
Protesto de 15/03 em São Paulo, Brasil. FLickr. Alguns direitos reservados
No final de 2008, na luxuosa Galeria Oeste de São Paulo pagavam-se até 20.000 dólares por uma pelúcia de Luiz Inácio Lula dá Silva, então presidente de Brasil. pelúcia presidencial era um desejado amuleto hype. Podia-se abraçar com amor e/ou ódio. Podia-se maltratar com fingido desprezo, mas com um fundo de respeito. O projeto Lula de pelúcia, do artista Raul Mourão, visibilizava o principal milagre do presidente de Brasil: reconciliar emocionalmente a um dos países mais desiguais do mundo. Antes de Lula, a única unanimidade dos brasileiros, segundo a irónica sabedoria das conversas dos botecos (bares), era o cantor Chico Buarque. Uns anos após a chegada do PT no governo, a unanimidade era Lula: o presidente de andar por casa que agradou / compensou a ricos e pobres ao mesmo tempo. Apesar de escândalos de corrupção como o mensalão, só o 11% dos brasileiros pensava em 2008 que a gestão do presidente era má. Lula era um ícone, um mito quase intocável. “Foi um produto de marketing perfeito, massivo”, afirmava na época Raul Mourão.
Sete anos depois, o Lula de pelúcia transformou-se num gigantesco boneco inflável com roupa de presidiário, sarandeado nas manifestações que pedem o impeachment de Dilma Rousseff. No passado dia 16, um boneco gigantesco com o número 13-171 presidiu o protesto em Brasília: 13 pelo número que simboliza o PT nas urnas eletrónicas, 171 pelo artigo do código penal (estelionato), uma expressão (171) muito usada para alguém que não é de fiar. De pelúcia milagrosa a satírico fantoche. De amuleto a ser insultando com o parodiado “171”. Lula, que até faz uns meses estava nas previsões como candidato em 2018, não se livra do derrube do PT. Lula está em cheque: o escândalo de corrupção do gigante da construção Odebrecht aponta a Lula como lobista internacional. Uma pesquisa recente mostra que Lula perderia as eleições contra Aécio Neves, Geraldo Alckmin ou José Serra, os três possíveis candidatos do conservador Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). A situação de Dilma Rousseff não tem precedentes: apenas um 8% do país aprova sua gestão. Como se explica o afundamento se o PT, em aliança com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), ganhou as eleições em outubro de 2014?