democraciaAbierta: Opinion

Twitter e Facebook podem censurar Trump em nome da democracia?

Embora achemos a censura do ainda presidente dos Estados Unidos justa, não devemos esquecer que as duas redes sociais mais poderosas do mundo são atores com interesses políticos e econômicos.

Iván Schuliaquer
14 January 2021
Conta do Twitter de Donald Trump suspensa
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Captura de pantalla de la cuenta de Donald Trump, suspendida.

Twitter e Facebook bloquearam os posts de Donald Trump e suspenderam sua conta. Sua trajetória política não deixa dúvidas de que o ainda presidente dos Estados Unidos é antidemocrático. Entretanto, a preservação da democracia é uma tarefa das instituições públicas e não das corporações. Nesse sentido, por mais reconfortante e justo que possa parecer censurar Trump diante de uma possível tentativa de golpe de estado, estabelece um precedente perigoso.

Parece óbvio, mas não é supérfluo repeti-lo: Twitter e Facebook são atores políticos. Por trás da opacidade dos algoritmos, da lógica de publicação e segmentação, há máquinas, mas há também pessoas com interesses econômicos e políticos. O peso dessas multinacionais que brigam pela atenção ficou escancarado: a pessoa mais poderosa do planeta perdeu sua principal maneira de se expressar, porque os proprietários de uma plataforma assim decidiram. Em outras palavras, multinacionais podem censurar o presidente do Estado mais rico do mundo.

Em maior ou menor grau, os meios de comunicação de massa tradicionais são considerados atores com seus próprios interesses. Entretanto, nenhuma das empresas tradicionais de mídia imaginava, nem mesmo em seus sonhos mais felizes, com um poder semelhante ao de empresas como Google ou Facebook, que estão entre as cinco com maior capitalização do mundo e têm uma força incomum para representar, filtrar e construir parte do mundo em que vivemos.

Nesse sentido, embora a política ainda esteja sendo processada em nível nacional, as plataformas digitais mais utilizadas são as mesmas na maior parte do planeta. E ninguém escolhe os proprietários dessas redes, que são um espaço central para o debate público, para as relações entre as pessoas e para fornecer informações à população, mas eles são, ao mesmo tempo, empresas privadas que buscam o máximo retorno econômico.

A solução não é delegar a gestão da democracia às corporações

Portanto, não podemos descontextualizar o momento e a oportunidade política que as plataformas escolheram para censurá-lo. O fizeram quando Trump já estava de saída e no dia em que ficou definido que os comitês legislativos responsáveis pela regulamentação das grandes corporações digitais serão presididos por democratas.

Não será a primeira ou a última vez que as decisões que afetam o mundo são tomadas nos Estados Unidos, tendo sua política interna em mente. Se o Facebook e o Twitter se tornarem os guardiões do que é aceitável ou censurável, as consequências para a democracia serão muitas.

De que lado teriam estado em novembro de 2019 na Bolívia? Quem deve ser censurado, o destituído presidente Evo Morales ou o secretário-geral da OEA, Luis Almagro? Qual seria o medidor democrático dos proprietários do Vale do Silício?

A política democrática requer um consenso contingente, muitas vezes traduzido em instituições, e vive em uma fragilidade sempre preocupante – que fica mais evidente quando governam setores autoritários. A solução não é delegar a gestão da democracia às corporações.

Além disso, Trump não nasceu de um repolho. Sua transformação de um empresário bilionário em político foi parcialmente fabricada nas redes sociais, com sua lógica algorítmica, bolhas ideológicas onde todos se sentem maioria e nas quais certas mentiras podem assumir o status de verdade com menos dificuldade.

A sociedade americana, rica em grupos de supremacia e teorias da conspiração, foi um terreno fértil para essa lógica de redes permitir que o que circulava por meio de pequenos grupos segmentados fosse replicado, massificado e articulado. Tudo isso seria impensável sem o Google, o Facebook e o Twitter, mas também sem a Fox News, peça central da narrativa da extrema direita americana.

O que estamos vivendo não é uma direitização das sociedades, mas uma radicalização antidemocrática da direita

Vale lembrar que a trajetória política de Trump começou com uma fake news, amplamente divulgada no YouTube e em várias redes sociais, em que o atual presidente alegou que Barack Obama não era americano e disse que doaria US$ 5 milhões para caridade caso o então presidente fosse capaz de desmenti-lo.

Faz tempo que as redes sociais mostraram não ser o que alguns haviam previsto em meados dos anos 2000: um lugar para a horizontalização da informação, para aumentar a democracia, onde a possibilidade de todos terem a palavra levaria a uma sociedade melhor.

As previsões otimistas foram quebradas na última década e acabaram afundando com os triunfos de políticos como Trump e Jair Bolsonaro. As redes foram o cenário, mas também os produtores, do surgimento da ultra-direita: um terreno também intervencionado por trolls, fake news e muito investimento para, como dizem Natalia Aruguete e Ernesto Calvo, acabar com o debate.

Portanto, o que estamos vivendo não é uma direitização das sociedades, mas uma radicalização antidemocrática da direita.

As redes sociais desempenharam um papel central na disseminação do discurso do ódio, um campo no qual deveriam ter intervindo e no qual fizeram muito pouco até agora. A liberdade de expressão não é um direito absoluto, especialmente quando estigmatiza e criminaliza outros.

Mas censurar o presidente dos Estados Unidos já é outra coisa e abre um caminho perigoso. Um caminho que parece estar perdido em algoritmos e na imaterialidade obscura do mundo digital, mas onde alguns sempre decidem quando e onde ativar o botão.


Este artigo foi originalmente publicado em Cosecha Roja em espanhol e traduzido ao português pelo democraciaAbierta. Leia o original aqui.

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