democraciaAbierta: Analysis

A construção do demônio na sociedade brasileira

O discurso neopentecostal fomentou a campanha de Bolsonaro em 2018. Diante das eleições, é importante entender sua lógica

Gabriela Sánchez Martínez
19 Julho 2021, 9.53
Fiéis durante culto neopentecostal em Salvador (BA), em 2018
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Godong/Alamy Stock Photo

Jair Bolsonaro foi "escolhido por Deus" para libertar o Brasil dos "tentáculos do comunismo", afirmou o pastor evangélico Magno Malta durante a corrida presidencial de 2018.

Com base nessa assertiva, o demônio estava à solta no Brasil e Bolsonaro era o único que podia salvar o país diante da ameaça. Após mais da metade de mandato e com os olhos nas eleições de outubro de 2022, já podemos vislumbrar qual será seu legado na sociedade brasileira.

Além da má gestão da pandemia, entre outras muitas desgraças, a grande herança que Bolsonaro deixa para o Brasil é um antagonismo que fratura a sociedade e cujas chamas são alimentadas diariamente do Palácio do Planalto. No entanto, para muitos de seus seguidores, essas chamas nada mais são do que os resquícios de uma guerra entre o bem e o mal.

Os lados dessa disputa alcançaram sua máxima expressão política no segundo turno das eleições de 2018. O voto popular deu a vitória a Jair Bolsonaro sobre o petista Fernando Haddad, após 16 anos de poder do Partido dos Trabalhadores (PT), governos que tiveram como emblemas o desenvolvimentismo e apoio às camadas mais pobres da população.

Dessa forma, o ex-militar, defensor da moral cristã e ultradireitista tornou-se o atual presidente do Brasil, concretizando a polarização que fratura a sociedade brasileira desde 2013, com os primeiros protestos contra e a favor do governo Dilma Rousseff.

Em 2013, a manipulação da mídia e a judicialização da política se tornaram instrumentos fundamentais na luta pela destituição do PT

Começava-se assim um novo ciclo político no país caracterizado pela veemência, onde a manipulação da mídia e a judicialização da política se tornaram instrumentos fundamentais na luta pela destituição do PT.

Em eventos como as eleições de 2014, o impeachment de Dilma Rousseff, a campanha eleitoral de 2018, além da vitória do Bolsonaro, as elites políticas contribuíram para a polarização da população.

Embora esses eventos tenha capturado a atenção da mídia, outro fenômeno caracterizou esse novo ciclo político: a ascensão do movimento evangélico neopentecostal como ator político e seu apoio ao candidato Bolsonaro à presidência de 2018. Essa tendência religiosa vinha crescendo desde os anos 1970 no país, em detrimento da opção católica. De 1970 a 2010, os evangélicos passaram de 5% para 22% da população brasileira enquanto, no mesmo período, o catolicismo caiu de 92% para 64,4% do total da população, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IGBE).

O evangelismo neopentecostal é caracterizado por uma estrutura fortemente hierárquica, gestão empresarial, bem como pela difusão de mensagens de prosperidade. Todas essas particularidades aproximam essa vertente de um modelo religioso de pregação do capitalismo. As empresas que lucram com as normativas de vestimenta propostas por seus pastores – como a marca de moda evangélica Joyaly – ou aquelas que o fazem comercializando objetos religiosos de todos os tipos demonstram essa proximidade entre o econômico e o espiritual dentro da estrutura dessa designação religiosa.

No entanto, a especialidade comercial do evangelismo neopentecostal são as comunicações – a Igreja Universal do Reino de Deus é dona da segunda maior emissora do Brasil: a RecordTV. Desta forma, Edir Macedo, um dos mais importantes líderes religiosos do país, tornou-se um dos grandes magnatas da comunicação no Brasil.

Essa indefinição da linha entre o público e o privado, o político e o religioso, é de grande relevância para a compreensão do poder polarizador da mensagem neopentecostal

Nesse sentido, também se destaca o uso de redes sociais para divulgar mensagens com forte viés político, incluindo fake news como o que denunciava a distribuição de um kit gay para crianças da escola primária. Essas mensagens, veiculadas sem nenhum tipo de censura, tiveram a capacidade de extrapolar o limite entre religião e política, graças a ideias como “irmão vota em irmão”, que fez parte da campanha presidencial de Jair Bolsonaro.

Essa indefinição da linha entre o público e o privado, o político e o religioso, é de grande relevância para a compreensão do poder polarizador da mensagem neopentecostal, uma vez que seu conteúdo tenha sido exposto. É útil compreender esta mensagem como um discurso, porque permite esbater os limites entre o linguístico e o extralinguístico para compreender a capacidade de uma mensagem – por exemplo, religiosa – de construir e modelar a realidade social.

Um dos pontos fundamentais desse discurso é a guerra espiritual, que implica compreender "o mundo como um campo de batalha entre as forças do bem e do mal", como explicam os antropólogos Ari Pedro Oro e Marcelo Tavdad. Em sua versão estritamente espiritual, essa dualidade com implicações bélicas tem forte potencial moralizante e dogmático, mas aplicado ao mundo político, esse potencial torna-se antidemocrático uma vez que abafa o diálogo e o respeito à pluralidade, convertendo o campo do social em um antagonismo irreconciliável. Afirmações como a do pastor Silas Malafaia confirmam essa beligerância que impede o diálogo: “Eles nos chamam de fundamentalistas. Fundamentalistas porque defendemos a família, defendemos valores morais, somos contra as drogas. Sabe o que eles são? Os fundamentalistas do lixo moral”.

Compreendendo a guerra espiritual como uma forma de antagonismo, ela permite a construção de identidades em seus lados que são moldados pela oposição ao outro. A bancada evangélica no Congresso, que durante os anos do governo Lula (2003-2010) apoiou o presidente e o PT por meio de seus representantes, não definiu um discurso político próprio até os anos da presidência de Dilma Rousseff.

Diante das eleições presidenciais de 2022, o PT tem o desafio de, mais uma vez, convencer os brasileiros de que há uma opção que permite a todos vencer

Em 2013, com o início do novo ciclo político, lideranças políticas e religiosas evangélicos aderiram à tendência polarizadora que percorria o país para construir, em termos religiosos, um demônio contra o qual se posicionar politicamente e contra o qual lutar para formar sua própria identidade. Desse modo, o discurso neopentecostal, que havia apoiado o discurso do consenso proposto por Lula, se consolidou em torno justamente de seu próprio antagonismo como elemento central de sua identidade. Nesse contexto, a guerra espiritual passou a fazer sentido.

O demônio construído – em termos simbólicos – era petista, comunista, defensor dos direitos LGBT, mulher e feminista. Diante dessa ameaça para as crenças evangélicas, para a prosperidade dos brasileiros e do país, o discurso neopentecostal como representante do bem teve que se posicionar politicamente, rompendo novamente a barreira entre o público e o privado.

Através da construção de uma figura diabólica responsável todos os males percebidos, e com o apoio do poder comunicativo de seus dirigentes e da força de mensagens como “irmão vota em irmão”, forjou-se uma guerra espiritual e, portanto, a criação de um campeão do bem como Jair Bolsonaro, que anunciou sua candidatura à presidência como uma "missão de Deus".

Após mais de 500 mil mortes por Covid-19 no país, a ideia de Bolsonaro como um messias ficou para trás, mas os efeitos dessa guerra espiritual são de grande importância para entender a realidade política do Brasil hoje.

A utilização de ideologia de cunho religioso-moral como a dualidade entre o bem e o mal na esfera política é perigosa devido à sua capacidade de fragmentar uma sociedade, introduzindo elementos de grande poder simbólico e gerando uma polarização sem embasamento real na sociedade. Isto é, uma polarização que não existe na população, mas é gerada para introduzir um novo sistema de crenças, valores e antagonismos.

Compreendendo a política para além das instituições, a democracia requer debate e diferença para existir. Desse modo, a ideia de uma guerra espiritual é antidemocrática na medida em que visa eliminar a outra. No entanto, é uma ferramenta política útil porque ilustra uma cruzada em que uma figura redentora se apresenta como a única solução para o abismo do mal.

O antagonismo, assim entendido, é uma escolha discursiva útil na medida em que é eficaz para mobilizar votos diante de um demônio que, em última instância, nada mais é do que uma construção política. Diante dessa realidade, e diante das eleições presidenciais de 2022, o PT tem o desafio de, mais uma vez, convencer os brasileiros de que há uma opção que permite a todos vencer.

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