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A velha esquerda não entende a situação no Equador

Em carta a Jean-Luc Mélenchon, o político e líder indígena Yaku Pérez exige uma reflexão sobre o modelo que a esquerda deve propor.

Yaku Pérez
18 Maio 2021, 12.00
Mulher indígena vota na província de Pichincha, no Equador, no segundo turno das eleições presidenciais de 11 de abril de 2021
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Juan Diego Montenegro/Alamy

Carta aberta a Jean-Luc Mélenchon, presidente do partido político francês, França Insubmissa.

Equador, 30 de abril do ano andino 5.529/colonial 2021

Caro Sr. Mélenchon,

Como ex-candidato à presidência do Equador nas eleições de 2021 pelo Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik, expresso uma saudação fraterna a você e ao povo francês nestes tempos difíceis em que vivemos a crise climática e sanitária.

Estamos escrevendo esta carta aberta em resposta ao seu tuíte de 13 de abril, no qual você declara o seguinte: “Reunião calorosa com nosso candidato presidencial no Equador, @ecuarauz. Perde por 4 pontos de diferença. O candidato verde negou-lhe apoio. Resultado: 1,7 milhão de votos nulos. A direita ganha."

Consideramos importante esclarecer a proposta de nossos movimentos indígenas, ambientais e sociais, que vai além do confronto entre esquerda e direita, ambas categorias procedentes da Europa que, em nossa experiência, têm sido extrativistas, coloniais e corruptas.

A esquerda, por mais diversa que sejamos, devemos trocar ideias e identificar as lutas que nos unem. É essencial que vocês, companheiros da França Insubmissa e do resto da esquerda francesa e europeia, conheçam nossa posição no segundo turno eleitoral de 11 de abril de 2021. Muitos foram os elementos que nos impediram de apoiar um governo sob a liderança do ex-presidente Rafael Correa, assim como seus princípios políticos impossibilitaram seu apoio a Emmanuel Macron. Seu voto em branco e a abstenção de quase metade de seus eleitores (segundo as pesquisas da época) enviaram uma importante mensagem de crítica ao sistema e às opções políticas de governar. Logo, acertou novamente com sua sábia decisão de não apoiar a candidatura de Macron quando a França Insubmissa não conseguiu passar ao segundo turno, depois de atingir uma porcentagem semelhante à nossa no primeiro turno, em 7 de fevereiro, sem o fator agravante da fraude a que fomos submetidos.

Nessas eleições, o Equador teve duas opções aparentemente opostas, mas na realidade semelhantes. Por um lado, a inegável direita neoliberal representada pelo candidato banqueiro Sr. Guillermo Lasso, que co-governa com administrações em exercício há 20 anos – desde quando era super-ministro do governo de Jamil Mahuad (afastado por corrupção em 2000) até o governo Lenín Moreno (vice-presidente de Correa e seu candidato em 2017).

Por outro lado, o progressismo da esquerda populista do ex-presidente Correa representado por Andrés Arauz, um progressismo que teve a oportunidade única de transformar as estruturas socioeconômicas e éticas do Equador. Mas em vez de nos conduzir ao sonho, nos levou ao pesadelo marcado por privatizações, repressão, censura e expansão da mineração e do extrativismo petrolífero.

Longe de defender o setor público, o governo de Correa organizou uma onda de privatizações: 1) entregou a telefonia celular, em concessão por 18 anos, às multinacionais Telefónica de España e América Móvil (propriedade de Carlos Slim, o terceiro homem mais rico do mundo); 2) Fez concessões de petróleo nos locais de maior biodiversidade da Amazônia a multinacionais como AGIP da Holanda, Repsol da Espanha, PetroChina (com pré-vendas e outros casos de corrupção); 3) Cedeu centenas de milhares de hectares de biodiversidade da Amazônia e dos Andes a empresas de mineração, tirando água e territórios de povos indígenas sem consulta prévia (multinacionais chinesas e canadenses como ECSA, Jungfield-SouthAmerica, Lundingold, Iamgold, INV Metales) ; 4) Privatizou os portos marítimos mais importantes do país (Manta, Bolívar, Posorja, La Providencia).

A destruição ecológica causada pelo governo Correa é irreparável. Depois de ter feito campanha contra a extração de petróleo no caso Yasuní, acabou destruindo-o ao expandir a fronteira petrolífera dentro da reserva e abrindo as portas para o genocídio dos povos Tagaeri e Taromenane, ambos em isolamento voluntário. Correa também construiu a hidrelétrica Coca Codo Sinclair, projeto inviável realizado sem consulta e com sobretaxas que, conforme planejado, ocasionou a erosão acelerada do rio Quijos e a destruição da cachoeira San Rafael e o rompimento de oleodutos, causando contaminação que afetou mais de 120 mil amazônicos.

Infelizmente, isso não é tudo. O governo de Correa criminalizou 850 defensores da água e da natureza, em sua grande maioria camponeses e indígenas. Fraturou o movimento sindical do Equador (Frente Unitária dos Trabalhadores – FUT) e criminalizou alunos e professores, fechando a União Nacional de Educadores (UNE), sindicato mais antigo do Equador, e prendendo sua presidente Mery Zamora.

Além disso, Correa limitou o ingresso de estudantes nas universidades, acabando com a política histórica de acesso gratuito para todos, assim como quebrou a previdência social ao se apropriar dos recursos econômicos destinados aos aposentados. Também atacou a imprensa com uma lei da mordaça que permitia ao executivo controlar o conteúdo das notícias, censurar a mídia e perseguir jornalistas.

Tudo isso foi possível porque Correa tomou conta do Judiciário, ameaçando demitir qualquer juiz que permitisse ações de proteção contra o Estado em casos de direitos humanos e ambientais.

Os equatorianos não votaram no fantoche de Correa, como você gostaria, porque sentiram o autoritarismo correista na pele, que usou juízes e promotores para perseguir aqueles que pensavam diferente e para deixar impunes os atos de corrupção de seu governo.

Soma-se a isso a atitude misógina e homofóbica de Correa, seu fundamentalismo religioso e sua posição contra a agenda de gênero, direitos sexuais e reprodutivos, que impediram reformas legislativas para descriminalizar o aborto em casos de estupro – em um país onde um terço das gestações são resultado de violência sexual e onde sete meninas com menos de 13 anos dão à luz todos os dias.

Finalmente, apesar de o governo Correa ter tido a maior receita da história do Equador, longe de gerar bem-estar, deixou o país mais desamparado, desde o aumento da desnutrição infantil que atinge uma em cada três crianças, ao aumento da dívida pública, equivalente a 50% do PIB nacional. O governo de Correa foi definido pela corrupção (pela qual hoje é foragido da justiça). Por exemplo, 90% dos fundos para as vítimas do terremoto de 2016 que foram roubados. Esta suposta esquerda progressista teve a oportunidade de levar nosso povo à prosperidade, mas por quase 15 anos o que fez foi desmantelar, privatizar e corromper os recursos do povo equatoriano.

Em suma, o que nos impressiona profundamente é que um representante da esquerda francesa como você julgue nossas ações em vez de se encontrar com os múltiplos atores sociais que têm resistido a estas políticas de desapossamento do capital modernizador, um julgamento que não nos permitiria fazer para com você. O convidamos para um diálogo epistêmico no qual, sem preconceitos e em igualdade epistêmica, possamos debater o futuro de nossos povos e o futuro do planeta para combatermos juntos o aquecimento global, o patriarcado, o extrativismo e a colonialidade corrupta do poder.

Não fugimos do debate. Estamos sempre prontos para ouvir, mas como iguais. Queremos projetar uma luz de esperança de cosmovisões comunitárias, ecológicas, feministas e anti-extrativistas para um mundo onde muitos mundos diversos entram para abraçar a solidariedade planetária dos povos. É hora de democratizar, descolonizar e despatriarcalizar a esquerda, no Equador e além.

Em resistência,

Yaku Pérez Guartambel

What happens when asylum seekers are sent back into danger?


Most countries closed their borders over the pandemic, but for asylum seekers, deportation continued all over the world. More and more often, they are returned to the same life-threatening conditions that they fled.

To mark World Refugee Day on 20 June, and the launch of our multimedia project 'Parallel Journeys', join us as we explore returns without reintegration.

Speakers to be announced soon.

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