“Temos uma profunda repulsa por quem não é brasileiro”, afirmou Bolsonaro ao se referir às organizações não-governamentais (ONGs) estrangeiras que atuam no Brasil em defesa da Amazônia e dos povos indígenas, ameaçados por uma política ambiental predatória e não-sustentável por parte do seu governo. Esta frase chocante torna-se ainda mais grave porque proferida pelo presidente da República e não por um dos seus milicianos anônimos nas redes sociais. Apesar disso, parte da imprensa comercial tratou essa manifestação expressa de xenofobia e racismo apenas como “polêmica”. Talvez essa parte da imprensa esteja anestesiada pela sequência de absurdos perpetrados por Bolsonaro - a afirmação xenófoba vem logo depois de o presidente insultar governadores do Nordeste do Brasil, e, portanto, todos os nordestinos, com termos e estereótipos racistas - ou talvez essa parte da imprensa esteja só sendo cínica.
A xenofobia de Bolsonaro deveria ser tratada como algo mais grave do que o foi porque, primeiro, ele falou no plural (“TEMOS uma profunda repulsa por quem não é brasileiro”), como se sua aversão aos estrangeiros fosse compartilhada por todos os brasileiros e brasileiras. Líderes fascistas gostam de falar em nome do “povo”, das maiorias, ao mesmo tempo em que criam - e apontam para - seus inimigos, mas falam mesmo apenas em nome dos que constituem seus governos ditatoriais, autocracias ou teocracias.
Ora, as maiorias, no Brasil, não têm repulsa a estrangeiros. O país é efeito de imigrantes italianos, japoneses, alemães, sírios-libaneses, turcos, espanhóis, chineses, senegaleses, haitianos e de imigrantes de países da América Latina e do Caribe, sem falar dos portugueses, os primeiros estrangeiros a colonizar as terras brasileiras e a trazer, para o país, na condição de escravos, estrangeiros da África subsaariana. Todos sabemos disso, seja pelo estudo da História, seja pela experiência empírica, e, até a extrema-direita começar a emergir na cena política a partir do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, sempre convivemos bem com essa diversidade cultural. Quero crer que as pessoas de origem estrangeira no Brasil que votaram ou não em Bolsonaro estejam escandalizadas com a essa afirmação xenófoba, assim como espero que os membros da comunidade judaica que aplaudiram seu racismo contra quilombolas durante a campanha tenham tremido de arrepio diante da promessa de Bolsonaro de indicar, para o Supremo Tribunal Federal, alguém “terrivelmente evangélico”, afinal de contas, um evangélico fundamentalista não será tolerante com quem não acredita que Jesus é o Messias, que é o caso dos judeus (e a comunidade judaica está em vantagem, visto que nem precisou de um ministro da Suprema Corte “terrivelmente cristão” para que milicianos pró-Bolsonaro depredem terreiros de candomblé e centros de umbanda e ameacem seus sacerdotes sob a complacência das polícias civis e militares).