democraciaAbierta: Review

Resistências: palavras e arte para lutar contra a difamação política

Jean Wyllys, Marcia Tiburi, Wagner Schwartz e Debora Diniz transformam trauma em beleza em série que estreia em Londres

Liván García-Duquesne
27 Maio 2022, 3.43

A internet tornou-se o novo "espaço da aparência", o palco onde acontecem todas as guerras e disputas ideológicas contemporâneas. Nosso acesso cada vez mais imediato a esse espaço, seu uso diário e quase constante e sua proximidade física conosco, através de nossas várias telas, conferem-lhe o poder de se tornar uma extensão de nosso próprio corpo perceptivo e cognitivo.

Mas ainda não conseguimos domar e dominar esse matriz em constante mudança para a qual fomos empurrados, devido a que esse espaço também reconfigura radicalmente as interrelações entre subjetividade, opinião pública e poder político. De fato, nos últimos anos assistimos ao surgimento do fake, usado para tribalizar e dividir a população. O problema começa quando abandonamos os padrões usuais de apresentação de provas para fundamentar opiniões e afirmações, dando lugar a narrativas simplificadas e propagandas clickbait, anunciadas para influenciar e mobilizar facilmente a população contra determinados setores ou indivíduos.

Os quatro protagonistas da série “Resistências” foram vítimas de uma campanha de difamação altamente coordenada, cujo objetivo era silenciar e neutralizar as vozes da esfera intelectual e artística da sociedade brasileira, tornando visíveis os usos ilegítimos das novas tecnologias para fins políticos de repressão e perseguição política. Expostos a um turbilhão de ataques homofóbicos e misóginos intensamente violentos, os protagonistas foram forçados ao exílio quando as intimidações se transformaram em ameaças de morte explícitas.

Para quê? Quais foram as razões para fazer girar máquinas tão agressivas? O "crime" da filósofa, escritora e pintora Marcia Tiburi foi condenar publicamente o golpe de 2016, defendendo os ex-presidentes Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva; Jean Wyllys, político, ativista, jornalista e artista visual, denunciou o assassinato de Marielle Franco como ato de intimidação contra minorias e lançou campanha no Twitter para denunciar a negação genocida de Jair Bolsonaro contra a pandemia de Covid-19; o artista Wagner Schwartz encenou uma performance intitulada "La Bête", nu, em um museu, sendo acusado de pedofilia e difamado ao ponto de receber ameaças de morte; e Debora Diniz, professora universitária e ativista feminista, compareceu perante o Supremo Tribunal Federal (STF) para defender a descriminalização do aborto, tornando-se alvo de ataques da extrema-direita.

Nos últimos anos assistimos ao surgimento do fake, usado para tribalizar e dividir a população

A extrema-direita ligada a Bolsonaro os transformou em párias, obrigando-os a deixar para trás suas vidas, seu país e seu passado. “Resistências” é, portanto, um testemunho vital sobre os efeitos traumáticos das campanhas agressivas de difamação e da proliferação do fascismo na forma de intrusões e ataques, abusos verbais e ameaças de morte através da internet, que se torna um hospedeiro opressivo do ódio fabricado.

Mas “Resistências” quer questionar a ideia de que a internet só pode servir a esses propósitos nefastos e antidemocráticos. De fato, a série é apresentada em quatro episódios, em uma dinâmica que poderia continuar ad infinitum. "Resistências" consiste em uma colagem de entrevistas curtas que mostram atos particulares de resistência à distância – do exílio.

Como indica o slogan da série, seu objetivo é combater a difamação política "com palavras e arte". Ao mesmo tempo, estimula o ativismo político através de novos recursos midiáticos, como o ambiente cada vez maior da comunicação proporcionado pela internet.

Para ilustrar o potencial revolucionário da internet, Schwartz cita o poeta alemão Hölderlin: "Onde mora o perigo cresce também o que salva". Em um movimento que lembra os insights de Walter Benjamin sobre a arte do cinema como uma ferramenta vital para expandir a consciência de classe, os produtores da série apontam para as possibilidades radicais de comunicação e organização proporcionadas pela cultura visual e pela internet, criadas como um espaço para responsabilizar quem tem o poder ​​e oferecer um equilíbrio ao aparato inebriante das fake news.

Assim, o impulso ideológico da série é criar o desejo de pegar o espírito corrosivo da internet e mudar sua natureza de dentro para fora, para formar um verdadeiro “ecossistema de valores democráticos”.

Os quatro protagonistas da série 'Resistências' foram vítimas de uma campanha de difamação altamente coordenada

O próprio formato da série reproduz essa visão corajosa e otimista do uso da internet no campo estético. A consciência de sua comercialização é palpável: “Resistências” se esforça para se encaixar no cenário das redes sociais, maximizando seu potencial de influência. Suas técnicas inovadoras de edição e seu uso da linguagem das redes sociais demonstram grande versatilidade e adaptabilidade à cultura da internet, espaço que exige que todo conteúdo seja breve, dinâmico e direto.

Os episódios começam com uma montagem de áudio dos insultos de ódio dirigidos aos protagonistas. É uma representação auditiva das táticas do "gabinete do ódio", uma forma de terrorismo midiático que transforma suas vítimas em "personagens radioativos". Em contraste com as calúnias escabrosas dos porta-vozes do fascismo, as reflexões dos quatro artistas sobre a criatividade visam transformar o trauma em arte e beleza e comunicar um sentimento de união em vez de ressentimento isolado.

A série "Resistência, palavras e arte para lutar contra a difamação política", produzida pela seção latina do openDemocracy, o democraciaAbierta, foi criada por Jean Wyllys e Francesc Badia i Dalmases e dirigida pela cineasta Cristina Juliana Abril.

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