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'Fora garimpo, fora Covid': os Yanomamis se defendem

Os Yanomamis acreditam que sua mobilização e o apoio internacional os ajudarão na luta contra o garimpo ilegal e a Covid-19.

Maurício Ye’kwana
25 Março 2021, 12.00
Yanomamis se pintam para enfrentar garimpeiros ilegais
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Maurício Ye'kuana

Estamos entre 1975 e 1976. Os primeiros garimpeiros – cerca de 500 começaram a subir a serra do Surucucus. Em 1980, mais 2 mil entraram em território Yanomami pelo rio Uraricuera, na Amazônia brasileira.

As rotas dos garimpeiros passaram a dar o rumo das epidemias, trazendo doenças que nunca tínhamos visto antes, como sarampo e malária, que exterminaram grande parte da população – nem se sabe ao certo os números. Foi encontrado muito, muito ouro mesmo em nossas terras. Quando vimos, 150 aeronaves já estavam fazendo voos diários do aeroporto de Boa Vista pra dentro do território, levando garimpeiros e de lá pra cidade trazendo ouro. O tráfego no aeroporto de Boa Vista chegou a ser o maior tráfego aéreo do Brasil – maior até do que São Paulo e Rio de Janeiro – de tão alto que era o investimento dos garimpeiros em nossa região.

Alguns anos depois, em 1987, Romero Jucá, então presidente da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), trouxe um indigena de outra etnia para assinar um acordo de entrada dos garimpeiros em nosso território. O indígena diz, registrado em vídeo, que o progresso deveria ser trazido para os indígenas para o "sustento da família". Os desejos expressos por ele, que veio de longe se dizer representante do que nós queríamos, não eram os mesmos dos nossos. Não eram e nunca vão ser.

O período entre 1987 e 90 foi chamado de "corrida do ouro". Muita gente entrou no território atrás de garimpo; o tráfego aéreo aumentou ainda mais. A famosa "Estátua do Garimpeiro" foi construída no centro de Boa Vista, capital de Roraima, simbolizando a força do garimpo na economia do estado. Para nós, o símbolo do estado jamais deveria ser este quando temos aqui verdadeiras riquezas como o Monte Roraima. Por conta da doença levada pelos garimpeiros às aldeias neste período, mais de 20% da população Yanomami morreu. Calcula-se que estiveram em nossa terra aproximadamente 40 mil garimpeiros para 10 a 15 mil Yanomamis.

Fora garimpo, fora Covid

O início das mobilizações de Davi Kopenawa, nossa maior liderança até hoje, começou com a Assembleia Constituinte. Davi deixou sua aldeia para falar com as autoridades, dizer que invasões estavam acontecendo e que os Yanomami estavam morrendo. A resposta do governo é que não tinha recurso para resolver essa situação.

Davi Kopenawa buscou apoio de uma organização não governamental para iniciar manifestações internacionais na Organização das Nações Unidas (ONU) e em embaixadas do Brasil pelo mundo todo. A partir dessa mobilização, missionários tomaram a iniciativa de entregar carta dos Yanomami na ONU com mais de 150 mil assinaturas pedindo pela demarcação de nosso território. Foi a ONU que liderou uma campanha que garantiu recursos para demarcação da Terra Indígena Yanomami. E hoje, com mais de 400 mil assinaturas na campanha "Fora Garimpo, Fora Covid", queremos garantir a mesma repercussão internacional, pois precisamos, mais uma vez, do reconhecimento da sociedade não indígena sobre a importância da nossa luta pela sobrevivência e pela vida.

O dia 25 de maio de 1992 marca um importante capítulo da história de nossa luta pela terra. A Terra Yanomami foi homologada durante o mandato do presidente Fernando Collor – quem diria. A princípio, o território seria dividido em 19 "ilhas", justamente para deixar de fora da Terra Indígena a riqueza de minérios que atrai garimpeiros.

1993 ficou marcado pelo Massacre de Haximu, que consideramos como o início do genocídio do povo Yanomami. Garimpeiros contrataram 17 yanomamis para fazer o trabalho pesado de carregamento por alguns dias. Ao final do dia de trabalho, os garimpeiros ofereceram comida para os trabalhadores. Um deles, que havia se afastado do grupo, ouviu de longe os tiros que deixaram todos os seus companheiros mortos. Foi perseguido e chegou a levar um tiro na perna, mas é graças a ele que temos conhecimento sobre essa história hoje. Os Yanomami, atrás de retaliação, foram ao local, mas só encontraram os corpos de seus parentes e o acampamento do garimpo abandonado. Foi o apoio internacional que conseguimos e a mobilização gerada pelo massacre que pressionaram a Polícia Federal a acompanhar a operação e começar uma investigação mais de perto sobre a questão dos garimpos na Terra Indígena Yanomami.

1993 ficou marcado pelo Massacre de Haximu, que consideramos como o início do genocídio do povo Yanomami

Estamos em 2020. O primeiro caso de Covid-19 na Terra Indígena Yanomami aconteceu por conta dos garimpeiros. Como o acesso de barco é fácil na região de Waikas, no rio Uraricuera, os garimpeiros não pararam de cavar seus buracos, mesmo com a pandemia. Um jovem Ye'kwana saiu de sua comunidade e foi até a região do garimpo e, sem saber que estava com sintomas, na volta participou de um ritual com todos em sua comunidade, que foi afetada quase inteiramente pelo vírus. Foi a partir desse contato que a Covid-19 começou a se espalhar dentro de nosso território.

Bebês Sanöma

Também enfrentamos um problema que nunca poderíamos imaginar. Os bebês que nasceram, morreram e desapareceram. Em maio, algumas mães Sanöma, um subgrupo da etnia Yanomami da região chamada Auaris, foram levadas à Boa Vista com sintomas de pneumonia. Seus bebês teriam sido infectados com o coronavírus no hospital, onde morreram e seus corpos desapareceram.

O "caso dos bebês Sanöma" expressa o começo de um novo capítulo de violência de Estado contra os povos originários. O desrespeito e a indignidade com que a morte é tratada pelas autoridades públicas são os mesmos com os quais nos tratam em vida. Não basta matar pela contaminação por coronavírus, há ainda que torturar mulheres e também homens. Este capitulo está só começando, mas as vítimas deram a ele um titulo: genocídio.O recém nascido teria morrido de complicações não conectadas à Covid-19, mas seu laudo médico aponta pneumonia aguda, um dos principais sintomas do coronavírus.

Outra vítima de contaminação por coronavírus que poucas pessoas sabem foi o próprio Davi Kopenawa. Ainda criança, Davi viu a população de sua terra natal ser dizimada por duas epidemias, ambas trazidas pelo contato com não indígenas e garimpeiros ilegais: uma de gripe, em 1959; e outra de sarampo, em 1967. Davi foi um dos responsáveis pela demarcação da Terra Indígena Yanomami, em 1992. Recebeu o prêmio ambiental Global 500 da Organização das Nações Unidas. Em 2010, viu sua obra "A queda do Céu", escrita com o antropólogo francês Bruce Albert, ser lançado na França. No Brasil, publicado em 2015, o livro é um manifesto xamânico e testemunho autobiográfico de Davi para denunciar a destruição da floresta e de seu povo.

A luta contra a liberalização de mineração

Hoje, quase 60% do território Yanomami está tomado de requerimentos minerários, tanto no estado de Roraima, quanto no Amazonas. O presidente Jair Bolsonaro mandou pedido de autorização para liberação de mineração em terras indígenas para o Congresso em 6 de fevereiro de 2020, conhecido como Projeto de Lei (PL) 191. O governador eleito em Roraima apoia. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) , que representa legitimamente todos os indígenas do país, já se pronunciou contra.

Contamos com a mobilização internacional e o envolvimento de indígenas e não indígenas para termos a mesma vitória que foi possível na época da demarcação

Algumas lideranças indígenas de diferentes etnias favoráveis ao garimpo são compradas pelos garimpeiros e têm cooptado lideranças Yanomami que mal sabem falar português. Um deles, que chegou a ir até Brasília se reunir com o presidente da República, me relatou que não sabia nem o que ia dizer lá, e que os outros indígenas o obrigaram a dizer que era a favor do garimpo e representava a voz de todos os Yanomami. Ele se arrependeu e pediu desculpas frente a todos em sua comunidade e dentro do território. As ameaças futuras, portanto, partem dos empresários e políticos locais e do enfraquecimento da FUNAI, chegam para nós em forma de cooptação dos próprios Yanomami e se refletem no Congresso com a pauta da liberação de mineração em terras indígenas.

Contamos com a mobilização internacional e o envolvimento de indígenas e não indígenas para termos a mesma vitória que foi possível, mesmo com um presidente como Fernando Collor, na época da demarcação. O sucesso da campanha de mobilização internacional pela demarcação me dá esperança e confiança de que a campanha "Fora garimpo, Fora Covid" também dê certo.

Que nossa luta pela vida seja reconhecida pela sociedade internacional e governos de todo o mundo. Que os não indígenas conheçam e reconheçam os povos indígenas pelo que somos. Nossa intenção é defender nossa casa, que é nosso território; nossa mãe, que é a Terra. E ninguém vende a própria mãe. Mãe não se vende.


Esta história faz parte da série 'Flamas da Amazônia', produzida pelo democraciaAbierta e publicada em espanhol no El País. A série é apoiada pelo Rainforest Jounalism Fund do Pulitzer Center. Agradecemos os testemunhos e material gráfico fornecidos pelos membros das comunidades retratadas nesta história, que permanecem isolados por causa da Covid-19.

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