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Morte de promotor paraguaio na Colômbia destaca crescente poder do crime organizado

Marcelo Pecci atuava no combate ao tráfico de drogas, tendo ajudado a desmobilizar operações brasileiras no Paraguai

Carlos Peris Sergio Saffon
13 Maio 2022, 12.00
O promotor Marcelo Pecci foi morto em Cartagena das Índias durante sua lua de mel
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Alamy Stock Photo

O assassinato de um promotor que atua no combate ao crime organizado, durante sua lua de mel na Colômbia, levanta preocupações sobre a crescente sofisticação e ambição dos grupos criminosos paraguaios.

A morte de Marcelo Pecci na ilha de Barú, em 10 de maio, envolveu uma operação complexa que teve origem no Paraguai, de acordo com as autoridades colombianas.

“O homicídio do procurador paraguaio Marcelo Pecci é o resultado de um sistema de crime organizado transnacional com alto planejamento e investimento de recursos”, afirmou o chefe da polícia colombiana, Jorge Luis Vargas, no Twitter em 11 de maio.

O presidente do Senado paraguaio, Oscar Salomón, disse à mídia que a inteligência das autoridades colombianas aponta que a ordem do assassinato veio do Paraguai.

Pecci era um dos principais promotores contra o crime organizado do país, atuando em uma série de casos de grande visibilidade na última década. Mais recentemente, ele trabalhou em A Ultranza PY, uma operação antidrogas que desmantelou uma rede criminosa que traficava cocaína do Paraguai para a Europa. A investigações envolvia políticos, membros do exército e elites empresariais. O promotor também investigou a facção brasileira Primeiro Comando da Capital (PCC), que tem presença significativa no Paraguai. Ele foi um dos principais promotores do caso “Zootopia”, que desmobilizou uma importante operação brasileira de tráfico de drogas no Paraguai.

No entanto, sua esposa, Claudia Aguilera, afirmou que Pecci não havia recebido ameaças de morte.

Análise

O crime organizado no Paraguai se tornou mais sofisticado nos últimos anos devido ao crescente papel do país como um importante centro de tráfico de cocaína e maconha, produção ilegal de cigarros e contrabando desenfreado. O país também mantém um lugar consistente entre os países mais corruptos da América Latina.

Apesar disso, o assassinato de seu proeminente promotor anticrime em outro país marca uma escalada alarmante. Além da especulação das autoridades colombianas de que o assassinato de Pecci pode ter sido obra dos Urabeños, um grupo de narcotraficantes que controla a região da Colômbia em que o promotor foi morto, nenhum grupo ou pessoa específica foi identificada.

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Ao mesmo tempo, o assassinato se dá em meio a uma série de tendências criminais preocupantes no país.

Primeiro, o Paraguai atravessa uma onda de mortes por encomenda. Em janeiro, o país registrou 25 assassinatos desse tipo, o equivalente a um a cada 28 horas. O número marca um aumento em relação ao recorde anterior: 23 em outubro de 2021.

Em abril, o chefe da polícia paraguaia, Gilberto Freitas, atribuiu a crescente onda de assassinatos por encomenda a conflitos entre gangues paraguaias, que conseguiram demover grupos brasileiros, como o PCC, antes de se voltarem uns contra os outros.

Em segundo lugar, embora os níveis de corrupção política no país sejam conhecidos, uma série de casos recentes fornecem exemplos concretos de seu alcance. A operação Ultranza, na qual Pecci trabalhou como promotor, implicou um ministro, funcionários do alto escalão do governo, elites empresariais e seus parentes. O próprio Pecci dirigiu algumas das operações em propriedades vinculadas a esses suspeitos.

A operação Ultranza é fonte de preocupação entre os implicados, e também entre potenciais suspeitos, como agentes da agência antinarcóticos do Paraguai explicaram no dia seguinte ao assassinato de Pecci.

“Há muita gente sentada em um teto de vidro a ponto de quebrar. E quando caírem, pessoas importantes e uma estrutura complexa também cairão”, disse um dos agentes, que falou sob condição de anonimato.

Terceiro, o país está no centro do tráfico de drogas na América Latina. Embora o Paraguai não seja produtor de cocaína, tornou-se um elo crucial no movimento de drogas entre a Bolívia e o Brasil. Isso deu origem aos mencionados conflitos entre grupos criminosos locais e brasileiros, como uma série de assassinatos brutais entre o PCC e o paraguaio Clã Rotela.

Previsivelmente, o influxo de traficantes e atores criminosos tem elevado as acusações de envolvimento de políticos no comércio de drogas. Em discurso no Senado no dia do assassinato de Pecci, Esperanza Martínez, deputada da coalizão de oposição Frente Guasú, declarou que "o narcotráfico mostrou seu poder com impunidade [...] não pode haver futuro ou desenvolvimento em um país controlado pelo narcotráfico e o crime organizado".


Este artigo foi originalmente publicado em inglês e espanhol por InSightCrime.

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