democraciaAbierta

Xiomara Castro pretende reavaliar alianças internacionais de Honduras

Candidata vencedora sugeriu retomar laços com China Continental, visando a ajuda em recuperação econômica e financiamento

Jeff Ernst
27 Dezembro 2021, 12.00
Xiomara Castro favorece realinhamento com a China Continental
|
Jose Cabezas/REUTERS/Alamy Stock Photo

Xiomara Castro, candidata de esquerda que propôs mudar as relações diplomáticas de Taiwan para a China Continental, será a próxima presidente de Honduras, após uma vitória esmagadora nas urnas em novembro.

"Acredito na multipolaridade e por isso proponho estabelecermos relações com a China Continental", disse Castro durante sua campanha, destacando ainda os benefícios econômicos que essa relação poderia proporcionar, como o maior acesso a vacinas contra Covid-19 em uma nação onde menos de 40% da população está imunizada.

Honduras é uma das 14 nações que reconhecem a independência de Taiwan. A perspectiva de mudança diplomática provocou um cabo de guerra político nas semanas anteriores às eleições de 28 de novembro, que pôs fim a 12 anos de governo conservador sob o Partido Nacional, marcado por uma crescente insegurança e escândalos de corrupção.

Mas, após as eleições, aliados de Castro acalmaram suas expectativas de uma inclinação para a China Continental — pelo menos por enquanto.

Temos uma responsabilidade com Taiwan, mas também precisamos ser realistas e pragmáticos

Honduras mantém há muito tempo laços com Taiwan, que muitas vezes fez contribuições generosas para a nação centro-americana. Segundo a Reuters, Taiwan já emprestou mais de US$ 205 milhões à nação hondurenha desde 2006 e enviou mais US$ 27 milhões em doações.

Nicarágua, Honduras e Guatemala também receberam US$ 200 mil cada de Taiwan após terem sido devastados pelo furacão Eta em 2020. Enquanto isso, a China Continental tem mantido relações comerciais com Honduras, tornando-se um de seus principais parceiros, embora o volume de importações e exportações ainda seja muito inferior ao dos EUA.

"Creio que temos uma responsabilidade [com Taiwan], com quem temos um bom relacionamento", disse Rodolfo Pastor, assessor de política externa da presidente eleita. "Mas acredito que também temos a responsabilidade para com nossa própria população de sermos realistas, pragmáticos e entendermos que a China Continental desempenha hoje um papel determinante que não podemos ignorar".

A decisão da nova administração hondurenha poderia, em última instância, se resumir à economia. Quanto mais ajuda e apoio financeiro o país receber dos EUA — que deixou claro que espera não haver uma mudança de lado —, menor é a probabilidade de que Honduras faça uma mudança.

Nos últimos 15 anos, Panamá, República Dominicana, Costa Rica e El Salvador trocaram de lado sem sofrer retaliação econômica dos EUA. Esta semana, a Nicarágua se tornou a última nação latino-americana a fazê-lo. Apesar de o Departamento de Estado norte-americano ter condenado a decisão — e descrito as recentes eleições como uma "farsa" —, ainda não se notam quaisquer implicações para as relações econômicas EUA-Nicarágua.

A cooperação com a China Continental proporcionou, em muitos casos, ganhos políticos aos líderes locais. Quando houve escassez de vacinas para a Covid-19, El Salvador ficou à frente do resto da América Central nas taxas de vacinação graças, em parte, às vacinas adquiridas com Beijing. O então presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández — que se apresentou como um aliado fiel de Taiwan — queixou-se quando seu país ficou para trás.

Embora esteja em andamento uma recontagem de votos das eleições parlamentares por alegações de fraude, Castro assumirá o poder em janeiro em meio a uma profunda crise econômica em Honduras. Com os impactos da pandemia e de furacões que assolaram o país, mais de 55% dos hondurenhos estão abaixo da linha de pobreza, segundo dados do Banco Mundial — uma das taxas mais altas em quatro décadas. Ao mesmo tempo, o país está extremamente endividado e carece de estímulos — como o de financiamentos chineses para megaprojetos na América Latina.

"Temos que resolver sérios problemas energéticos e acredito que a China pode desempenhar um papel positivo nesse sentido", disse Pastor.

O alto custo da energia em Honduras é uma das queixas mais comuns da população, com a empresa nacional de energia à beira de um colapso econômico. Os efeitos das mudanças climáticas, como os furacões que causaram inundações em 2020 e as secas prolongadas de anos anteriores, também evidenciaram a necessidade de se construir novas barragens e reservatórios d’água.

Para termos nossa própria realidade, é saudável diversificar as relações e buscar um equilíbrio que nos permita ter um contrapeso a influências indevidas

A administração Biden prometeu US$ 4 bilhões em assistência para a América Central ao longo de quatro anos, mas esse dinheiro será em grande parte distribuído via organizações da sociedade civil e do setor privado, sem financiar grandes projetos de infraestrutura. A China e seus investidores, entretanto, provavelmente estariam dispostos a preencher algumas das lacunas e demonstraram interesse, por exemplo, no financiamento da hidrelétrica de Patuca III e na exploração de projetos ferroviários e portuários em Honduras.

Na semana anterior às eleições, uma delegação dos EUA visitou Honduras para deixar clara sua esperança de uma eleição livre e justa, assim como a manutenção da relação do país centro-americano com Taiwan. Zhao Lijian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, respondeu: “Este comportamento violento e intimidador não conquistará corações e mentes”.

Zhao também advertiu sobre o "comportamento hegemônico" dos EUA na região.  "Duzentos anos depois, os EUA ainda acreditam no velho sonho e tratam os países latino-americanos dentro de sua esfera de influência", disse ele, referindo-se à Declaração Monroe de 1823, vista por alguns como um incentivo às intervenções dos EUA em assuntos latino-americanos.

Xiomara Castro está consciente de tal tendência. Em 2009, seu marido, o ex-presidente Manuel Zelaya, foi deposto em um golpe apoiado por militares e que não foi condenado pelo Departamento de Estado dos EUA. Além das razões econômicas, a proposta de Castro também pode ser uma tentativa de fortalecer a soberania hondurenha.

"Algo que é fundamental para mim, pessoalmente, é buscar o equilíbrio", disse Pastor. "Se dependemos apenas dos EUA, como tem sido historicamente o caso, então os EUA têm uma influência indevida sobre nossa realidade. Para termos nossa própria realidade, é saudável diversificar as relações e buscar um equilíbrio que nos permita ter um contrapeso a essa influência indevida".


Este artigo foi originalmente publicado em Diálogo Chino. Leia o original aqui.

We've got a newsletter for everyone

Whatever you're interested in, there's a free openDemocracy newsletter for you.

Assine nossa newsletter Acesse análises de qualidade sobre democracia, direitos humanos e inovação política na América Latina através do nosso boletim semanal Inscreva-me na newsletter

Comentários

Aceitamos comentários, por favor consulte ás orientações para comentários de openDemocracy
Audio available Bookmark Check Language Close Comments Download Facebook Link Email Newsletter Newsletter Play Print Share Twitter Youtube Search Instagram WhatsApp yourData