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América Latina: da cosmopolítica à tecnopolítica

Uma característica específica dos novos movimentos sociais latino-americanos é o seu sincretismo: a cultura do 15M/Occupy Wall Street mistura-se com cosmovisões indígenas ancestrais. English Español

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No dia 18 de setembro de 2013, os índios Munduruku da Amazônia brasileira enviaram uma nota de apoio aos “movimentos de luta pelas manifestações nas ruas”. Desde as denominadas “jornadas de junho”, as revoltas massivas que puseram de pernas para o ar a política brasileira, as ruas do país continuavam em ebulição. A luta do povo Munduruku recebeu o apoio dos movimentos urbanos. E os Munduruku Ipêrẽgayũ escreveram uma carta retribuindo a solidariedade: “Agradecemos a todos movimentos que manifestaram a sua indignação nas ruas, de todos os setores sociais e de todas as classes sociais existentes”. Enquanto os Munduruku lutavam contra as companhias hidroelétricas no seu território, as ruas do Rio de Janeiro eram uma explosão de símbolos sincréticos, um encontro de lutas urbanas e causas ancestrais. Uma Batman ativista corria ao lado dum índio Kurubo nas manifestações. A fotografia de perfil do Anonymous Rio, foi estilizada com penas indígenas. E a Aldeia Maracanã, o antigo Museu do Índio que o governo queria derrubar para construir o estacionamento do Estádio, converteu-se no ícone da revolta na que conviviam jovens streamers e xamãs de diversas tribos. A cosmopolítica, termo usado para definir a visão do mundo do líder ianomâmi Davi Kopenawa, tornava-se urbana. E a tecnopolítica da era das redes digitais e das multidões apoderadas percorría no Brasil caminhos imprevistos e tingidos de cosmovisões ancestrais.

A investigação “Novas Dinâmicas de Comunicação, Organização e Agregação Social. Reconfigurações tecnopolíticas”, desenvolvida depois duma convocatória global da OXFAM, tinha como objetivo entender melhor as “novas formas de participação cidadã e “os processos sociais sem centro” da América Latina. Apesar de que o estudo prestou especial atenção às redes sociais, uma das suas principais conclusões foi que o ADN ancestral colaborativo latino-americano (mecanismos orientados ao bem comum como a como la minga quíchua, el tequio nauatle ou o ayni aymara) e algumas cosmovisões como o conceito de Boa Vida convivem na região com as dinâmicas tecnopolíticas e o hacktivismo.