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Déficit de atenção: o transtorno anticapitalista

O TDAH é a condição neurológica do capitalismo tardio — e também é seu anjo exterminador

Laura Basu
11 Julho 2022, 12.00
O cérebro com TDAH é feito para o pensamento criativo, não para a labuta inútil
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James Battershill

Meu marido tem transtorno de déficit de atenção. Bem, ele nunca foi diagnosticado. Seu TDAH é forte demais para permitir. A tentativa de Erik de obter um diagnóstico na Holanda, onde moramos, envolveu diversos telefonemas até conseguir encaminhamento ao lugar certo; preenchimento de formulários e questionários; uma longa espera para a consulta; repassar os formulários e questionários com um psicólogo assistente; desenterrar relatórios da época da escola; e organizar entrevistas com o pai de Erik (que tem suspeita de TDAH) e irmão (que tem TDAH diagnosticado) para descobrir como ele era quando criança.

Não preciso dizer que Erik não concluiu o processo. É um milagre que qualquer pessoa com a condição neurológica consiga. A ADDitude Mag, uma publicação que foca em assuntos relacionados a TDAH, lista os sinais do transtorno como: memória disfuncional para tarefas cotidianas, desatenção, distração e função executiva ruim. As funções executivas são habilidades que auxiliam em ações como planejar, gerenciar o tempo e realizar diversas tarefas cotidianas. Erik não tem o “H” em TDAH — ele não sofre de hiperatividade. Mas as pessoas com déficit de atenção não têm uma boa relação com a burocracia.

Erik não gosta que digam que a maneira como seu cérebro funciona é “disfuncional”. Ele passou os primeiros 40 anos de sua vida sem saber que poderia ter TDAH. Em vez disso, desde a infância, era caracterizado como esquisito ou estúpido. Ele então passou cinco anos lutando contra a ideia de tê-lo: primeiro rejeitando o rótulo, depois aceitando-o em particular, mas ainda com medo de falar sobre isso com os outros.

“Toda a minha vida, as pessoas me trataram como palhaço. Eu não quero dar a confirmação”, disse quando perguntei por que não fala disso com os amigos.

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As pessoas pensam que Erik é um palhaço por ser o pensador mais criativo que já conheci. Erik é um visionário. Ele tem grandes ideias, grandes sonhos, grandes planos. Ele nem sempre é tão bom em realizá-los. Projetos inacabados incluem nosso primeiro apartamento, no qual moramos em situação de semi-construção por oito anos; um novo protocolo de internet; e um novo regime de propriedade intelectual para produtos farmacêuticos.

Agora, aos 45 anos, Erik está adotando o que chama de “mentalidade de LA”: assumir sua divergência. É uma jornada em que embarcamos juntos, ele com seu TDAH e eu com uma doença autoimune crônica com a qual fui diagnosticada em 2017 e enfrentando o fato de que o abuso de álcool e de cigarro da minha juventude podem ter causa mais profunda do que o simples cumprimento de meu dever patriótico como britânica.

Os livros do médico e escritor húngaro-canadense Gabor Maté nos guiaram em nossas jornadas. Maté escreveu sobre TDAH (ele tem), doenças crônicas, vício e comportamento compulsivo (ele exibe).

Maté discorda do consenso geral sobre o que causa TDAH, tido principalmente como genético. Ele argumenta que, embora haja um elemento genético, o que determina se você desenvolve o transtorno ou não é sua criação. Cinco sextos dos circuitos do cérebro humano se conectam após o nascimento. Aqueles com TDAH têm conexões diferentes no córtex pré-frontal, que controla a autorregulação e a atenção. Para que ocorra o desenvolvimento ideal do cérebro, os bebês precisam de comida, abrigo e segurança de seus cuidadores primários.

Quantos pais não estão estressados tentando conciliar trabalho, finanças e criar filhos sem ajuda suficiente e sem dormir?

Mas nem sempre podemos culpar os pais. Não receber o cuidado certo não significa necessariamente abuso ou negligência, embora esse possa ser o caso. Pais vivendo sob estresse intenso nem sempre conseguem se sintonizar com o bebê. Maté nasceu de pais judeus em Budapeste dois meses antes da ocupação nazista. Mas não precisa ser tão extremo. Quantos pais não estão estressados tentando conciliar trabalho, finanças e criar filhos sem ajuda suficiente e sem dormir?

Essas são características neurofisiológicas individuais, mas surgem dentro de contextos sociais. Nossas sociedades capitalistas criam famílias estressadas, escolas carcerárias e locais de trabalho tóxicos. Não é à toa que nossos cérebros estão se descontrolando em uma escala sem precedentes. O TDAH é uma condição capitalista.

TDAH: a nova esquizofrenia

Não sou a primeira pessoa a dizer isso. Em seu livro de 2011 “Realismo Capitalista”, o falecido Mark Fisher escreveu que o TDAH era “uma patologia do capitalismo tardio – uma consequência de estar conectado aos circuitos de controle de entretenimento da cultura de consumo hipermediada”.

Maté enfatiza que o TDAH não é uma patologia; é uma divergência de desenvolvimento. Não é fundamentalmente causado pela cultura hipermediada de nossa era, ele argumenta – no entanto, a cultura pode alimentá-la e reforçá-la.

Fisher estava explorando a metáfora do teórico crítico Fredrick Jameson, que argumentava que o “esquizofrênico” era fruto da cultura pós-moderna dos anos 1980. Jameson descreveu uma cultura na qual somos constantemente bombardeados por imagens aleatórias, uma “série de momentos presentes puros e não relacionados no tempo”. Ele escreveu que as pessoas com esquizofrenia encarnavam a fragmentação de identidade criada por essa experiência do tempo: o fracasso em criar um senso coerente de si mesmo que conecta o passado, presente e futuro.

Outros pensadores do final do século 20 tinham suas próprias teorias não ortodoxas da esquizofrenia, notadamente o filósofo Gilles Deleuze e o psicanalista Felix Guattari em seu livro de 1972 “Anti-édipo”.

Fisher, um professor de ensino superior e filósofo, apontou que a indústria cultural mudou desde os tempos ativos de Jameson, na década de 1980. “O que nós, na sala de aula, estamos enfrentando agora é uma geração nascida nessa cultura ahistórica e anti-mnemônica — uma geração para quem o tempo sempre chegou cortado em micro-fatias digitais”, escreveu Fisher.

Para Fisher, a pessoa com TDAH, com seu foco distraído e “memória disfuncional para tarefas cotidianas”, era o símbolo atualizado de nossa era. E isso foi em 2011, bem antes do TikTok e dos Reels do Instagram.

O que Fisher não menciona é que para Deleuze e Guattari, se não para Jameson, a esquizofrenia não era apenas a condição do capitalismo tardio — era também seu anjo exterminador. Ao dar origem à esquizofrenia pós-moderna, argumentavam eles, a cultura capitalista tardia estava plantando as sementes de sua própria morte. O capitalismo tardio (também conhecido como capitalismo neoliberal) é desordenado, caótico, indisciplinado. É o Velho Oeste econômico, onde o dinheiro é rei, as finanças são fictícias e todas as barreiras aos seus fluxos são combatidas. Esse ambiente cria culturas e subjetividades também desordenadas, caóticas e indisciplinadas.

Mas, no fim das contas, o capitalismo precisa de ordem, estabilidade e regras. Precisa do Estado. Precisa dos militares do Estado, de suas leis e suas burocracias. E precisa de cidadãos ativos, estáveis ​​e confiáveis ​​para cumprir suas ordens. O caos e a desordem da esquizofrenia ameaçam perturbar todo o sistema.

Para ser honesta, não tenho certeza se usar uma doença mental grave como metáfora para nosso mal-estar moderno é o caminho certo. Para teóricos como Deleuze, porém, era importante ver as doenças mentais como categorias políticas e não como categorias naturais e privadas. Quem sofre suas consequências são indivíduos, mas quem as produz são as sociedades. O privado passa a ser político.

O mesmo pode ser dito para divergências neurológicas como TDAH. E, como a esquizofrenia, o TDAH também pode ser entendido não apenas como a condição totêmica de nossa era, mas também como seu Cavalo de Tróia.

TDAH contra o relógio

“O TDAH é, em sua essência, uma cegueira para o tempo”, diz o proeminente especialista Russell Barkley. Erik discorda. Não é uma cegueira para o tempo, argumenta, mas oblívio em relação a uma construção social particular do tempo: o tempo do relógio regimentado.

O capitalismo instituiu uma economia baseada no trabalho assalariado e, com ele, a mercantilização do tempo. O tempo virou dinheiro. Ou mais precisamente, o tempo de trabalho dos trabalhadores tornou-se lucro dos capitalistas.

Em “Hours against the clock: on the politics of laziness” (Horas contra o relógio: sobre a política da preguiça, em tradução livre), Lola Olufemi explica que o capitalismo captura o tempo, transformando-o em um recurso finito que estamos perdendo indefinidamente em nosso trabalho. O crescimento da produtividade, mantra do capitalismo, significa acelerar a produção para que os trabalhadores produzam cada vez mais no mesmo período de tempo.

Vemos a tirania do tempo capitalista mais claramente nos armazéns da Amazon, onde cada movimento dos trabalhadores é monitorado por algoritmos e os menos produtivos são demitidos regularmente. Vemos isso em avícolas, onde os trabalhadores são forçados a usar fraldas porque não têm tempo para ir ao banheiro.

Devido a diferenças nas conexões neurais e química no lobo frontal do cérebro, a pessoa com TDAH não capta esse tipo de tempo linear. Maté diz que, para essas pessoas, existem dois estados de tempo: o aqui-e-o-agora e o para-sempre. Eu preciso lembrar o Erik constantemente que o tempo passa. Se eu disser a ele que são 14h, ele continuará acreditando que são 14h até que eu diga que duas horas se passaram e agora são 16h. Da mesma forma, ele não entende que vai se atrasar para uma reunião até que a hora marcada já tenha passado e ele ainda não tenha saído de casa.

Sem querer ser irreverente, mas sempre interpretei o despertador como uma violação dos direitos humanos. Para pessoas com TDAH, literalmente é

Você pode ver por que esse tipo de humano é inimigo de um sistema econômico baseado no controle do tempo. Não é tarefa simples fazer com que uma pessoa com TDAH chegue à escola ou ao trabalho a tempo, defina tarefas com durações pré-determinadas e depois vá para casa e faça o que for necessário para conseguir fazer exatamente a mesma coisa no dia seguinte.

Isso é possível porque estamos sempre presos ao relógio, mesmo quando estamos livres. À noite, estamos nos preparando para o trabalho de amanhã. Nos fins de semana, tentamos esquecer o trabalho enquanto nos certificamos de que nossa rotina de sono não fique tão confusa a ponto de não conseguirmos acordar na segunda-feira. Nas férias, para quem tem esse privilégio, relaxamos por alguns momentos antes de ter que começar tudo de novo.

Sem querer ser irreverente, mas sempre interpretei o despertador como uma violação dos direitos humanos. Para pessoas com TDAH, literalmente é. Eles notoriamente têm o sono ruim. Mas, como muitas coisas sobre eles, seu sono só é “ruim” por causa das pressões de tempo exercidas pela escola ou pelo trabalho. O padrão de sono intrínseco de Erik parece ser bifásico. Ele tem uma fase do sono à noite e outra de manhã ou depois do almoço. Isso seria completamente natural se seu emprego atual não exigisse que ele estivesse no trabalho das 9h às 17h. De fato, as últimas pesquisas sobre o sono sugerem que o sono humano é naturalmente bifásico. É o capitalismo que exige — e depois garante que você não consiga — as sólidas oito horas.

Erik é altamente funcional. Quando nos conhecemos, ele era analista de risco em um grande banco. Mas ele só é capaz de aguentar a tirania do tempo por um tempo. Eventualmente, normalmente depois de um ano ou dois, ele desiste e precisa recuperar seu tempo e seu sono. Temos o privilégio de poder viver assim, embora nem sempre seja fácil. Milhões de pessoas com TDAH, juntamente com bilhões de pessoas que não sofrem do transtorno, não conseguem escapar da rotina. Mas quem sabe, se adotássemos coletivamente o descumprimento em relação ao tempo capitalista daqueles que tem TDAH, talvez pudéssemos.

Burocracia capitalista

Você pode associar a burocracia a um Estado inchado, mas o termo “kafkiano” é mais adequado no hipercapitalismo de hoje do que nunca. Você já tentou alguma vez entrar em contato com o atendimento ao cliente do Airbnb? O falecido David Graeber argumentou que a noção de burocracia como apenas um problema de um Estado inchado é propaganda. Para ele, governos e empresas são indistinguíveis em seu labirinto burocrático

As burocracias do Estado e do setor privado estão, de fato, muitas vezes interligadas. Na Holanda, se você está atrasado em algum imposto, os departamentos governamentais contratam cobradores de dívidas particulares para vir atrás de você. Uma vez nas mãos deles, é quase impossível se livrar de multas e taxas cada vez altas. O trauma que Erik sofreu com o assédio desses oficiais de justiça não é brincadeira. (Um de seus projetos é estabelecer uma “união nacional de não pagantes”, mas ele ainda não chegou a isso.)

Aqueles com TDAH são incapazes de se motivar a fazer coisas que não têm significado intrínseco

Se há uma coisa que o cérebro com TDAH não consegue lidar, é burocracia. Devido em parte aos níveis reduzidos de dopamina, para aqueles com TDAH é virtualmente impossível dedicar qualquer quantidade de tempo a atividades quando não têm motivação interna. Se você deseja que uma criança com TDAH faça sua lição de matemática, você precisa estruturá-la como um jogo que fornece uma dose de dopamina toda vez que ela marca um ponto.

Vamos ser sinceros, junto com a burocracia direta – que ocupa uma quantidade excessiva de nosso tempo e pela qual não recebemos recompensa monetária nenhuma – muito do trabalho remunerado que fazemos também pode ser classificado como burocracia. Não tem significado intrínseco, não agrega valor à sociedade e o realizamos puramente para ganhar dinheiro para nos mantermos vivos. Novamente, aqueles com TDAH são incapazes de se motivar a fazer coisas que não têm significado intrínseco. Podemos nos perguntar por que qualquer um de nós pode. Quem realmente tem um distúrbio, quando paramos para pensar?

TDAH é um anarquista

Isso não quer dizer que as pessoas com TDAH sejam preguiçosas. Longe disso. Erik é praticamente um workaholic. Como muitas pessoas com TDAH, ele tem hiperfoco para certas coisas. No seu caso, para fazer filmes e gráficos 3D, costurar, aprender sobre criptomoedas, tocar violão e jardinagem. Mas não para coisas que outras pessoas lhe dizem para fazer.

De alguma forma, Erik encarna o comunista ideal de Karl Marx. Marx defendia que, sob o regime do tempo de trabalho do capitalismo, “cada homem [sic] tem uma esfera de atividade particular e exclusiva, que lhe é imposta e da qual não pode escapar. Ele é um caçador, um pescador, um pastor ou um crítico, e deve permanecer assim se não quiser perder seus meios de subsistência”.

Mas sob o comunismo, com controle democrático sobre a produção, seríamos livres para desenvolver nossos talentos. Seria possível “fazer uma coisa hoje e outra amanhã, caçar de manhã, pescar à tarde, criar gado à noite, criticar depois do jantar, tal como tenho em mente, sem nunca me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico”.

O cérebro com TDAH não é feito para trabalhos pesados ​​sem sentido. É feito para o pensamento criativo e livre, produzidos por conexões neurais que disparam em todas as direções. A mesma conexão que gera caos interno e distração também dota quem tem TDAH de uma capacidade maior de “pensamento divergente”, “expansão conceitual” e “superação de restrições de conhecimento”.

É verdade que muitas vezes o capitalismo se beneficia do descomprometimento do TDAH com a burocracia, como oficiais de justiça demonstram. O indivíduo com TDAH frequentemente sai perdendo. Ou, sejamos honestos, o parceiro da pessoa com TDAH acaba fazendo sua burocracia para eles, especialmente se esse parceiro for mulher.

Mas, ainda assim, a recusa direta do cérebro com TDAH de aceitar o sequestro do tempo pelo capitalismo através do trabalho assalariado e da burocracia, e sua insistência na criatividade, prazer e auto-expressão, deve ser vista como uma fonte alegre e crua de rebelião anárquica.

O amor é uma palavra que faz

Para Maté, embora a medicação possa ser útil em muitos casos, ela nunca deve ser a primeira ou única estratégia para o tratamento de TDAH. O TDAH não é uma doença. É uma diferença no desenvolvimento neurológico, causada por famílias que estão muito estressadas pelas pressões da vida para dar aos filhos a atenção de que precisam.

Pessoas com TDAH foram brutalizadas pela sociedade. O mesmo vale para viciados e para pessoas com doenças crônicas. A boa notícia é que as pessoas podem se curar em todas as fases da vida. O que elas precisam para fazê-lo são espaços onde sejam aceitas e tenham espaço para perseguir suas paixões, conectar-se com seus sentimentos e nutrir sua auto-estima. Em outras palavras, elas precisam do que todos precisam.

Eu sempre disse que o amor não é apenas um sentimento, mas um verbo, uma ação. Aparentemente não sou a única a pensar isso. O psiquiatra americano Scott Peck define o amor como ação, como a “vontade de se estender para nutrir o crescimento espiritual e psicológico de outra pessoa, ou o próprio”. Maté termina seu livro com as palavras: “Se pudermos amar ativamente, não haverá déficit de atenção e nem transtorno”.

Devemos isso uns aos outros para criar esses espaços de amor ativo e cura. Ao longo do caminho, todos podemos aprender com a rejeição do cérebro com TDAH ao tempo de trabalho e à burocracia capitalista. Todos nós podemos adotar seu pensamento lateral desafiadoramente criativo. Todos podemos abraçar a desordem que ainda nos libertará.

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