras com uma visão crítica da situação política, econômica e cívica.

Jovens atrizes, atores, escritores, diretores de teatro ou curtas-metragens, fotógrafos, curadores, escultores ou pintores encontraram espaços para expressar seu descontentamento, cansaço com a censura e profundo desapontamento com o cotidiano e o futuro. No entanto, nenhum deles se considera contra-revolucionário.

O primeiro golpe que o governo tentou dar contra eles foi o Decreto 349 e, desde então, as prisões têm sido contínuas. Os artistas, de grupos diferentes e com diferenças, reagiram e o governo, que parecia aceitar o diálogo, os traiu. Após o encontro no ministério, no dia 7 de dezembro, a artista Tania Bruguera foi presa. Yunior García Aguilera tinha membros da segurança do Estado controlando sua casa em 6 de dezembro.

Diante de tanto sofrimento e assédio injustificado, como há três anos, voltamos a lembrar que os governos ou partidos políticos da região não condenaram a perseguição a artistas ou qualquer outro tipo de violação dos direitos humanos em Cuba. É verdade que, nestas semanas, os meios de comunicação jornalísticos europeus e norte-americanos e ONGs, como a Human Rights Watch, a Cultura Democrática ou a Amnistia Internacional ecoaram a situação em Cuba.

No entanto, os governos latino-americanos parecem achar suas relações com o governo cubano muito remotas ou complexas, apesar do fato de que muitos desses governos são defensores da democracia, contestam as eleições na Venezuela e rejeitam as ditaduras e violações dos direitos humanos há quase 40 anos.

Por que tão poucos meios de comunicação cobriram as notícias? Que atitude têm as organizações regionais ou internacionais frente à violência do Estado contra os artistas?

Segundo o levantamento que pudemos fazer, que certamente é incompleto, das 30 publicações de maior prestígio internacional que relataram os ataques a integrantes do Movimento San Isidro, 22 são da mídia europeia e americana e apenas seis da mídia da América Latina.

As Nações Unidas não se pronunciaram. As organizações regionais não se pronunciaram. Até mesmo presidentes que se gabam de sua defesa da liberdade permaneceram calados. A esquerda latino-americana parece ter ficado presa na década de 1970. Nenhum dos eventos que as matrizes, Rússia e China, adotaram para sobreviver, mudou o ideal obsoleto de uma revolução fracassada. Eles se escondem atrás dos embargos e isso basta para negar os fracassos que diariamente oprimem os cidadãos de Cuba. Em contrapartida, a Venezuela concentra a atenção da mídia e dos políticos, embora o sofrimento e a repressão não sejam muito diferentes nos dois casos.

Enquanto isso, os cidadãos cubanos são esmagados pela repressão, a dolarização de sua economia, a escassez de alimentos, a indiferença da região, as sanções do governo norte-americano e inúmeros acadêmicos, jornalistas e esquerdistas desatualizados que acreditam que Cuba alcançou o paraíso socialista.

Rainforest defenders: How to fight the climate crisis from the ground up

Too often the people of the Amazon are seen as victims, but openDemocracy has just won a major award for bringing the stories of young local activists who are defending their lands and commmunities – and are winning.

Join us for a free live discussion on 28 January at 5pm UK time/12pm ET.

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Francesc Badia i Dalmases Director, democraciaAbierta – openDemocracy's Latin America project

Chair: Mary Fitzgerald Editor-in-chief, openDemocracy

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