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Venezuelanos na Colômbia: por trás da segunda maior crise global de deslocamento

Com 94,5% da população na pobreza e mais de três quartos em extrema pobreza, um quinto da população já deixou a Venezuela

Catherine Ellis
4 Março 2022, 12.00
Um oficial de migração tira fotos de imigrantes venezuelanos que descem de caminhões
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Carlos Garcia Rawlins/REUTERS/Alamy Stock Photo

“Eu dei aos meus filhos uma pequena xícara de arroz. Era tudo o que tínhamos. Então fui embora”, conta Emily, sentada na grama perto de um rio e da estrada que leva à cidade colombiana de Pamplona. Como quase seis milhões de outros venezuelanos, ela saiu de casa rumo a um país vizinho.

Emily atravessou a fronteira para a Colômbia e caminhou dois dias ladeira acima para chegar a Pamplona, ​​uma jornada nascida do desespero. Como cabeleireira em Maracay, no noroeste da Venezuela, Emily não ganhava o suficiente para comprar comida para suas três filhas. “Deixar minhas filhas foi doloroso, mas vê-las passar fome era pior”, diz ela. “Ir embora não foi uma escolha, mas uma necessidade”, acrescenta.

A Venezuela, país com as maiores reservas de petróleo do mundo que já foi o mais rico da América do Sul, agora enfrenta uma aguda crise econômica e humanitária que vem sendo construída há anos. A riqueza petrolífera da Venezuela foi usada pelo governo de Hugo Chávez, eleito presidente em 1998 com uma plataforma socialista, para financiar programas radicais de redução da pobreza. As “missões bolivarianas”, como eram chamadas, eram caras e, embora tenham ampliado os serviços sociais e reduzido a pobreza em 20%, Chávez também adotou políticas que precipitaram um declínio constante na produção de petróleo da Venezuela. Após a morte de Chávez em 2013, o presidente Nicolás Maduro continuou com as políticas de seu antecessor. Os efeitos combinados de má gestão econômica e corrupção generalizada resultaram em um país com recursos naturais abundantes que agora enfrenta escassez de combustível, apagões de energia e longas filas de gasolina. A pesquisa nacional das condições de vida na Venezuela do ano passado, conhecida por sua abreviatura em espanhol Encovi, mostra que 94,5% da população vive na pobreza e mais de três quartos em extrema pobreza. Desde 2015, um quinto da população deixou o país, tornando a da Venezuela uma das maiores crises de deslocamento do mundo, segundo a Agência da ONU para Refugiados, não muito atrás da Síria.

Emily não está sozinha neste último trecho rumo a Pamplona. Oswual, 21, outro venezuelano que ela conheceu na viagem, está sentado por perto, enrolado em um cobertor azul. “Andar no frio, essa é a coisa mais difícil”, diz Oswual. “Nossos pés doem e o cansaço é insuportável.” O jovem venezuelano explica que seus pais e irmão mais novo estão contando com ele para enviar dinheiro da Colômbia. Sem ajuda, eles não têm o que comer.

Um grupo, usando Crocs e carregando mochilas rasgadas, se amontoou ali perto. Alguns tentam confortar seus filhos com frio e fome. Em 2021, uma média de 2 mil venezuelanos cruzaram a fronteira para a Colômbia todos os dias, segundo a ONU. Muitos dos caminantes, ou caminhantes, venezuelanos passam por Pamplona assim que entram na Colômbia. A tranquila cidade universitária está agora firmemente na rota dos migrantes. A maioria dos caminhantes não tem os US$ 5 da passagem de ônibus para chegar a Pamplona da fronteira venezuelana. Dia após dia, eles chegam com pés doloridos, corpos cansados ​​e sintomas do mal da altitude. O fluxo de pessoas diminuiu desde que os venezuelanos começaram a deixar seu país em massa em 2015, mas não mostra sinais de cessar.

“Antes, você chegava a ver 500 pessoas por dia passando por Pamplona, ​​agora são mais de 150. Nunca é zero”, Vanessa Purlaez, diretora e fundadora de um dos dois abrigos da cidade, disse ao openDemocracy. Quando os caminhantes começaram a chegar na cidade, Purlaez passou a receber de 30 a 40 deles em casa, durante a noite. Com a ajuda de amigos e familiares, Purlaez decidiu abrir um abrigo há cinco anos. “As pessoas realmente precisam de transporte. Elas precisam de casacos, cobertores, comida e abrigo”, diz, acrescentando que também precisam de apoio psicológico por tudo o que passaram e para se prepararem para o que está por vir. “Muitos estão desiludidos… a esperança desapareceu de seus rostos.” Antigamente, muitos dos caminhantes buscavam um futuro melhor; agora eles estão apenas procurando sobreviver", diz Purlaez.

Emily e Oswual se protegem do frio

Emily caminha com Oswual, jovem que conheceu na jornada

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Catherine Ellis/openDemocracy

Um jovem casal chega ao abrigo de Purlaez, mas ambos são mandados embora. O abrigo, que prioriza mulheres com filhos, está lotado. Os jovens ficam na escuridão do lado de fora, antes de seguirem pela estrada. Eles irão vagar por Pamplona, ​​sem saber onde vão passar a noite. É uma cena bastante comum na cidade, onde o número de caminhantes supera a capacidade dos dois abrigos.

Dentro do abrigo de Purlaez, Zairet amamenta Danna, sua bebê que nasceu assim que chegou ao abrigo. Dois de seus outros filhos brincam no pequeno quarto que Zairet divide com outras mulheres venezuelanas que vêm caminhando desde a fronteira colombiana. “Foi uma decisão repentina de vir”, Zairet disse ao openDemocracy. "Eu estava grávida. Eu não tinha dinheiro suficiente para comida ou fraldas. Eu me desesperei.” Zairet tem outros quatro filhos, mas eles ainda estão na Venezuela, com sua mãe.

Zairet destaca a mudança no fluxo de pessoas que saem da Venezuela. Antes da pandemia, eram principalmente homens jovens que cruzavam a fronteira para a Colômbia, de acordo com o Conselho Norueguês de Refugiados (NRC). Mas agora, diz Purlaez, “você vê mais famílias e mais mulheres andando, sozinhas ou com filhos, para encontrar trabalho ou para se juntar a suas famílias que já partiram. Famílias inteiras estão deixando a Venezuela.”

Enquanto apazigua Danna, Zairet explica que seu parceiro foi para Bogotá há alguns meses. Embora ele enviasse dinheiro, não era suficiente para impedir que a família passasse fome. Por isso Zairet partiu com dois de seus filhos e sua cunhada de 16 anos, que também estava grávida. “Viemos aqui sem nada – sem dinheiro, sem roupas – nada. Estávamos com fome e fomos embora”, diz Zairet, antes de exibir animadamente as meias altas que alguém do abrigo lhe deu para combater o frio.

A fome é uma das principais razões pelas quais as pessoas deixam a Venezuela. O Observatório Financeiro da Venezuela, um grupo independente de analistas econômicos, mostra que o preço da cesta básica aumentou 75% entre janeiro de 2020 e janeiro de 2022.

Zairet explica os números em primeira mão: “Era quase impossível comprar coisas como arroz, farinha e açúcar”. Antes de finalmente deixar a Venezuela, ela fazia uma viagem diária pelas trochas, trilhas ilegais, até a cidade colombiana de Cúcuta, para vender doces nos semáforos. As trochas são notórias; tanto os guardas de fronteira como os criminosos extraem dinheiro e bens das pessoas desesperadas que atravessam por esses pontos ilegais. Mas Zairet sentia que não tinha escolha. Na Colômbia, os alimentos básicos eram mais baratos do que na Venezuela. “Se eu não fosse (a Cúcuta), não teríamos o que comer”, lamenta. Diante da inflação crescente, um salário mensal na Venezuela equivale a algo entre US$ 1,50 e US$ 4, o que é suficiente apenas para comprar uma dúzia de ovos ou um ou dois sacos de farinha.

Zairet com sua recém-nascida no colo

Zairet deu à luz ao chegar em Pamplona

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Catherine Ellis/openDemocracy

Jorge Luis viu milhares de caminhantes passarem por Pamplona nos dois anos desde que chegou de Barquisimeto, uma cidade no noroeste da Venezuela. O ex-policial de trânsito, agora na meia idade, passa o dia na frente do hospital da cidade, onde direciona o tráfego e fica de olho nos carros estacionados em troca de algumas moedas. “É melhor do que nada”, afirma. Luis também faz questão de incentivar os caminhantes. “Falo com muitos deles e tento motivá-los, ajudá-los a continuar”, diz ele.

A Colômbia tem sido generosa com os migrantes venezuelanos, fornecendo-lhes muito mais do que a ajuda informal oferecida em Pamplona. O país abriga mais de 1,8 milhão de venezuelanos, ou cerca de 32% de todos os migrantes venezuelanos na América Latina, segundo o Banco Mundial. Em fevereiro de 2021, o presidente Iván Duque anunciou um novo Estatuto de Proteção Temporária de dez anos para os venezuelanos que já estão na Colômbia. Luis, o ex-policial de trânsito venezuelano, é grato à proteção. No entanto, o estatuto o fez perceber que não voltará para casa tão cedo. Ele olha para sua esposa, vendendo tinto quente, ou café preto, em uma pequena barraca. O aroma do café mistura-se com a fumaça dos camiões e ônibus que passam. As lágrimas rolam pelo rosto de Luis e sua voz falha ao falar de uma Venezuela que não existe mais: “Nós éramos de classe média. Eu trabalhava para o governo e minha esposa trabalhava como gerente em um banco. Tínhamos uma vida boa e não nos preocupávamos com dinheiro. Tínhamos até dois carros.” Ele acrescenta, em desespero: “É como se meu país tivesse passado por uma guerra e não vejo sua recuperação no horizonte”.

Antes dos vendedores de tintos como a esposa de Luis começarem o dia, a praça principal de Pamplona funciona como dormitório informal. Numa fria manhã de sexta-feira, três jovens se encolhem sob cobertores finos no coreto da praça. Eles têm algumas latas de atum, doadas por uma ONG internacional, como parte do kit fornecido aos migrantes venezuelanos. Esse tipo de ajuda é bem-vinda, mas escassa. A Brookings Institution descreveu a crise de refugiados e migrantes venezuelanos como “a mais subfinanciada” da história moderna. Os moradores de Pamplona montaram os dois abrigos, mas, após a pandemia, o abrigo de Purlaez teve que reduzir a capacidade máxima para 67 migrantes por noite, embora centenas continuem a passar pela cidade. A atitude em relação ao caminhantes também parece estar mudando. Os habitantes da cidade costumavam hospedar caminhantes à noite, mas isso raramente acontece hoje, diz Purlaez. “Agora, muito poucas pessoas abrem suas portas para os migrantes.”

De volta à estrada para Pamplona, ​​Emily e outro caminhante dizem que a relutância em ajudar é compreensível. Existem histórias de caminhantes roubando aqueles que tentam ajudá-los. Oswual diz que ouviu falar de migrantes que roubaram caminhoneiros que lhes ofereceram carona.

Apesar de todas as dificuldades de chegar a Pamplona, ​​os migrantes sabem que sua jornada daqui em diante será ainda mais difícil. “Ouvi dizer que a jornada fica muito mais fria quando nos aproximamos do páramo”, diz um dos homens do grupo perto de Emily, se referindo ao bioma encontrado no norte da Cordilheira dos Andes, temido pelos caminhantes por seus ventos cortantes, chuvas fortes e temperaturas gélidas. “Ouvi dizer que se cruzarmos o páramo, podemos morrer congelados. Por isso preciso de dinheiro para comprar uma passagem de ônibus. Não quero caminhar por nessa parte do caminho,” diz Emily.

Todos se olham e sorriem, apesar da exaustão e do medo do que está por vir. “Estamos cansados, mas não vamos desistir”, diz Oswual, seu entusiasmo dando ânimo aos outros. Um transeunte para e lhes dá algumas moedas, o suficiente para uma xícara de café para todos. Isso os manterá por um tempo.

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