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Na TI Menkragnoti, resistimos às invasões e resistiremos às pandemias

Indígenas pedem o fim das atividades ilegais que destroem as florestas de seu território e trazem doenças para os povos da Amazônia.

Pho Yre Mekragnotire
22 March 2021, 12.00am
Dois indígenas da etnia Menkragnoti
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Pho Yre/Arquivo pessoal

O ano de 2020 será lembrado por nós como o ano em que a pandemia do coronavírus chegou ao mundo inteiro, inclusive ao Brasil e à nossa terra sagrada, causando uma enorme crise.

De dentro do meu território, tenho visto diversos tipos de invasores há anos, mas fico ainda mais triste ao ver com meus próprios olhos pessoas se aproveitando da pandemia para a prática de atividades ilícitas dentro de nossas terras, como a pesca predatória, que está aumentando por falta de fiscalização no contexto da pandemia.

Vemos isso acontecer especialmente no rio Pixaxa, que demarca os limites da TI Menkragnoti, assim como o rio Xingu.

Nossas terras foram reconhecidas pelo estado brasileiro em 20 de agosto de 1993, quando sua demarcação foi homologada. Somente a TI Menkragnoti tem aproximadamente 6 milhões hectares de floresta tropical preservada no sudoeste no Pará, próximo à divisa com o estado do Mato Grosso, no município de Altamira, uma das áreas mais desmatadas no Brasil nos últimos anos.

O mundo inteiro conhece ou pelo menos já ouviu falar no grande cacique Raoni. Muitos sabem da existência do povo Kayapó pela figura dele, mas a maioria não conhece a história e a realidade do nosso povo no Brasil. Na verdade, chamamos a nós mesmos de Mebêngôkre, não Kayapó, como se refere a nós o homem branco.

Somos um povo de guerreiros e guerreiras, preferimos a borduna (arma de madeira com formato cilíndrico feita em processo artesanal) ao arco e flecha e preservamos nossa cultura e rituais. Falamos nossa própria língua nativa, o Kayapó, e nos dividimos entre os Metyktire, Gorotire, Kuben-Krân-Krên, Kôkraimôrô, Kararaô, Mekrãgnoti, Xikrin e Mekrãgnoti (faces vermelhas), ocupando quatro Terras Indígenas (TI) do norte do Mato Grosso ao sul e oeste do Pará: TI Kayapó, TI Kapoto Jarina, TI Baú e TI Menkragnoti.

Na Terra Indígena Menkragnoti, onde vivo, há 11 aldeias: Krimej, Kawatum, Môpkrôre, Pykatoti, Mekragnotire Velho, Pyngraitire, Pytarekô, Jabuí, Pykany e Kubenkokre.

As invasões

As invasões na Terra Indígena Menkragnoti não são um problema que começou na pandemia. Há séculos estamos tentando viver em paz no nosso habitat natural, sem ameaças da sociedade não indígena. Não queremos madeireiros, garimpeiros e outros invasores em nossas áreas,  porque para nós, povo Kayapó Menkragnoti, nossa terra  é um lugar sagrado, o lugar onde andaram nossos anciões, onde temos variados remédios tradicionais, nosso verdadeiro "mercado livre". 

Vista aérea da Terra Indígena Menkragnoti
Terra Indígena Menkragnoti | Pho Yre/Acervo pessoal

Imagino que muitas dessas pessoas não saibam o que o território significa para nós. O cacique Raoni e outras lideranças lutaram muito pela demarcação e cabe a nós honrarmos essa luta e continuarmos protegendo essas terras.

Não é "muita terra pra pouco índio", como dizem. Nós não pensamos em ficar "ricos" ou ter uma vida melhor, usar a terra como os fazendeiros para contaminar com veneno e acabar com a verdadeira riqueza que é a floresta.

Para nós, já somos ricos, pois conseguimos de graça, sem precisar trocar por dinheiro, tudo aquilo que precisamos para sobreviver – água, caça, pesca, frutas, legumes e medicina. A "muita terra" – que já não é muita – é, na verdade, bem pouca se comparada à quantidade de terra que tínhamos antes da chegada dos portugueses em 1500, e a defendemos não pensando apenas em nós, mas no futuro. Um futuro que é nosso, das juventudes, e das próximas gerações.

Conhecimento ancestral

Defendemos o coletivo, os animais, nosso alimento, as antigas aldeias daqueles que vieram antes de nós, nossa medicina. Também os ensinamentos dos antigos, que nos transmitem um conhecimento que vai além do que qualquer kuben (homem branco) poderia trazer pras aldeias. 

Apenas poucos podem se formar como pajés em processos longos e profundos de muitos anos e a prática só se inicia depois de ser avô – não é como um curso de faculdade. Tudo é aprendido na oralidade e na prática.

O aprendiz deve ser humilde e demonstrar sua vontade de aprender com o pajé durante todo o processo. Quando chega o momento de demonstrar o conhecimento adquirido, ou ele mostra que está preparado ou não terá outra chance.

Quando alguém precisa de alguma cura, a família da pessoa procura o pajé para buscar o tratamento. Ele examina a pessoa, pergunta sobre os sintomas e já consegue saber exatamente o que está passando. É na floresta que ele busca a medicina e leva pra sua casa pra fazer o preparo do remédio.

Os vigilantes do território e a chegada da Covid-19

Para tentarmos controlar as invasões de madeireiras, da pesca predatória, e outras ameaças a que estamos sujeitos, criamos uma base de vigilância no limite da TI Menkragnoti, onde se localiza a aldeia Pykatoti, que controla a base.

A cada semana, seis guerreiros de seis aldeias se revezam para fiscalizar o território e encontrar possíveis invasores, mas isso não significa que conseguimos diminuir as invasões e a pesca predatória.

Já encontramos muitas vezes pessoas não autorizados pescando no rio Pixaxa. Nós os abordamos e explicamos nosso papel: fiscalizar o perímetro semanalmente para expulsar desconhecidos não indígenas. Também os informamos que praticar tais atividades em território indígena é crime.

Este ano, devido à Covid-19, fizemos reunião na aldeia Kubenkokre (KBK) – onde nasci, cresci e vivo até hoje – na qual houve um consenso contra a efetivação da base para este ano, como forma de prevenir a propagação do coronavírus em nosso território a partir do funcionamento da base. Dessa forma, concluiu-se que o funcionamento da base não seria autorizado.

Mas, apesar dos nossos esforços, a Covid-19 chegou à aldeia e fica a "pergunta": quem é que trouxe esse vírus para nós? É uma pergunta que não sabemos responder direito. A circulação estava proibida. As únicas pessoas a terem acesso à aldeia pertenciam à equipe médica do Departamento Sanitário Especial Indígena (DSEI) Rio Tapajós, que chegavam de Itaituba em avião para retirar pacientes para terem atendimento adequado em hospitais nas cidades.

Pho Yre (esq.) e outro indígena Menkragnoti segurando cartazes
Pho Yre (esq.) e outro indígena Menkragnoti segurando cartazes | Pho Yre/Acervo pessoal

Já com casos de Covid-19 na maioria das aldeias, dois indígenas da aldeia Pykatoti, onde fica a base de vigilância, tomaram a responsabilidade para si e decidiram abrir a base de vigilância do território novamente. As denúncias de invasão eram muitas e a qualidade da água do rio Pixaxa estava muito pior – o rio foi ficando cada vez mais sujo, coisa que não acontecia antes. 

Com a base funcionando normalmente, a aldeia Pykany foi a primeira a disponibilizar um grupo de seis pessoas durante uma semana para realizar as atividades de vigilância e eu fui parte desse grupo. Em uma semana, subimos o rio Pixaxa em busca da bucha (pequena ponte improvisada) que os invasores constroem por cima do rio para terem acesso, usando tratores e caminhões madeireiros, aos limites das terras protegidas.

Mas não encontramos a bucha, apenas pescadores invasores que pedimos que se retirassem sem nenhuma agressividade. Explicamos sobre a importância da lei que não permite a pesca em nossos rios e eles se foram. Retornamos à nossa aldeia Pykany e, depois de cinco dias, eu e mais dois colegas que estavam comigo começamos a sentir os sintomas de Covid-19. O primeiro teste deu negativo, mas, depois de 10 dias, fizemos um segundo teste, e descobrimos que, de fato, estávamos com Covid-19. Fomos infectados nessa semana que estivemos na base, responsáveis pela vigilância do território.

A pandemia pode ser algo novo pro kuben, mas não pra nós, que tivemos milhares de indígenas mortos na invasão do homem branco, conhecida como "contato".

Antes, nossos antigos viviam isolados no mato e não tinham doença nenhuma. Com o kuben vieram a gripe, a tosse, a diarreia, e tantos outros sintomas que meus avós nunca havia sentido antes. Depois, veio o sarampo. O sarampo, pra nós, foi como uma "pandemia" localizada no território que matou a maioria da população.

Não havia tratamento de medicina tradicional, pois nunca havíamos sentido algo assim. Muitos dos contaminados tiveram que ser isolados e tivemos muitos aprendizados com essa experiência para nos unirmos no combate ao coronavírus atualmente. Enquanto isso, ao invés de perceber que tem muito a aprender com a gente, o kuben continua patinando sem soluções, acreditando que tem mais conhecimento do que o indígena.

Cura indígena

Me curei da Covid-19 com o remédio encontrado na floresta pelos pajés, feito de folhas, cipós e raízes, que eu tomava em forma de chá durante o dia inteiro. Esses remédios trazidos por eles da floresta não são só para os contaminados, mas também para todos da aldeia, como forma de prevenção.

Posto de controle na Terra Indígena Menkragnoti
Posto de controle na Terra Indígena Menkragnoti | Pho Yre/Acervo pessoal

No início da pandemia, não havia remédios para tratamento nos postos de saúde das aldeias e, por isso, os profissionais da saúde que atuam na aldeia tiveram que mandar pacientes contaminados para a cidade.

Segundo relato de um dos pacientes contaminados, ele chegou ao Hospital Municipal da cidade de Novo Progresso, foi internado e isolado sem receber nenhum cuidado médico, passando fome durante dois dias, sem receber visitas. Não morreu, pois decidiu fugir do hospital para a Casa de Saúde Indígena (CASAI), onde também foi isolado sem receber nenhum atendimento adequado.

Foi então que pediu para sua esposa enviar remédios tradicionais da floresta e, após alguns dias de tratamento com a nossa medicina, ele se curou. A maioria das pessoas da TI Menkragnoti pegou Covid-19. São 282 indígenas, segundo o boletim informativo do DSEI Rio Tapajós, atualizado em 18 de setembro . Todas se trataram com essa mesma medicina. Ninguém morreu. Ninguém. 

Vamos continuar resistindo

Para aqueles que não conhecem nossa realidade, vivemos na fauna brasileira e, de alguns anos pra cá, estamos sendo perseguidos pelo governo. Grandes empreendimentos estão planejados para dentro ou no entorno de nossas terras, pois temos muita riqueza dentro da área demarcada como Terra Indígena.

Querem explorar as terras e as pessoas que nela vivem a qualquer custo, achando que não existe vida naquele lugar, mas existe sim, e muita! Nós dependemos da floresta e do rio para sobrevivermos, somos parte da floresta e a floresta é parte de nós.

Vamos continuar resistindo. Para lutar por nossos direitos, criamos nossa própria organização não governamental, chamada Instituto Kabu. Hoje, o Instituto Kabu faz o papel que deveria ser da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), como a fiscalização e monitoramento do território. Para nós, a FUNAI não existe mais. É hoje comandada pela bancada ruralista e interesses do agronegócio.

Nós é que seguimos e sempre seguiremos defendendo nosso território, pois somos os maiores guardiões e protetores da floresta, da Amazônia, da biodiversidade brasileira.

Chegou a hora dos não indígenas reconhecerem que somos os primeiros habitantes dessa terra. Não somos nós que estamos ocupando terras de vocês que poderiam ser "produtivas”. São vocês que invadiram e estão vivendo em nossas terras e precisam reconhecer e respeitar os povos indígenas e nossa história nesse território que vocês chamam de Brasil. Viva povos indígenas do Brasil #DemarcaçãoJá.


Esta história faz parte da série "Flamas da Amazônia", produzida pelo democraciaAbierta/openDemocracy e publicada em espanhol no El País. A série é apoiada pelo Rainforest Journalism Fund do Pulitzer Center. Agradecemos os testemunhos e material gráfico fornecidos pelos membros das comunidades retratadas nesta história, que permanecem isolados por causa da Covid-19.

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Zaina Erhaim Syrian journalist and winner of the Press Freedom Prize.
Agnieszka Pikulicka-Wilczewska Polish freelance journalist based in Tashkent, Uzbekistan.
Sarah Clarke Head of Europe and Central Asia, Article 19.
Chair: Nandini Archer Global Commissioning Editor, openDemocracy.

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