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Conferição das eleições Argentinas

Factos, mentiras e estatísticas: estes são os fatores chave que determinarão a campanha das eleições nacionais na Argentina do próximo mês de outubro. Español. English.

Vicky Baker
18 September 2015
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Plaza de Mayo, Buenos Aires, Argentina. Lauro Maia Flickr. Some rights reserved.

É a taxa de pobreza na Argentina menor que a de Alemanha? Não parece provável, e muita gente ficou gelada quando a presidenta argentina Cristina Fernández de Kirchner disse, numa cimeira da ONU em Roma no passado mês de junho, que a taxa de seu país tinha caído por debaixo do 5%. Posteriormente, seu chefe de gabinete, Aníbal Fernández, deu um passo mais nesta direção quando confirmou que Argentina estava em realidade superando a Noruega, Dinamarca e Alemanha no que se refere à luta contra a pobreza.

Factos, mentiras e estatísticas: estes são os fatores chave que determinarão a campanha das eleições nacionais em Argentina do próximo mês de outubro, com a oposição assegurando que oferecerá uma maior transparência que a que oferece o atual governo, que lidera Cristina Fernández desde o ano 2007.

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Cristina Fernández de Kirchner, 2015. Flickr. Some rights reserved.

A Argentina tem um problema importante com as estatísticas. A combinação de uma imprensa altamente partidária com alguns dados oficiais muito pouco convincentes tem gerado uma enorme quantidade de informação pouco credível. O país tem uma das taxas de inflação mais altas do mundo, e mesmo assim, o seu escritório nacional de estatística, INDEC, tem vindo a menosprezar os números durante anos. Atualmente, a taxa de inflação está à volta dos 15%, segundo fontes oficiais, mas analistas independentes sugerem que na realidade poderia aproximar-seao dobro dessa número. Alguns economistas têm sido ameaçados com multas, ou com a prisão, por defender número alternativos.

Quiçá o exemplo mais chamativo de falsificação de contas na Argentina produziu-se no ano 2011 quando Guillermo Moreno, secretário de Comércio Interior, supostamente pediu à McDonalds Argentina que baixasse o preço do Big Mac, no que se interpretou como uma tentativa de conseguir uma melhor posição no Índice Big Mac que a cada ano publica o The Economist no que, segundo a revista, se trata de “fazer que a teoria do tipo de mudança seja um pouco mais digerível”, comparando o preço destes hambúrgueres em todo mundo. A corrente de comida rápida queixou-se, mas os clientes viram como o Big Mac desaparecia dos menus nos balcões. Existia, se o cliente o pedia expressamente, mas a corrente tinha visivelmente a esperança de que os clientes se inclinassem para outras ofertas, cujo preço se ajustava mais à realidade.

“Os nossos dirigentes não vão parar de mentir, ou de usar os números da maneira mais estratégica possível” disse Laura Zommer, diretora de Chequeado, a organização Argentina independente de fact-checking. “Mas o antídoto contra tudo isto é aumentar o custo da mentira. E isto consegue-se fazendo que o público esteja mais alerta e faça mais perguntas”.

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Oficinas de Chequeado em Buenos Aires. Pablo Martín Fernández/Flickr. Some rights reserved.

Zommer falava com Index on Censorship sobre a expansão da indústria do fact-checking a nível global. O último número de sua revista, Index tem detalhado algumas organizações de fact-checking, desde o Reino Unido até à África do Sul. Hoje existem no mundo 64 páginas sites ativos dedicadas a analisar e, potencialmente, a desmascarar afirmações políticas ou jornalísticas, incrementando-se em 44 desde a contagem do ano passado. A segunda Cimeira Global de Fact-checking teve lugar em Londres em julho, com a participação de 31 países.

“Parece que estamos assistindo a uma tendência global” disse a Index Will Moy, diretor da organização britânica de fact-checking Fullfact.org. “Não estou seguro se isto se deve a um sentimento de suspeita crescente entre as pessoas ou a que internet facilita comprovar os fatos e comparar fontes primárias. Quiçá se deve a uma busca de autenticidade? Parece claro que estamos perante algo substancial”.

Fundado em 2010, Chequeado é um médio digital indepedente e sem fins de lucro “que se dedica à verificação do discurso público e a promoção do acesso à informação e a abertura de dados”, e cujo objetivo é “melhorar o debate público”. Foi a primeira organização independente de fact-checking na Latino América, endo muitas outras surgido desde então, desde a uycheck.com no ruguai, e o Sabueso no México, gerenciada por Animalpolítico.com.

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Slums, Rio Grande, Argentina. Jim Kearns/Flickr. Some rights reserved

Zommer disse que a organização tem sido bem recebida pelo público e a imprensa. Tem posto em marcha acordos de colaboração, por exempo com três estações de rádio, e publica colunas de fact-checking em dois diários (no diário de alcance nacional A Nação, e no quotidiano em inglês Buenos Aires Herald). Quando Cristina Fernández pronunciou seu discurso de abertura das sessões da Assembleia Legislativa em Março , Chequeado realizou um evento de fact-checking ao vivo via Twitter: sendo o seu hashtag #ChequeadoCFK, que teve 1,5 milhões de "impactos".

No caso das estatísticas sobre a pobreza, ao mesmo tempo em que a imprensa antigovernamental desfrutou pondo em evidência o disparate, Chequeado foi para além. Desmascarou as afirmações, pondo também em evidência que Argentina e Alemanha têm métodos diferentes apara fixar a linha da pobreza. Na Argentina, este índice baseia-se nos rendimentos necessários para comprar uma cesta de produtos básicos de alimentação. Na Alemanha, como em outros muitos países calcula-se em termos relativos: consideram-se pobres aqueles que ganham bastante menos que a média dos rendimentos da maior parte da população.

Há muita evidência que demonstra que o trabalho de Chequeado tem impacto. Jorge Capitanich , o antigo chefe de gabinete, respondeu diretamente a Chequeado numa conferência de imprensa, divulgando, uma vez que suas afirmações sobre a mortalidade infantil demonstraram-se falsas, as fontes que tinha utilizado. E o ex-vice-presidente Julio Cobos admitiu ter-se enganado, após ter afirmado que o 85% dos prisioneiros não tinham terminado os estudos primários. “Excelente trabalho” disse no Twitter.

Boy is ignored as he sits on the pavement in Rosario, Argentina. Pablo Flores Flickr. Some rights reserved_0.jpg

Rosario, Argentina. Pablo Flores/Flickr. Some rights reserved

Mas Chequeado apressa-se a sublinhar que o seu objetivo não é só ir atrás do governo. Também são submetidos ao seu escrutínio os políticos da oposição e os jornalistas. O jornalista Jorge Lanata, um dos mais críticos com Cristina Fernández é um dos analisados. Põem-se em evidência, como a qualquer outro, as suas falsidades, mas também seus exageros, ou as suas afirmações tendenciosas.

Diz Zommer que sua intenção é facilitar o uso de uma plataforma que gere confiança entre a gente, qualquer que seja sua inclinação política. “Com frequência, alguém tem informação que contradiz a do governo, mas não vêm ao dizer publicamente porque têm medo, ou porque querem evitar a confrontação. Parte do nosso trabalho é proporcionar uma plataforma neutra. Queremos abrir a porta a que a gente nos possa trazer informação”.

As eleições em Argentina terão lugar o 25 de outubro, com uma possível segunda volta a 22 de novembro. A constituição não permite que Cristina Fernández se apresente a um terceiro mandato, mas o candidato único de seu partido, Daniel Scioli, continua a ser o favorito. Enquanto, a oposição continua a tentar captar a atenção do público prometendo uma maior transparência. “O primeiro é recuperar o INDEC. “Não podemos mentir ao mundo”, disse em candidato da oposição, Sergio Massa, em um debate recente. Chequeado tem posto o olho também nele.

Já está disponível o número de outono da revista Index on Censorship : “Spies, Secrets, Envolva: How Yesterday’s and Today’s Censors Compare”, que inclui uma comparação entre organizações de fact-checking de todo mundo.

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