“Eu dei aos meus filhos uma pequena xícara de arroz. Era tudo o que tínhamos. Então fui embora”, conta Emily, sentada na grama perto de um rio e da estrada que leva à cidade colombiana de Pamplona. Como quase seis milhões de outros venezuelanos, ela saiu de casa rumo a um país vizinho.
Emily atravessou a fronteira para a Colômbia e caminhou dois dias ladeira acima para chegar a Pamplona, uma jornada nascida do desespero. Como cabeleireira em Maracay, no noroeste da Venezuela, Emily não ganhava o suficiente para comprar comida para suas três filhas. “Deixar minhas filhas foi doloroso, mas vê-las passar fome era pior”, diz ela. “Ir embora não foi uma escolha, mas uma necessidade”, acrescenta.
A Venezuela, país com as maiores reservas de petróleo do mundo que já foi o mais rico da América do Sul, agora enfrenta uma aguda crise econômica e humanitária que vem sendo construída há anos. A riqueza petrolífera da Venezuela foi usada pelo governo de Hugo Chávez, eleito presidente em 1998 com uma plataforma socialista, para financiar programas radicais de redução da pobreza. As “missões bolivarianas”, como eram chamadas, eram caras e, embora tenham ampliado os serviços sociais e reduzido a pobreza em 20%, Chávez também adotou políticas que precipitaram um declínio constante na produção de petróleo da Venezuela. Após a morte de Chávez em 2013, o presidente Nicolás Maduro continuou com as políticas de seu antecessor. Os efeitos combinados de má gestão econômica e corrupção generalizada resultaram em um país com recursos naturais abundantes que agora enfrenta escassez de combustível, apagões de energia e longas filas de gasolina. A pesquisa nacional das condições de vida na Venezuela do ano passado, conhecida por sua abreviatura em espanhol Encovi, mostra que 94,5% da população vive na pobreza e mais de três quartos em extrema pobreza. Desde 2015, um quinto da população deixou o país, tornando a da Venezuela uma das maiores crises de deslocamento do mundo, segundo a Agência da ONU para Refugiados, não muito atrás da Síria.